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Texto

Gregório de Matos, o poeta satírico

Por: Sirlane Santos
                      “Por definição, todo poeta satírico é um poeta político”
                                                        (João Carlos Teixeira Gomes)

Diante do que podemos observar, Gregório de Matos se fez “bem brasileiro” com a sua capacidade de satirizar e ironizar a sociedade do século dezessete (XVII), frente à política rígida e hierárquica daquela época. Não é por acaso que o poeta barroco, Gregório de Matos, é popularmente conhecido como o boca de brasa, assim definido por João Carlos Teixeira Gomes ou há quem o conheça como o boca do inferno, mas, independente da nomenclatura  que a sociedade aderiu, Gregório de Matos foi e continua sendo considerado um dos grandes iniciadores da literatura brasileira.
Toda essa fama de boca do inferno que Gregório de Matos possuía, não é somente devido a sua capacidade exuberante de satirizar através de seus poemas. Podemos associar também com a sua postura de homem boêmio, mulherengo e se assim for cabível, de palavras e gestos pornográficos que o mesmo possuía. Afinal de contas era dessa forma que o poeta “queimava” os seus inimigos.
Talvez, se Gregório não utilizasse esses vocábulos de baixo calão, com obscenidades em suas poesias, provavelmente, sua poesia não surtisse o efeito que o mesmo almejava que era criticar o sistema e exercer o seu papel político de cidadão capaz e competente. Por tal motivo é que João Carlos nos remete que “por definição, todo poeta satírico é um poeta político” (GOMES, p. 20).
 Segundo nos apresenta o professor de Literatura Brasileira, João Carlos Teixeira Gomes, Gregório de Matos era de classe alta em condição social, possuía uma vida aventureira, misteriosa e marcada por dúvidas, pois, havia suspeitas de plágio em suas poesias. O poeta era acusado de copiar as idéias dos poetas castelhanos. Nesse momento a literatura espanhola estava vivenciando seus dias de glória, de grande prestígio e Gregório, sendo acusado de se aproveitar desse momento para tomar posse da autoria de outros.
O poeta baiano, Gregório de Matos, de quem vos apresento, teve uma caminhada e formação jesuítica, em uma instituição conhecida como Companhia de Jesus, fundada pelo jesuíta Inácio de Loyola, consagrado como Santo depois de sua morte, devido a sua peregrinação e testemunho de fé.
Depois de passar por essa formação religiosa, Gregório foi para Coimbra onde se formou em Direito, o mesmo, foi ligado ao clero durante muito tempo, porém, não foi esse contato com a igreja que o impediu de soltar seu “veneno”, sem nenhum tipo de piedade em relação ao clero, ele era ousado e muito atrevido, assediava as religiosas e transformou a “linguagem barroca” em linguagem baiana e bastante popular. Sem duvidadas, o poeta foi um dos mais marcantes na língua portuguesa no período barroco.
Gregório de Matos provoca ira de um parente próximo do Governador Geral do Brasil por ter ofendido o mesmo com palavras “baixas” e vai (em forma de castigo) contra a vontade para a Angola (1694), onde Gregório deixa nítido a sua personalidade e seu racismo.
Não podemos ter Gregório de Matos como aquele que somente fala-nos coisas irônicas e sarcásticas, a poesia de Gregório possuía ramificações. O mesmo também escrevia poesias líricas, de fundo moral e religioso (lírica, sacra, satírica e erótica) que revelava o amor.
 Um dado importante e que provavelmente poucos sabem,quando em vida, o poeta não publicou nenhuma poesia. Os seus poemas circulavam oralmente ou através de manuscritos. E era dessa forma que os seus poemas passavam a ser conhecidos por muitos.
Foram vários autores que escreveram sobre Gregório de Matos, apesar da existência de tantas dúvidas em relação à autenticidade de seus poemas, o seu prestígio foi de uma singularidade incomparável, tanto que, se falarmos do boca do inferno,  não se confunde com outro qualquer, a referência é remetida ao poeta baiano Gregório de Matos, único e intenso em sua postura e palavras sarcásticas.



 















Anexo I
Um soneto que demonstra logo na primeira estrofe, características de seus sentimentos intensos e torturantes. Seguindo para a segunda estrofe, o autor deixa expressa a angústia de sofrer e dissimula o sofrimento. A evocação da natureza é perceptível no primeiro terceto e por fim, é na quarta estrofe que o poeta demonstra conseguir conter a expressão de seus sentimentos.
Soneto
Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno, e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto.

O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro no coração é que o sustento:
Com que, para penar é sentimento;
Para não se entender, é labirinto.

Ninguém sufoca a voz nos seus retiros:
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá em ecos a Terra, o Mar suspiros.

Mas ó do meu segredo alto conceito!
Pois não chegam a vir à boca os tiros
Dos combates que vão dentro no peito.
MATOS, Gregório de.


Anexo II
Poema que Gregório de Matos recitou em cima de um palco em resposta a uma religiosa que o dirigiu a palavra de forma que lhe desagradou. Gregório sem deixar “passar em branco” a respondeu utilizando alegoria e fazendo gestos obscenos para a mesma.
Décima
“Se Pica- Flor me chamais,
Pica- Flor aceito ser,
mas resta agora saber,
se o nome que me dais,
meteis a flor, que guardais

no passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de me o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica- Flor.”
Eis um dos motivos que fizeram com que o poeta fosse “rotulado” de obsceno, vulgar e imoral.

A metrificação
São versos com dez sílabas - decassílabos.

Soneto
Se/nho/ra/ mi/nha/, se/ de/ tais/ clau/su/ras
tan/tos/ do/ces/ man/dais/ a u/ma/ for/mi/ga,
que es/pe/rais/ vós/ a/go/ra/ que/ vos/ di/ga,
se/ não/ fo/rem/ mu/chís/si/mas/ do/çu/ras?

Eu es/pe/rei/ de/ a/mor/ ou/trás/ vem/tu/ras,
mas/ ei-/ lo/ vai/, tu/do/ que é/ dar/ o/bri/ga,
ou/ já/ se/já/ fa/vor/, ou/ já u/ma/ fi/ga,
da/ vos/as/ mão/ são/ tu/do am/bró/sias/ pu/ras.

Vos/so/ do/ce a/ to/dos/ diz:/ Co/mei/-me!
de/ chei/ro/so/, per/fei/to e/ as/se/a/do,
e eu/ por/ gos/to/ lhe/ dar/, co/mi e/ far/tei/-me.

Em/ es/te/ se a/ca/ban/do i/rá/ re/ca/do,
e/ se/ vos/ pa/re/cer/ glu/tão/, so/frei/-me
em/quan/to/ vos/ não/ pe/ço ou/tro/ bo/ca/do.
 


A sátira de Gregório é trabalhada acerca da situação que se passa no momento e sua poesia nada mais é que um instrumento temível pelos seus inimigos. E é através da poesia que Gregório denuncia o abusivo poder das instituições.
Referência

GOMES, João Carlos Teixeira. Gregório de Matos, o boca de brasa. Editora: Vozes, Petrópolis, 1985.
 MATOS, Gregório. Poemas Satíricos. Texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2004.
 ‹ http: // www.portalsaofrancisco.org.br/alfa./gregorio-de-matos.
 ‹ http: // www.wikipedia.org/ barroco.

Sirlane Silva
Enviado por Sirlane Silva em 25/05/2010
Código do texto: T2279718

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Sobre a autora
Sirlane Silva
Capim Grosso - Bahia - Brasil
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