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INDISCIPLINA (com pesquisa)

            Disciplina do dicionário é definida como falta de disciplina, desordem, desobediência, rebelião (Dicionário Globo). Refere-se a forma de relação de algumas pessoas.
            Chamamos ainda de indisciplina quando a forma como muitas pessoas se relacionam conosco não está de acordo com aquilo que foi estabelecido como norma.
            Nosso trabalho consiste em entrevistas com pais, alunos e professores sobre o assunto. No decorrer deste trabalho traremos a visão dos mesmos sobre o assunto.
            Nas entrevistas que realizamos, os professores dizem haver vários tipos de indisciplina. Os mais destacados foram a indisciplina pessoal e a indisciplina institucional. Por indisciplina pessoal entendem-se a falta de um incentivo pessoal, falta de um projeto para a própria vida Por indisciplina institucional entendem-se a falta de respeito e cumprimento de normas de uma instituição, seja ela a escola como qualquer outra. Interessa-nos olhar para a indisciplina na escola.
            Mais de 90% (noventa por cento) dos pais e professores concordam que a origem da indisciplina está em casa, no lar. Se na base da formação a criança não for bem educada pode desenvolver vários tipos de indisciplina.
            Na observação e conversa com as crianças, pode-se constatar que a maioria delas tinha sérios problemas familiares, tanto de relacionamento como de convivência. É oportuno relatar o que uma criança contou.
            “Meu nome é Paula (nome fictício), tenho 12 anos, meu pai tem 33 anos e minha mãe tem 42 anos. Tenho 9 (nove) irmãos, mas moramos em onze na casa. Comecei a estudar com nove anos e hoje estou repetindo a 3ª série. Gosto de estudar. Este é o sétimo lugar que estou morando. Mudamo-nos para cá no início deste ano. Conheço meu pai mas não tenho contato com ele. Ele não mora conosco à cinco anos, pois minha mãe não quis mais viver com ele. Vivi com ele por um tempo curto, mas como ele está com outra mulher. Aí eu não quis mais ficar com ele. Hoje não gosto mais do pai porque ele não vem me ver. A família da minha mãe é do Rio de Janeiro. Ela veio de lá e não tinha mais dinheiro para voltar, então ficou por aqui, com o meu pai. Minha mãe deixou mais duas filhas no Rio de Janeiro, que eu não conheço.”
            A história de Paula (nome fictício) é marcada de tristeza, dificuldades, dores, angústias, medos, decepções, lágrimas. Ela não mostrou nenhum tipo de resistência em falar e não se emocionou em nenhum momento. Falava com muita tranqüilidade. Quando perguntada se queria aprender alguma profissão, ela não demonstrou vontade em aprender algo.
            Ela é uma menina aparentemente calma, gosta de brincar e participa das atividades propostas. As vezes mostra um pouco de resistência. Quanto a sua mãe, conversando um pouco com ela, pude-se perceber o desinteresse pelos filhos. Para ela o importante era ter o que comer, quando tem. O restante não lhe interessava. Seus filhos ficavam jogados pelo chão sem atenção. Quando interrogada sobre indisciplina e da visão que tinha dos seus filhos, disse que não queria saber de nada e que seus filhos estavam bem. Se eles faziam bagunça não era problema dela e quem estava próximo tinha que resolver com eles.
            Nos momentos em que Paula apresentava comportamento indisciplinar, não adiantava querer brigar com ela, pois ela apenas reproduzia a situação pela qual estava passando e na qual era educada. Na verdade Paula não tinha culpa da forma como se encontrava naquele momento. O desafio para quem acompanha Paula é despertar nela o sentido e o gozo pela vida, pela liberdade de pensar e de ser alguém um dia quem sabe.
            Tendo como base o que pais, professores falaram sobre indisciplina, poderíamos dizer que Paula é uma criança, uma pessoa indisciplinada. Ela não tem uma norma que rege sua vida, não tem um projeto, hoje faz uma coisa, amanhã faz outra. Para ela nada tem importância, ou tem pouca importância. Como ela mesma disse: "tanto faz". Tem muitas crianças que estão neste dilema: “viver ou morrer, ser alguém ou não ser; tanto faz”. Paula não tem uma estrutura sólida, forte, fundamentada nos valores. Para ela basta ter comida, roupa que está bom. A forma como ela consegue isso é por meio de outras pessoas. A mãe não manifesta nenhum interesse nem com ela, nem com nenhum dos filhos. Podemos aplicar a regra do "tanto faz". Tem onze filhos ao todo, mais uma, mais um... "tanto faz". Parece sarcástica esta expressão, mas por trás dela fica explícito muitas coisas.
            Por trás de Paula, sua mãe e toda sua família, temos um sistema que exclui, desvaloriza, comercializa as pessoas como se elas fossem mercadorias. Elas estão expostas a criminalidade, a fome, as doenças, a todas formas degradantes que um ser humano pode viver.
            Então Paula é uma aluna indisciplinada? Se é, onde está a origem do problema? O que fazer para reverter este quadro? Fica claro que no seu caso a origem, em parte, está na família que não está estruturada, que tem poucos valores e talvez nenhum princípio como normas que posso reger suas vidas. Neste caso temos a questão da repetência, das dificuldades de estudar e de se relacionar como pessoa. Se ela tivesse um desenvolvimento infantil sadio sua vida seria diferente.
            Desenvolver um processo de aprendizagem a partir da sua realidade, é uma forma de ajudar Paula e tantas outras pessoas na mesma situação. Na escola ela vai desenvolver aquilo que não desenvolveu em casa, com alguns possíveis atrasos, pois a "Aprendizagem se inscreve na dinâmica da transmissão de cultura" (Pain, 1985) e a educação tem a função de ser "mantenedora, assegurando a continuidade da espécie humana; socializadora, transformando o indivíduo em ser social,; repressora, conservando e reproduzindo as manifestações de poder de grupos ou classes sociais; transformadora, tratando formas peculiares de expressão" (Dione Danesi ).
            O desafio da escola hoje é fazer com que pessoas como Paula se sintam bem e possam desenvolver suas habilidades aprendendo princípios e regras para melhor viver. Conhecer a história das crianças, adolescentes e jovens que freqüentam nossas escolas é uma forma inteligente de educar.

Hermes José Novakoski
Revisado em 11/01/2008
Hermes José Novakoski
Enviado por Hermes José Novakoski em 08/06/2005
Reeditado em 11/01/2008
Código do texto: T23155
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hermes José Novakoski
Marituba - Pará - Brasil, 35 anos
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Hermes José Novakoski