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O Ipê e o Arbusto



 

Todo o dia de manhã, ao acordar, o pequeno arbusto olhava ao seu redor e com singela simpatia desejava um bom dia a todos. Apenas o velho e rabugento Ipê, nunca retribuía tal saudação, aliás, o velho Ipê jamais lhe dirigiu uma única palavra.

 

Do alto dos seus quase dez metros, considerava aquele pequeno arbusto, nada mais que um “matinho” insignificante, pois, sequer produzia flores e sombra. Considerava-se o centro das atenções daquela velha estrada. Seu egoísmo e seu orgulho eram tão grandes quanto seu próprio tamanho e isso lhe proibia de importar-se com as outras plantas.

 

Certa noite, a chuva e o vento forte foram avassaladores. Na manhã seguinte ao acordar, o pequeno arbusto, deparou-se com o imenso Ipê caído ao chão, com suas raízes arrancadas, seus galhos quebrados e suas flores espalhadas pela estrada. O pequeno arbusto sem saber o que fazer, apenas disse bom dia e pela primeira vez em sua existência recebeu uma resposta.

 

____Como eu, uma árvore enorme, bonita e forte posso estar no chão?  Enquanto que você, que não passa de um matinho ainda está aí sem sofrer nenhum arranhão? Como isso pode acontecer? Enquanto você dormia, eu lutava contra o vento. Não quero morrer.

 

O pequeno arbusto não sabia o que fazer e ainda tentou pedir ajuda, mas ninguém se importou e num gesto de profundo pesar ainda tentou consolar a árvore caída.

 

____Não fique assim, logo a ajuda chegará! Tudo vai dar certo!

____Mas por quê comigo? Por que você não foi arrancado também?

____Bem...Eu apenas não lutei contra o vento, pois sabia que ele era muito mais forte do que eu, apenas o deixei passar por mim, para que seguisse o seu caminho.

 

Na maioria das vezes, acreditamos que somos os centros da atenção. Como o velho Ipê, olhamos apenas nosso próprio umbigo e atribuímo-nos os mais brilhantes adjetivos. Sem a menor cerimônia decidimos que os outros integrantes da mesma estrada, não possuem tantas qualidades assim. Chegamos mesmo a acreditar que exista a ausência de qualidades nos nossos semelhantes, principalmente quando nosso semelhante é muito diferente na raça, no credo ou na condição social. Desta forma, confundimos as coisas e invertemos valores. Pois este tipo de orgulho é diferente, por exemplo, daquele que sentimos por um serviço bem feito ou ainda quando recebemos um elogio, neste caso, este “orgulho” que sentimos, nada mais é que a satisfação pelo esforço reconhecido.

 

Impreterivelmente todos nós sofremos como nosso próprio orgulho, alguns talvez mais compulsivamente que os outros, mas definitivamente todos temos uma boa dose de orgulho nas veias. Há muitos exemplos no nosso dia a dia, pois é comum dizermos que nos magoamos por que alguém feriu nosso orgulho, ou ainda que somos muito orgulhosos e não vamos desistir de nosso propósito, seja ele qual for.

 

A grande maioria das pessoas, está acostuma a ver as coisas do alto e acaba por se esquecer que o vento sopra, e sopra para todos, estas pessoas ainda não sabem que a intensidade do tombo é proporcional à altura e na maioria das vezes os ferimentos são irreversíveis. Mas o tombo não se dá no chão e sim no campo da consciência onde a dor é mais profunda e as feridas teimam em não cicatrizar.

 

No mundo atual não há mais espaço para gente orgulhosa. Estamos todos na mesma estrada e não importa a condição de cada um, estamos todos sujeitos às chuvas e ventanias e cabe a cada um de nós, assim como o Ipê e o Arbusto, decidir se devemos deixar o vento seguir seu caminho ou não.

 

Reginaldo Cordoa, futuro Administrador de Empresas e Apaixonado pela Vida.

01/09/2006

 

Reginaldo Cordoa
Enviado por Reginaldo Cordoa em 05/09/2006
Código do texto: T233605
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Sobre o autor
Reginaldo Cordoa
Matão - São Paulo - Brasil, 46 anos
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Reginaldo Cordoa