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A NOITE ESCURA E SILENCIOSA DE TODOS NÓS

Não ter o que dizer diante da morte, é o sentimento mais aterrorizante que nos pode abraçar. Vi um filme sobre um escritor com crises de inspiração por causa de um bloqueio emocional face a morte de sua esposa, a qual, pensava ele, teria morrido por falta de atenção do marido, muito preocupado em escrever, fazer sucesso, ganhar dinheiro, etc.

Ao ser instigado por um editor que queria publicar uma obra sua, o escritor, rompendo a dor que o afundava em melancolias infernais, disse-lhe: “a noite traz consigo a escuridão, esta faz nascer o silêncio que absorve todas as coisas.”

Eu, como leigo que adora filmes cujo conteúdo seja a arte, especialmente a literária, compreendi que o personagem, vivido por Harvey Keitel, estava dizendo, metaforicamente, que à sua vida havia chegado uma noite interminável, com a morte da mulher. Esse fato anexou à sua existência um interminável sentimento de escuridão, feito aquela que apenas se pode perceber (incoerência?) nas regiões abissais. E nesse profundo abismo, o que reina absoluto é o silêncio, fruto dessa medonha ausência de luz.

Portanto, integralmente absorvido pelo silêncio, nosso personagem não sentia qualquer vontade de dizer alguma coisa, já que, segundo mesmo ressaltou ao editor que lhe “enchia o saco”, ele não tinha mais nada a dizer a quem quer que fosse. Tudo o que de importante tinha a dizer já fora dito em seu único livro escrito, em seu best-seller, seu “One Hit Wonder”.

Esse enredo é muito parecido com outro filme que tinha a vida de um escritor como tema central. Era estrelado por Sean Connery, “Encontrando Forrester”. Quem viu “De encontro com o amor”, o filme de que trato aqui, saberá reconhecer os pontos convergentes.

O ponto de convergência mais significativo em ambos os filmes é, sem duvida, a morte. A diferença é que no filme de Harvey Kietel quem morre é sua mulher, enquanto no filme do Seann  Connery, é o personagem, Willian Forrester, quem morre no final, deixando a seu pupilo e aprendiz de escritor, Jamal, a tarefa de prefaciar uma obra póstuma.

Essa brevíssima análise de dois filmes que tratam de morte e literatura, é a maneira que encontrei de dizer que a vida às vezes imita a arte, pois a dor como fruto da morte da vida real, ou na vida real, não pode ser compreendida por ninguém, a não ser por quem a compartilhe em seu íntimo como se fosse sua própria morte.

Digo isso como cenário de uma história real acontecida nesse último sábado. Contratamos uma pessoa, o Jr., para nos levar em seu carro à praia. Na viagem, de três horas, ele nos contou como escapou de morrer após ter sido baleado na cabeça em um assalto. Ele é uma pessoa que vive em adrenalina pura. Contou-nos diversas aventuras suas de quando trabalhava como motorista da polícia civil do Pará.

Fomos na sexta-feira à noite. Pela manhã, na praia, Jr. e mais outros rapazes brincavam de bola na areia. Antes, ele havia mergulhado nas águas salgadas da vila dos pescadores. Instantes depois alguém o chamou. Ele saiu correndo, sumindo entre as casas de madeira da Vila dos Pescadores. Mais um tempo se passou, e eu voltei à casa onde estávamos hospedados.  Não percebi que o carro onde viemos não estava estacionado onde havia ficado. Meu cunhado se aproximou de mim dizendo que estava tudo tão diferente, o clima tão pesado. Perguntei-lhe por quê. Sua resposta: “o Jr. acabou de saber que a mãe dele morreu...”
Depois disso, o silêncio...

Ainda não falei com o Jr. E quando o encontrar, certamente não saberei o que dizer. Ele provavelmente não terá o que me dizer. A única certeza que tenho é que todos nós um dia seremos alcançados por uma interminável noite, escura e silenciosa. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça; de minha parte, manterei meu silêncio, preventivamente..
Clóvis Luz da Silva
Enviado por Clóvis Luz da Silva em 11/09/2006
Código do texto: T237506
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Sobre o autor
Clóvis Luz da Silva
Ananindeua - Pará - Brasil, 50 anos
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Clóvis Luz da Silva