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Plestrante de Mãos Sujas

Se as mãos limpas somente significassem isenção e honradez, Pilatos, não as teria lavado antes de conduzir Jesus Cristo à crucificação.

Amigo/Amiga!
Você já ouviu falar desse tipo de “CPI - Coporoca - Pingadouro - Interrogação”:

• Coporoca
Fenômeno de águas...
• Pingadouro
Que jorra água verde e amarela sem misturar...

• Interrogação
Mãos sujas tornam mesmo "impróspera" a honradez?

Se sua resposta for não, gostaria de agradecer,  contando com sua paciência e bondade, por dignar-se a ler a carta a seguir:

Querida Palestrante Otchuko!

O evento que você vai realizar em Curitiba, levando em conta que esta cidade é considerada original, por ser palco de lançamento de um sem número de produtos, não estranhe o tema “Mãos Sujas” para o qual teve seus serviços contratados.
 
Sua palestra poderá ser chamada de CPI – Coporoca – Pingadouro – Interrogação. Já que o mote (tema) é ambíguo, a abordagem deverá ser feita do fim para o início.

Durante toda a palestra use luvas. Sirva-se por favor, do conteúdo abaixo:

Pingadouro
A interpretação das mãos estarem sujas ou não é uma questão de enfoque. Se de um lado representa a desonestidade, a corrupção o crime e outros trastes; do outro, elas estarão encardidas de trabalho, luta, dedicação e esforço.

Em 1948 o filósofo francês, Jean Paul Sartre, escreveu o livro, “As Mãos Sujas”. A obra exalava o mau cheiro provocado pelo desapontamento do autor com a mudança de atitude de seu partido político, do qual era militante, exercendo até então sobre ele, profundo fascínio. A façanha editorial, retornou para o escritor, um bocado de prestígio, bem como uma nada desprezível compensação financeira.

Em 1952, Getúlio Vargas, provavelmente após ter lido o livro de Sartre, sabedor  do espantoso sucesso da literatura sartreana, mesmo sem contar com o concurso do marqueteiro, Imbróglio Rinha de Galo, num gesto de pintor abstrato antes da visita ao psicanalista, optou por inaugurar a extração de petróleo, sujando as mãos com carvão líquido.

Nesse 21 de abril, Maresia, observava seu marido, o presidente Polvo, imitando Getúlio, ao comemorar a auto-suficiência petrolífera da nação, "pré-hexa" campeã mundial de futebol. Num enorme show de bola, cheio de gás, ( boliviano ),  untou suas mãos com o ouro negro.
Dessa vez, o alferes Tiradentes, foi escanteado em sua incorreta homenagem. A limpeza das mãos evitaria infeccionar o dente da baleia, impedindo-a de degustar alguma eventual lula que a broca de furar petróleo fosse acidentalmente perfurar.

Alguns anos depois de Getúlio, e duas eleições antes do presidente Polvo, estive juntamente com alguns colegas em visita à unidade de pintura de uma indústria de porte em Mooca, São Paulo. Um desses companheiros, colocou suas mãos em frente ao compressor na hora do teste da tinta, sujando-as, como tanto desejara. Além de ter aberto a porta das oportunidades na organização, passou a gozar do privilégio de ter seu nome lembrado até hoje como o de um vencedor. Tal não aconteceu com os outros trinta profissionais de semelhante calibre, participantes do treinamento.

Aída Muito Brega, quituteira mor da TV, costuma exibir suas mãos sujas de doces e salgados, procurando expressar naturalidade, incentivando os glutões ao consumo de suas guloseimas.

Você deve estar preocupado: que estresse! Cadê a tal da coporoca? E o Pingadouro, que fim levou?

-- Obrigado por me lembrar. Você me dá mais um tempinho? Outra vez obrigado!

As mãos sujas de petróleo, “adequam” de forma intrépida, a presença jocosamente contemplativa do chefe do executivo a um resultado de avassaladora importância. Agora, seus gestos simulam empreender ações na própria ausência destas, contrastando surpreendentemente as expectativas da população.

As mãos sujas, causam uma sensação de algo carente de uma providência. Uma coisa não resolvida. Como um livro que alguém não terminou de escrever, uma música ou obra de qualquer natureza, inacabada. Fica na memória uma providência a ser tomada. É fantástico, como a lembrança é a de que aquela pessoa terá de finalizar a iniciada tarefa. A culminância do fato, é a credibilidade que é impressa na mente do povo. Tal qual uma cantiga de ninar, a pirotecnia carismática, sinaliza o efetivo cumprimento de uma promessa.

Iniciativas esdrúxulas, continuam influenciando, quando positivamente, fazendo nada se transformar em um "plus" sem mensura.

Mãos sujas, produzem um marketing capaz de induzir os caricaturistas a transformarem esta ação, em uma logomarca “alavancadora” de uma enorme quantidade de simpatizantes, levando-o conquistar a abóbada do sucesso. Ou será sucessão?

É emblemático observar que as mãos sujas, têm o poder alquimista de aproximar a maior autoridade do país, dos descamisados.

Pingadouro
Por falar em petróleo, conquista nossa, as vitórias nas copas do mundo tem sido outra importante realização do Brasil. Para não me concentrar somente na cor preta, (uma das cores da Alemanha), aproveitei o gancho das mãos sujas do presidente Polvo e comecei pensar na idéia de algo com nossas cores. Vou em frente ou paro? Vejo que você é uma pessoa calma. Obrigado!
David Copperfield, importante mágico, livrou-se de um assalto na Flórida, Estados Unidos, através de um truque. Os bandidos não conseguiram enxergar nada no bolso dele. Em seguida a polícia foi avisada e os ladrões presos.

Com relação ao comércio, lembro daquelas bombas, que em um processo hidráulico, apresenta uma torneira, sem cano, como um truque de Copperfield, vertendo água durante todo o tempo.

Hoje fui visitar Marcelo e Iriano, da firma “Hidráulica Quarto Centenário”, Rio de Janeiro.  Queria entender como a torneira conseguia driblar a gravidade. Eles riram, enquanto me faziam saber do fenômeno físico:

A bomba é mantida longe da vitrine, para dar ao cliente a idéia de algo absurdo. Um cano transparente e delgado leva um jato "d'água" que bate na bica, que ao devolver mostra um líquido forte, provocando o tal ilusionismo.

Coporoca
-- O que vocês acham de uma bomba que utilize duas caixas de água, com corante azul e amarelo. Dois canos transparentes jogam as águas coloridas dos dois lados, causando a impressão de as águas não conseguirem se misturar, formando um fenômeno da Copa na Pororoca, “coporoca”?

-- Achamos show de bola! Vamos chegar rapidinho no "hexa", falou Marcelo.

Nossos postos BR, poderão passar a usar um dispositivo que exiba o óleo circulando e a frase: “tudo teu” ou para efeitos internacionais, Bolívia, etc., em latim, “totus tuus”, pelo menos o gás.

Como estamos na época do ébano, sugiro que um "cybercafé", bar ou restaurante de grife, coloque corante preto na água. Na falta, substitua a água por café. A bomba, geralmente da cor cinza, poderá ser pintada de verde e amarelo. Com bordão escreva: “Eles são nossos”.  Se alguém perguntar, forneça como resposta: O petróleo, o café e o "hexa". Como esse pessoal de restaurante é meio "intelectualzinho", anote seu nome em algum “mailing list”. A compensação financeira poderá ser o sorteio de uma caixa de sabonete BR à base de beijoim (preto) e o livro do Sartre “As Mãos Sujas”. Após a leitura do livro sugiro sejam lavadas as mãos.

Se sua palestra for interrompida por alguma engraçadinha dizendo:

-- Otuchuko. Não entendo como você pode falar da Coporoca, as torneiras bicolores e como exemplo sugere uma bomba jorrando água com corante preto, você poderá responder:

-- Lógico, Amiga. A Palestrante procura fazer tudo de forma interativa. Se eu fosse totalmente didática, dizendo para você colocar as bombas com água verde e amarela em sua loja, estaria lhe subtraindo oportunidade de criar  Vá em frente. Se as mãos sujas do trabalhador representam honestidade, quanto mais as coloridas.

Otchuko, antes de você terminar a palestra, tire da mala um cartucho de impressora preto, com o qual tenha de sujado e, descalçando as luvas usadas durante todo o evento diga à platéia isso:

-- Antes de fazer esta palestra, andei as voltas com a troca de um cartucho para imprimir a cola desse “road show”. Enquanto isso, faltou água. Se eu não calçasse as luvas, a apresentação seria feita por uma Palestrante de Mãos Sujas!
Gilberto Landim
Enviado por Gilberto Landim em 13/09/2006
Código do texto: T239063
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Sobre o autor
Gilberto Landim
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 68 anos
527 textos (25521 leituras)
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Gilberto Landim