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Aquisição da Linguagem.

*Dou sequência à postagem de alguns artigos com o intento de contribuir com fonte de pesquisa para pessoas que se interessem pelo tema.

Abordagens:

1.1. Linguagem e Aquisição
1.2. Correntes teóricas (inatismo, empirismo, behaviorismo, construtivismo)
1.3. Perspectiva fonológica, neurológica e pedagógica:





1.AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

A função primordial da linguagem, tanto nas crianças como nos adultos, é a comunicação, o contato social. Por conseguinte, a fala mais primitiva das crianças é uma fala essencialmente social.
(VYGOTSKY, 1998, p. 21)


          Esse capítulo pretende refletir sobre o que é a aquisição da linguagem. Analisaremos em um primeiro momento cada um dos termos, linguagem e aquisição. Após desanuviada essas questões, instauraremos uma excursão sobre algumas das principais correntes teóricas sobre a aquisição da linguagem, assim como as diferentes perspectivas. Antes, vale ressaltar que de acordo com Fiorin, a primeira função da linguagem não é ser representação do pensamento ou instrumento de comunicação, mas expressão da vida real. (2003, p. 73)


1.1. Linguagem e Aquisição


       A linguagem é um meio de comunicação, podendo ser ou não verbal. Partindo desse pressuposto, não apenas nós, seres humanos, somos dotados dessa capacidade, mas os outros animais também. Um exemplo clássico é o das abelhas, mencionado pelo filósofo grego Aristóteles, que observou que, quando uma abelha descobre néctar, atrai outras abelhas até essa fonte. Uma publicação em 1959 por Karl Von Frisch, sobre o comportamento das abelhas, confirma que elas transmitem informações através de danças circulares ou em forma de oito.(PETTER, 1996, p.16)
       Isso levanta a hipótese de que houve comunicação entre elas. Entretanto, o nosso diferencial, o diferencial dos animais racionais, é que somos dotados de criatividade, e isso é o divisor de águas, pois nos tira do grupo que apenas se comunica por instinto, sem refletir sobre o ato da comunicação. Além disso, não somos capacitados apenas para a linguagem oral, nos beneficiamos também com a possibilidade dos “signos linguísticos”, isso por si só nos diferencia. (CHOMSKY, 1998, p. 18)
       Vamos agora refletir sobre aquisição. O termo aquisição já aponta para a necessidade de adquirir algo, tomar posse, ir atrás. Essa nomenclatura não nos remete a algo que esteja a nossa disposição sem uma ação prévia, sem uma interação, esforço, posse. É uma palavra oriunda do latim acquisitĭo que significa “ato de adquirir”.

       Não nascemos com o nosso cérebro pronto para a aquisição da linguagem; é através da interação entre a maturação cerebral e o contato com os falantes que aprendemos a nossa língua materna. Essa é a primeira etapa do processo da aquisição da linguagem, seguida da escrita e leitura. Isso em termos gerais, em indivíduos sem deficiências. Uma pessoa muda, por exemplo, pularia a etapa da fala; um surdo, só falaria depois de ter noção de fonema/grafema, ou seja, precisaria ter a consciência de como evocar um determinado fonema para se comunicar através da fala, e assim por diante.
       De acordo com o livro “O instinto da linguagem”, capítulo “Como a mente cria a linguagem”, de Steven Pinker, a primeira etapa da aquisição da linguagem (fala), ocorre em média aos nove meses, ou seja, nove meses de gestação, mais nove meses pós-nascimento, o que resulta em um total de dezoito meses, que é o tempo de gestação dos outros primatas. Partindo desse pressuposto, se os seres humanos nascessem com um período total de dezoito meses, exatamente a idade em que os bebês costumam falar, nasceriam falando, ou seja, o ato de falar seria inato.
       Se para a fala, basta ter a maturação e estar em contato com o seu idioma materno, o mesmo não ocorre com a leitura e escrita, nesse caso, o processo é mais demorado, já que em média, as crianças aprendem a ler e a escrever por volta dos cinco ou seis anos. No processo leitura-escrita, não basta à maturação e o contato com a língua falada, é necessário uma metodologia para que essa vertente da aquisição da linguagem .
       Quando a linguagem oral é executada com clareza, promove a aquisição da escrita, visto que, nós produzimos a escrita de acordo com a percepção fonológica, ou seja, reproduzimos aquilo que nossa audição capta e internaliza, pois “a linguagem se funda na razão, é a imagem do pensamento e que, portanto, os princípios de análises estabelecidos não se prendem a uma língua particular, mas servem a toda e qualquer língua” (PETTER, 1996, p.12), isso significa que a linguagem em um primeiro momento encontra-se externa ao indivíduo, ao ser percebida e internalizada, interage com a razão, sendo exteriorizado posteriormente e concedendo voz ao intelecto; esse é um princípio universal. Após a fala e a escrita mecânica (mera reprodução de grafema), inicia-se a leitura que acontece mediante a compreensão dos sinais gráficos que substituem os sinais linguísticos da fala, e por fim, o domínio da escrita consciente.





1.2. Correntes teóricas

A aquisição da linguagem é fascinante. Observar como, num período tão curto, a criança passa a dominar uma língua é instigante, desafiador. São muitos os aspectos relativos a essa aquisição.
(SANTOS, 1996, p. 225)


       Existem diversas correntes teóricas que tentam dar conta de explicar como ocorre o processo da aquisição da linguagem. Algumas são opostas, outras se completam. Claro que não se pretende com essa abordagem analisar todas as teorias sobre essa temática, porém as mais relevantes, básicas, conhecidas. Não serão discutidas em profundidade, mas apenas o suficiente para se ter uma noção mínima.

1.2.1. Inatismo:

       A teoria inatista defende que o individuo no momento do nascimento já carrega em si uma bagagem e que por isso, os fatores externos não são tão relevantes para o desenvolvimento, pois o ser humano já nasce com a inteligência, personalidade, qualidades, talentos, tudo isso, estabelecido, e que o meio, nesse caso, interfere muito pouco, ou seja, ainda que um determinado contexto tenha uma ação sobre o homem, a sua essência é preservada.Uma explicação do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau ilustra bem o inatismo:

A natureza, dizem-nos, é apenas o hábito. Que isso significa? Não há hábitos que só adquirem pela força e não sufocam nunca a natureza? É o caso, por exemplo, do hábito das plantas cuja a direção vertical se perturba. Em se lhe desenvolvendo a liberdade, a planta conserva a inclinação que a obrigaram a tomar, mas a seiva não muda, com isto, sua direção primitiva; e se a planta continuar a vegetar, seu prolongamento voltará a ser vertical. O mesmo acontece com os homens. (ROUSSEAU apud DAVIS, 1994, p.27

       Rousseau defendia com esse argumento que, mesmo que um indivíduo sofresse intervenções externas, o que fosse inato, prevaleceria. Sob essa perspectiva, podemos dizer que se uma pessoa fosse privada do estímulo oral, ainda pequena, provavelmente, deixaria de falar, porém, bastaria o contato com outros falantes para recuperar a manifestação oral da linguagem.

       No que diz respeito especificamente à linguagem, podemos citar, nessa corrente inatista, Chomsky, que defende que o ser humano é dotado de uma gramática inata, a Gramática Universal, que cada ser humano carrega, independente da língua que aprenderá, a isso, o autor chama de competência, ou seja, cada indivíduo carrega em si a capacidade de produzir sentenças através da fala. Como ocorrerá esse comportamento linguístico, as influencias sociais, externas, a isso o linguista chama de desempenho, segundo ele “a criança tem uma gramática universal inata que contém as regras de todas as línguas, e cabe a ela, criança selecionar as regras que estão ativas na língua que está adquirindo” (CHOMSKY apud SANTOS, 1996, p. 220), assim, podemos concluir que a competência é inata, e o desempenho é empírico.

1.2.2. Empirismo:

       Essa é uma corrente que defende que o desenvolvimento, o conhecimento, ideias, tudo isso, é resultado da experiência sensorial. Marilena Chaui diz que ao contrário do inatismo, o empirismo afirma que, a razão com seus princípios é adquirida por nós através da experiência. (2000, p.85). Há o reconhecimento que o cérebro comporta a capacidade, porém, ela é inútil se não houver a experiência para desenvolvê-la.
       A teoria empirista privilegia o contato com o meio, ou seja, o ser humano só obtém a linguagem mediante a experiências com o meio no qual está inserido, pois “a estrutura não está no indivíduo, nem é constituída por ele, mas está no exterior, fora do organismo” (SANTOS, 1996, p.217), nesse caso, não basta à estrutura biológica permitir um determinado desenvolvimento, é preciso a experiência empírica para que ele se realize. 
       Kant ressalta em sua teoria da razão pura que a estrutura da razão precede a experiência. A estrutura da razão é inata (priori), nascemos com ela (a estrutura e não a razão). A estrutura é uma folha em branco, uma forma pura sem conteúdos, uma tabula rasa (tese epistemológica do empirismo), e que para ser preenchida é necessário a posteriori (experiência). Todavia, o engano dos empiristas era supor que a estrutura da razão é adquirida através da experiência, a experiência fornece apenas o conhecimento, e ainda assim, não é o objeto que se revela, é o indivíduo , a razão universal que reside nele, que é capaz de conhecer, desvendar o objeto, como o movimento de translação, e sendo assim, é o objeto que gira em torno da razão universal, e não o contrário.(apud CHAUI, 2000, p. 95)

1.2.3. Behaviorismo:

       A concepção do ambientalismo, comportamentalismo ou ainda, behaviorismo, deriva do empirismo. Os ambientalistas atribuem a maior parte do desenvolvimento humano ao meio ambiente, através de estímulos. Skinner, psicólogo estadunidense, defendia que era possível prever e manipular o comportamento verbal através de estímulos externos, resposta e reforço (o positivo faz o comportamento permanecer e o negativo elimina o comportamento), dessa forma “a teoria proposta por ele preocupa-se em explicar os comportamentos observáveis do sujeito, desprezando a análise de outros aspectos da conduta humana como o seu raciocínio, os seus desejos e fantasias” (DAVIS et al, 1994, p. 31), ou seja, somos meros ventríloquos que respondem através de estímulos.
       Um bom exemplo para ilustrar a teoria behaviorista é o mito das jovens Amala e Kamala, as meninas lobo, supostamente encontradas em uma caverna na Índia em 1922 , e criadas por lobos. As meninas não falavam, andavam de quatro e uivavam.   Apesar de terem existido, não há comprovação que fossem meninas-lobo, entretanto, essa lenda serve como referência, uma vez que exemplifica que o ser humano reponde a estímulos. As jovens receberam (supostamente) os estímulos de lobos, logo, ao invés de falar, uivavam. Segundo a lenda, um tempo após serem resgatadas, aprenderam a falar.


1.2.4 Construtivismo:

       De acordo com Raquel Santos, o construtivismo defende que quem constrói a linguagem é o indivíduo, seja através da cognição (vertente cognitivista elaborada através das análises feita por Jean Piaget) ou através da interação (vertente interacionista, que além de concordar com o cognitivismo piagetiano, acrescenta a interação social no processo de aquisição da linguagem), o interacionismo é defendido por Vygotsky. (1996, p. 22).
       O epistemólogo, Jean Piaget, defendia que a ação do indivíduo sobre o ambiente, ou do sujeito sobre o objeto, fornece conhecimento, porém, esse conhecimento só é internalizado, absorvido, através de fatores cognitivos existentes em cada indivíduo. Para Piaget, a aquisição do conhecimento, ocorre de dentro para fora, advém do biológico, já que para cada etapa do desenvolvimento, seja fala, leitura ou escrita, primeiro se faz necessário atingir a maturação biológica adequada. O processo cognitivo se realiza através de etapas para que se efetue a aprendizagem: assimilação, acomodação, equilibração.
       A assimilação é a ação do sujeito sobre o objeto na tentativa de desvendá-lo, quando esse novo conhecimento é absorvido, acontece à acomodação, o que resulta em alterações cognitivas, pois um novo conhecimento é internalizado; e por fim, a equilibração é o momento em que o processo de acomodação desse novo saber finaliza. Isso significa que “o processo de conhecer tem início com o desequilíbrio estabelecido entre sujeito e objeto” (PIAGET apud FELIPE, 2001, p. 76), dessa forma, o desafio, o desequilíbrio de não possuir um determinado conhecimento, foi vencido. Quando isso ocorre, inicia-se um novo ciclo de assimilação, acomodação e equilibração.
       Nessa perspectiva piagetiana, o que impulsiona o ser humano a aprender é o desafio em desvendar o que é desconhecido, tudo aquilo que ele ainda não domina, não conhece. Essa impulsão , para Piaget, tem origem biológica, e passa por vários estágios: sensório-motor (zero a dezoito meses), pré-operatório (dois a sete anos), operações concretas (sete a dose anos) e operações formais (dose a dezesseis anos). 
       No estágio sensório-motor, a criança ainda não possui imagens mentais dos objetos, o conhecimento se estabelece por intermédio dos sentidos e do aparelho motor, por isso que crianças nesse estágio levam tudo a boca, sentem a necessidade de tocar, e precisam de contato visual continuo com o objeto. O pré-operatório é caracterizado pela capacidade de representar simbolicamente. A criança passa a ser capaz de substituir objetos por palavras, é o período da linguagem oral.
       No terceiro estágio (operações concretas) a criança necessita de dados concretos, empíricos para aprender, não que seja necessário recorrer aos órgãos dos sentidos, contato físico ou ter os objetos no campo visual, mas ainda é preciso que os esquemas representativos sejam baseados em objetos já conhecidos. A criança nesse período só é capaz de representar mentalmente baseando-se naquilo que ela já conhece. Os adultos conseguem imaginar um objeto jamais visto através de uma descrição, já uma criança, nesse estágio, não. O último estágio é o de operações formais, em que há capacidade para realizar operações concretas através de esquemas projetados em hipóteses. O indivíduo já é capaz de pensar de forma abstrata.

       Piaget defendia que a fala egocêntrica, no sentido de não haver intenção de comunicação, pois a criança fala consigo mesma, desaparece com o passar do tempo, e que ela é anterior a fala socializada . Esse era uns dos principais pontos de divergência entre Piaget e Vygotsky, pois o psicólogo argumentava que a fala egocêntrica não se atrofia simplesmente, mas ‘se esconde’, isto é, transforma-se em fala interior. Ele concebia fala social como anterior à egocêntrica, ou seja, de fora para dentro, do social para o individual e não de dentro para fora, do individual para o social. (VYGOTSKY, 1998, p. 22)
       Vygotsky priorizava a função social da fala, sob essa ótica, o interlocutor tem um papel imprescindível no desenvolvimento da linguagem. Para Vygotsky, o adulto atua como facilitador, mediador, no processo de aquisição. O interacionista também propôs estágios para o desenvolvimento: primitivo (fala pré-intelectual e pensamento pré-verbal), psicologia ingênua (fase de experimentar – inteligência prática), signos exteriores (as experiências ajudam nas operações internas, ocorre a fala egocêntrica) e crescimento interior (as operações externas se interiorizam). 
       Segundo Vygotsky, primeiro o indivíduo tem uma fala sem pensamento, pré-intelectual, como o balbucio e o choro; e um pensamento sem fala, pré-verbal, que seria a inteligência prática, isto é, formação de hábitos, aprender através da experiência e reproduzir o que foi aprendido criando habilidades práticas em que não há uma reflexão. Por volta dos dois anos de idade, acontece a simbiose, a mistura entre fala e pensamento, nesse momento inicia a fase verbal e “a fala, passa, então, a servir ao intelecto, e os pensamentos podem ser verbalizados” (SANTOS, 1996, 224), isto é, podemos a partir da fase verbal, externar a nossa vontade e nos comunicar de forma mais eficiente.
       Com essas diversas correntes teóricas, que tentam dar conta de como ocorre a aquisição da linguagem, conseguimos perceber os diversos ângulos dessa questão. Se nenhuma consegue, de uma forma completa, explicar esse processo, ao menos nos mune com a noção de que: nascemos com uma estrutura que nos capacita para desenvolvermos a linguagem; é necessário a experiência empírica, o contato com o meio, com o ambiente; o estímulo, a intervenção , manipulação, maturação biológica; e a mediação. Dessa forma compreendemos que é através da interação de diversos fatores (biológicos, psicológicos, sociais) que se torna possível que os seres humanos adquiram a linguagem verbal. 



          



1.3. Perspectiva fonológica, neurológica e pedagógica:

Linguagem é a forma peculiar que o homem tem de se comunicar com seus semelhantes por meio de símbolos gestuais, orais ou escritos.
(ROTTA et al, 2006, p.132)


      No que diz respeito à fala, escrita e leitura, sabemos que não existe apenas um ângulo para esse estudo, mas sim diversas perspectivas. Contudo, apesar de ser um terreno vasto, priorizaremos os aspectos fonológicos, neurológicos e pedagógicos devido a relevância acentuada no que se diz respeito à linguagem oral , escrita e leitura, vertentes da linguagem que estão intimamente relacionadas, visto que:

O processo de leitura envolve a ativação de múltiplas regiões do cérebro como o córtex visual nos lobos occipitais, o giro angular esquerdo, o lobo temporal esquerdo e a área de Wernicke, onde há a decodificação fonológica com a tradução da linguagem escrita para os sons da fala.
(TEIXEIRA, 2006, p.119)

        Dessa forma, fica evidente que existe uma relação intrínseca, pois, na maioria dos casos, usamos a fala para que haja a decodificação de palavras, transformação gráfica dos sons, dos fonemas; e, usamos a escrita para desenvolvermos a leitura.  Posteriormente, a leitura é usada para aperfeiçoar a escrita, assim como a fala, como nos casos dos ditados, exercício aplicado para verificar e aprimorar a escrita (correta), onde o som serve de indicador para a transfiguração adequada do grafema correspondente. Isso tudo ocorre mediante um processamento cerebral , no lado esquerdo do cérebro, área em que se processa a linguagem.

                                    
       A fonologia diz respeito aos sons de uma língua, e de acordo com ela, a língua alfabética é baseada na relação entre fonema e grafema, ou seja, para o individuo desenvolver a linguagem oral e escrita de maneira adequada, precisa estar em perfeita harmonia com essas duas vertentes, fonológica e gráfica, o “domínio da língua em suas duas articulações (palavras e fonemas)” (SANTOS et al, 1990, p. 107), o que significa que precisamos entender corretamente os sons para reproduzi-los de forma devida, e por conseguinte, transfigurá-los em escrita, empregar o grafema relativo ao fonema, pois “saber ouvir é condição essencial para um bom desenvolvimento da linguagem oral e escrita” (SANTOS et al, 1990, p.19), nessa perspectiva, é necessário a percepção fonológica para a aquisição da escrita, e por conseguinte, da leitura.
       Os estudos fonológicos apontam que as crianças começam produzindo a constituição básica da sílaba em português, que é CV (Consoante-Vogal). A última a ser adquirida é a estrutura CCV, que além de fugir da estrutura básica, não é pesada. (SANTOS, 1996, p.213). Outro dado relevante é que se somos capazes de produzir esses sons, articular sílabas, pronunciar palavras, enfim, falar, é mediante o aparelho fonador (conjunto de órgãos anatômicos) existente nos seres humanos e que propicia a possibilidade de nos expressarmos, de nos comunicarmos por meio da linguagem oral, ou seja, a fala.

                       
Alfabetizar significa iniciar o aluno no conhecimento da leitura e da escrita, proporcionando-lhe oportunidade de decodificar e codificar os símbolos que compõem a língua que conhece e utiliza.
(SANTOS et al, 1990, p.107)

       A origem da palavra pedagogia é grega, paidós (criança) e agogé (condução), a etimologia dessa palavra já aponta a função de um pedagogo, que é a de conduzir criança. No inicio do século XX a pedagogia transformou-se na ciência da educação e por isso tem muito a dizer sobre o processo de aquisição da linguagem, principalmente no que concerne à alfabetização (leitura e escrita).
Vygotsky atribuiu o aprendizado a um mediador, alguém ou alguma coisa faz a mediação entre essa ausência do domínio de um determinado conhecimento para o estado de aquisição desse novo saber . No que concerne à alfabetização, no geral, essa mediação é realizada pelo professor, o docente é o mediador. 
       Embora a escrita e a leitura sejam o resultado da alfabetização, a compreensão do pensamento, seja o próprio ou o do outro, é muito importante no processo, sem isso a alfabetização ficaria incompleta, ou seja, a comunicação oral de maneira clara, compreensível e que estimule o raciocínio, fornece uma alfabetização mais eficaz, uma vez que o discente compreenderá o que está aprendendo, e não sendo apenas mero receptor de conteúdo ou reprodutor de regras, em um ensino “bancário”, em que apenas recebe o depósito de conteúdo, sem refletir sobre o que está sendo ensinado.
       Quando entendemos um conteúdo, não o esquecemos, pois ainda que a explicação exata nos escape, saberemos transmiti-lo, mesmo que com nossas palavras. Aquilo que decoramos, pode ser esquecido, o que compreendemos, não, pois “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 1987, p.21), afinal, somos mais do que um depósito bancário, pensamos.
       A pedagogia atual é o resultado de uma miscelânea de correntes, pensamentos, teorias, e Paulo Freire é sem dúvida o grande nome da pedagogia dos nossos dias. O método freiriano é dividido em seis partes, as três primeiras consistem em apresentar as letras através de palavras geradoras, “vocábulos ligados à sua experiência existencial, da qual a experiência profissional faz parte”(FREIRE, 2001, p. 42), ou seja, palavras que fossem significativas para ao grupo a ser alfabetizado. Em seguida ocorre a tematização, onde acontece debate, percepção crítica, discussão sobre a significação da palavra geradora para os educandos.
       A silabação só é iniciada a partir da quarta fase, dessa forma, as cartilhas teriam pouca utilidade, pois cada grupo tem suas particularidades, contextos distintos. Esse método acarreta em alfabetizar através da associação, visto que “uma mesma metodologia de trabalho não operam necessariamente de forma idêntica em contextos diferentes” (FREIRE, 2001, p. 26), pois, a cada novo grupo, há especificidades.
       Para Paulo Freire, o professor é o formador, e o educando, o objeto a ser formado, que poderá vir a ser um formador também. É um círculo, e se é um círculo, existe uma troca, o professor aprende ensinando, dessa forma, esse processo ensino-aprendizagem precisa ser democrático, respeitando o universo cultural, a bagagem que o aluno traz, seus questionamentos e curiosidades. Devemos assim, “estabelecer uma necessária “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos” (FREIRE, 1996, p.15 ), pois, cada ser carrega em si um universo que precisa ser considerado, respeitado.
       Embora o método freriano tenha sido originalmente voltado para a alfabetização de adultos, posteriormente passou a ser implementado também na alfabetização das crianças, mediante o sucesso do método e devido ao fato de haver uma compreensão de que é necessário respeitar, preservar, entender as individualidades, e sendo assim, contextualizar as aulas, o ensino.








 
 
                Sabrina  Araujo 






 
 
Sabrina Mori Araujo
Enviado por Sabrina Mori Araujo em 29/07/2010
Reeditado em 09/09/2014
Código do texto: T2407483
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
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