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Pesquisar ou Provocar? Eis a questão!



Uma das coisas que a modernidade nos trouxe foi a utilização da “pesquisa de opinião”, como instrumento facilitador para assuntos que envolvem a opinião pública.
Certamente é manifestação de aprimoramento estratégico e expressão da capacidade criativa do Homem, que vai requintando as atividades mentais na medida em que avança sua evolução.
Sem dúvida, desde que foi estabelecido o hábito de se lançar mão das pesquisas que indicam tendências e apontam a opinião do público considerado, obteve-se ganhos e facilidades em algumas questões.
A pesquisa nasceu com o objetivo de aprimorar os negócios; torná-los mais eficientes, lucrativos e diminuir, assim, o risco de desperdício e, evidentemente, de prejuízo. Esteve sempre ligada ao consumo, independente do tipo de produto que se levasse em consideração.
Logo, uma idéia que nasceu voltada para um tipo de atividade, tornou-se atrativa para outras modalidades também. O progresso é a marca da inteligência aguçada, que vai aperfeiçoando cada passo que avança e ampliando o campo de utilização de suas conquistas.
Assim, foi ela introduzida no mundo da política, tendo sua presença predominante na época das eleições. Neste caso não era bem o consumo, mas a adesão do “produto”.
Considerando que o voto é secreto, uma pergunta fica rondando minha consciência, provocando-me desassossego. Até que ponto este procedimento é um ganho para a coletividade e até que ponto tornou-se um elemento cerceador, que acaba, mesmo não tendo a intenção, conduzindo a opinião das pessoas; influenciando na decisão que caberia ao foro íntimo do eleitor.
Não sou avessa às conquistas que a mente desenvolvida do Homem vai obtendo e nem advogo que se impeça a utilização das mesmas.
O que me incomoda e talvez, incomode alguns de vocês, é a arbitrariedade com que se lança mão destas conquistas.
Considero o momento oportuno para nos perguntarmos até que ponto somos beneficiados pela pesquisa em relação às eleições e até que ponto nos tornamos refém dos que a controlam.
Certamente que isso não acontece, mas poderia até ser um instrumento antidemocrático, se fosse utilizado por pessoas que se deixassem corromper, colocando como prioridade interesses particulares onde o ganho, necessariamente, deve ser coletivo.
Sendo o voto secreto, quando respondemos a uma pesquisa de intenção de voto, estamos na verdade abrindo mão de uma prerrogativa que já conquistamos; estamos permitindo que, no caso de haver pessoas mal intencionadas, estas detenham um dispositivo para manipular a vontade de um grupo. Traímos a nos mesmos e a sociedade.
É evidente que toda moeda tem dois lados, e é preciso que o grupo se deixe influenciar para que ela ganhe expressividade. No entanto, a segunda pergunta que me vem é: Um povo que está, recentemente, aprendendo a praticar a democracia; que em grande numero, pouco acesso tem a educação; que em proporções, acima do aceitável, não tem oportunidade de trabalho e, portanto, de relativa estabilidade que garanta uma vida digna e com qualidade necessária para sua felicidade; este povo, não seria, fatalmente, influenciado? Não estaria ele em condições desfavoráveis, a mercê dos que se encontram em situação mais vantajosa?
Convenhamos que temos aqui algo delicado e determinante num processo eleitoral.
Outra questão relevante é o fato do eleitor não desejar “perder” seu voto, aceitando o que é implicitamente imposto a todo cidadão, que “jogar fora um voto” implica falta de esperteza. Essa maneira de se comportar consolidou-se a partir das pesquisas, uma herança que pagamos caro, e que ainda nos cobra dividendos.
Em meio ao processo eleitoral, é preciso que todo brasileiro reflita bem sobre isso. Procure isentar-se de influencias externas, sejam elas de que lado for, e dedicar-se, pelo menos neste ultimo período, a exigir de si mesmo uma atuação responsável. Que possa experimentar em ação individual, a responsabilidade social, que garante, efetivamente, o exercício da cidadania saudável e justa.
Se formos capazes de zelar criteriosamente por nossa escolha, cuidar de nossos direitos, utilizar com seriedade a prerrogativa do voto secreto, então sim, seja qual for o resultado irá externar a vontade da maioria, de modo legitimo e sem instigar represálias. De outra forma, corremos o risco de um resultado adulterado e que irá impingir, de nós mesmos, o preço da alienação.
Não participando desta tática, que acaba se tornando uma “moeda” paralela neste momento decisivo para nossa nação, estaremos sendo justos conosco, com mais ninguém.
Talvez, se não houvesse este artifício, o comportamento dos candidatos fosse outro. Teriam que ser mais consistentes em seus programas, em suas propostas, e teríamos tempo para documentarmos as promessas e, como parte da democracia, estarmos aptos a cobrar cada proposta, cada programa que fosse apresentado, garantindo assim que não mais acontecessem promessas mirabolantes e inviáveis.
Se este procedimento tem o ranço do passado, mais um motivo temos para levantar em defesa de uma nova estruturação, de um novo código de conduta.
A ética é, em essência, a simples manifestação da consciência coletiva.
Pensemos bem nestas questões para que possamos fazer uma escolha digna para todos nos, e principalmente, para que estejamos dando passos firmes na direção correta, sabendo que a geração que virá atrás de nos terá que viver na sociedade que construirmos.


Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 16/09/2006
Código do texto: T241721
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho