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Autoria de pensamento, aprendências e ensinagens: novos modelos e desafios na produção de conhecimento em Psicopedagogia.

Autoria de pensamento, aprendências e ensinagens: novos modelos e desafios na produção de conhecimento em Psicopedagogia.
Professor MS. João Beauclair  

Resumo:
O presente artigo pretende analisar os conceitos de ensinagem, autoria de pensamento e novos paradigmas no debate psicopedagógico. Busca contribuir com a discussão  em torno destes conceitos no sentido de se pensar a constituição de processos de produção de conhecimento em Psicopedagogia. No primeiro tópico, algumas idéias são elaboradas sobre os conceitos ensinar e aprender, relacionando-os dialeticamente e repensando-os a partir dos pressupostos de autoria de pensamento. No segundo, a temática é posta em termos de reconfiguração paradigmática contemporânea e suas interfaces com a busca teórica em Psicopedagogia.

Palavras-chave:
Psicopedagogia, novos paradigmas, ensinagem e produção de conhecimento.

Introdução:
Aprendências, ensinagens e autoria de pensamento em (re)visão: novos olhares sobre o ensinar e o aprender

Autoria, para FERNANDÉZ, “é o processo e o ato de produção de sentidos e de reconhecimento de si mesmo como protagonista ou participante de tal produção.”   Assim, para tornar-se autor/a, o/a aprendente não pode ser considerado como mero e passivo reprodutor de uma realidade independente de sua observação e inserção. Neste sentido é fundamental uma revisão, um novo olhar sobre o ensinar e o aprender no mundo atual que, quer tenhamos consciência ou não, é complexo e por isso nos exige termos ciência da importância e dos papéis que a não-linearidade, a autopoiese, o caos e a desordem desempenham na reconfiguração paradigmática de nosso tempo.
SCOZ (2003) nos diz que neste atual movimento há relações de complementaridade e aberturas, para novas e contínuas possibilidades, ressaltando que

“ordem e desordem fazem parte de uma mesma totalidade movente, ou seja,o equilíbrio contém e é criado pelo desequilíbrio. Isto pode ser importante para a compreensão dos processos de aprendizagem: ricos em evoluções imprevistas, traçados por relações não lineares de causa e efeito, fractados em múltiplas e diferentes magnitudes, tornando-se precária a universalização”.

Com isso podemos afirmar que o universo da aprendizagem vincula-se não somente aos conteúdos concretos, mas também aos mundos psíquico e simbólico do ser cognoscente. E aqui, a meu ver, surge um ponto de reflexão fundamental: de que modo, dentro do estudo da Psicopedagogia estes mundos (simbólico e psíquico) se relacionam com a dinamicidade da complexa realaide externa que todos/as nós temos efetiva interlocução.
É no campo do simbólico que ocorre as “aprendências” e as “ensinagens”  , percebidas como processos correlatos, onde realidade interna e realidade externa interna. No contexto de construção de subjetividades a aprendência é reflexo do desenvolvimento cognitivo, afetivo e emocional. Deste modo, podemos pensar e vivenciar processos de aprendência quando associamos afeto e emoção no agir/fazer que leva a cognição. Esta idéia é uma possível referência para pensarmos o quanto é importante ampliar horizontes teóricos para o desenvolvimento de cada aprendente.
Acreditando que aprender é um modo elaborado por nosso psiquismo para organizarmos e aprendermos o real é importante perceber que é o conjunto de sensações e percepções do ambiente pelo sujeito cognoscente que possibilita o desejo de aprender. Tal desejo, fundado em movimento dialético entre sujeito e ambiente é capaz de despertar ações para a busca de soluções, adaptações e resoluções para nossas intervenções no mundo.
Cabe, em nossos espaços e tempos de inserção profissional reconhecer que é preciso construir processos permanentes de promoção e elaboração de autoria de pensamento. É desafio , neste movimento, criar condições para que o/a aprendente se autorize a pensar e que, neste aceitar compreenda que este seu pensar é único, diverso do pensamento do outro, porque é seu e envolve sua subjetividade e capacidade de análise, síntese e integração de saberes e conhecimentos.
Óbvio que para isso é essencial deixar de lado o agir/fazer repleto de repetições e sem criticidade, passo inicial para o risco, para a ousadia . Ousar e partir do que agregamos como significação ao longo de nossa trajetória, arriscar criando/recriando saberes e conhecimentos, indo em busca da interlocução com os/as outros/as, onde objetividade e subjetividade ganham corporeidade e latência.
Reconhecer-se como ser que deseja, reconhecer-se como ser que pensa e aprende, a nível individual é só um lado da questão pois é preciso ir além da ação individual: o/a outro/a precisa ser visto também como desejante, pensante, o/a outro/a como único/a e legítimo/a.
Ensinantes e aprendentes autorizando-se mutuamente, sendo autores dos pensamentos que constroem, movidos por seus desejos, em busca de seus processos e movimentos de autonomia, indo além do olhar do/a outro/a para reconhecer a autoria de seu pensamento e produção. Importante é perceber que “ensinagem” e “aprendência” são processos de permissão a autoridade de pensamentos, como movimentos diferenciados e reconhecedores da alteridade. De acordo com PRANDINI (2003) é preciso

“reconhecer a legitimidade do outro, autorizar-se a criar, recriar, reconhecer-se realizando o próprio desejo, pois apenas a partir daí seremos capazes de proporcionar ao outro espaço para isso e oferecermos-nos a ele como referência, mas nunca como modelo a ser simplesmente imitado.”

Se assim reconhecermos o/a outro/a, deixaremos que as diferenças sejam agenciadoras dos processos de inclusão, não de exclusão como comumente tem sido em nossa sociedade e instituições. Por isso, torna-se urgente nas relações de aprendência e ensinagem

“não excluir o outro por suas diferenças, mas ao contrário valorizá-las. Para isso é preciso, antes de tudo não auto excluir-se, ou não sentir-se excluído do universo do outro em virtude de nossas próprias diferenças, suportar estar só, ficar consigo mesmo e refletir.”

Minha aposta - e proposta - é reconfigurarmos nossas múltiplas dimensões humanas, buscando nos paradigmas emergentes aportes e suportes teóricos que contribuam para a constituição de um outro modo de ser-e-estar no mundo.

Novos paradigmas e desafios na produção do conhecimento em Psicopedagogia

Para construirmos um novo olhar sobre o aprender e o ensinar e suas relação com a produção do conhecimento em Psicopedagogia, acredito ser válido ter, cada um de nós,  uma postura de curiosidade intelectual e, principalmente, abertura para nos aproximarmos de idéias com as quais ainda não temos familiaridade. Desde os anos 60 do século passado, momento marcante na busca de uma maior mobilidade do pensamento, temos vivido rupturas e nos aproximado de pensares  que visam à superação do modelo cartesiano.
O movimento feminista, as lutas de grupos voltados aos Direitos Humanos e a Ecologia, as organizações pacifistas, e as descobertas importantes das Ciências Físicas e Biológicas, entre outras manifestações da cultura, contribuíram para a configuração de um novo estatuto de idéias sobre a vida, os seres humanos e suas relações com o meio ambiente e com os pares.
Aqui, com certeza, não é o lugar de mapear todo este constructo surgido principalmente na segunda metade do séc. XX. Entretanto, sabemos que foi com a Epistemologia Genética e a Ciência Cognitiva que avançamos no campo teórico sobre o ato de conhecer.
Os paradigmas inter, pluri, multi e transdisciplinar apontam para uma multiplicidade de pressupostos teóricos que contribuem para o produzir academicamente em Psicopedagogia, principalmente se reafirmarmos que é esta uma área do conhecimento multidisciplinar por essência. Assim, para estarmos atentos/as a estreita relação entre conhecimento, pesquisa e constituição dos sujeitos e os diferentes problemas do nosso tempo, urge saber que é possível  pensar para além das limitações, visto que em muitas situações torna-se essencial perceber que há alternativas presentes nos próprios contextos.
No que diz respeito ao produzir conhecimento em Psicopedagogia, é também  importante ampliar o ambiente e a atuação daquele que pesquisa; de modo geral, é preciso perceber que a pesquisa só pode ser considerada centro de seu aspecto educativo.
Para obtermos o domínio de nossos processos de autoria de pensamento, de extrema valia conquistar e exercitar a qualidade se sermos produtivos, conscientes e emancipados, tornando-nos sujeitos capazes de encontrar seus próprios espaços e tempos, e sermos desejantes de crescimento, recusando-nos cotidianamente a sermos apenas objetos, a sermos apenas expectadores. Acredito então que, para desenvolvermos este processo, um desafio emerge: refletirmos sobre os novos paradigmas, propormos o pensar complexo, buscarmos  estar em permanente movimento de aprender a aprender.
A busca teórica em Psicopedagogia deve estar marcada neste movimento (aprender a aprender) para que possamos criar alternativas, construir outras soluções no diálogo com a realidade caracterizado como produtivo. Fundamental neste reconfiguração   paradigmática é estarmos em sintonia como nossos contextos, aproximando-nos de modo crescente para a pesquisa como essencialidade instaurando, em nosso cotidiano, metodologias ativas de elaboração própria, fomentando sínteses e insistindo na aplicabilidade doS nossos conhecimentos a partir do fazer/agir de nossa práxis. Em outro texto por mim produzido (BEAUCLAIR,2004), ressaltei  a questão da pesquisa para o exercício da profIssionalidade do/a psicopedagogo/a.   Mas para que isto seja prática efetiva, é indispensável o contato com artigos, livros, textos, sites, simpósios, cursos, grupos de estudos que motivem, permanentemente, o diálogo com a realidade e o espírito questionador.
O desafio, então, é a atualização permanente, o acompanhamento dos progressos da ciência, a percepção crítica dos dilemas sociais de nosso tempo e, impreterivelmente, a assunção de novas trilhas de conhecimento e informação, criando novos significados  e  novas, renovando nosso olhares. Essencial, então, é enfrentarmos este desafio, indo além dos antigos modelos de produção de conhecimento e buscando a proposição de ousadias possíveis nos processos de autoria de pensamento, sabendo que o fundamental é “conectar-se com o prazer de ser autor, com a experiência, a vivência de satisfação do prazer de encontrar-se autor.”
Que tenhamos, então, a coragem para assumir este prazer.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 
AMARAL, Silvia (coord.) AMARAL, Silvia (coordenadora). Psicopedagogia: um portal para a inserção social. Editora Vozes, 2003.
BEAUCLAIR, João. Psicopedagogia: trabalhando competências, criando habilidades. Editora WAK, Rio de Janeiro, 2004.
____________,_____. Psicopedagogo/a pesquisador/a: aprendendo outras lições, buscando novos caminhos.Publicado no site http://geocities.yahoo.com.br/simaiapsicopedagoga
____________,_____. Educação para a Paz: um estilo de ‘aprenderensinar’ e ‘ensinaraprender’ na perspectiva da Educação em Direitos Humanos como possível suporte psicopedagógico. Publicado no site www.fundacaoaprender.org.br e comunicação apresentada na mesa redonda “Estilos de Ensinar e Aprender”, da II Jornada Regional de Psicopedagogia, promovida pela ABPp- Associação Brasileira de Psicopedagogia e organizada pelo Núcleo Sul Mineiro de Psicopedagogia, na cidade de Poços de Caldas, em 23/06/2001.
 ____________,_____. A prática de ‘ensinagem’ no desenvolvimento de projetos educativos: potencialidades e condições básicas “apresentado na III  Jornada Cientifica da UNIVERSO / II Encontro Anual de Iniciação Científica da  Universidade Salgado de Oliveira. Campus São Gonçalo,  RJ e publicado no Caderno de Estudos e Pesquisas da UNIVERSO, volume especial, de setembro de 2001. Este artigo também está publicado na Revista PARADOXA - Projetivas Múltiplas em Educação, UNIVERSO, vol. 8 , n.º 10/11/2001.
____________,_____. Iniciantes idéias: a construção do olhar do/a  psicopedagogo/a. Artigo publicado no site da Associação Brasileira de Psicopedagogia  e no site www.psicopedagogiaonline.com.br em fevereiro/março de 2003.
FERNANDÉZ, Alicia. O saber em jogo: a Psicopedagogia propiciando autorias de pensamento. Porto Alegre, Editora Artmed, 2001.
PRANDINI, Regina Célia de A. Autoria de pensamento e alteridade: temas fundantes de uma relação pedagógica amorosa e libertadora. IN.: AMARAL, Silvia (coord.) AMARAL, Silvia (coordenadora). Psicopedagogia: um portal para a inserção social. Editora Vozes, 2003.
SCOZ,Beatriz. Prefácio. IN.: AMARAL,Silvia (coordenadora). Psicopedagogia: um portal para a inserção social. Editora Vozes, Petrópolis, 2003.

Joao Beauclair
Enviado por Joao Beauclair em 19/09/2006
Código do texto: T244239

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Sobre o autor
Joao Beauclair
Cachoeiras de Macacu - Rio de Janeiro - Brasil, 51 anos
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