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ENTREVISTA COM ADÉLIA SALDANHA

O autor Victor Alexandre apresenta a seguir um extrato de seu livro Os Coquetéis da Dona Adélia. O extrato coloca em cena a personagem principal sendo entrevistada para um jornal do Rio de Janeiro:

Dois meses após a sua viagem abortada á volta do mundo, a ex-empresária Adélia Saldanha se confia ao nosso novo colaborador o escritor David Sales Ferreira. Por causa das dificuldades encontradas na sua missão de paz, esta senhora nos fala sobre a política mundial. A respeito da política brasileira, quer lá fora quer cá dentro, ela não mede as suas palavras.
David:
- Dona Adélia a opinião pública brasileira está chocada pela maneira como a vossa expedição de paz foi tratada lá fora. O que a senhora nos pode dizer sobre isso a fim de esclarecer o público em geral?
Adélia Saldanha:
- Eu prefiro apenas falar das boas coisas que tal expedição trouxe de animador aos meus colaboradores e a mim mesma. Os habitantes da ilha de Malta onde buscamos refúgio depois dos incidentes italianos foram de uma gentileza extrema. Receberam-nos com honras de chefes de estado. A razão disso é simples: Devido á localização dessa ilha, em tempos de guerra o povo ali sofre imenso. As potências em conflito lutam pela posse de Malta e em pouco tempo ela é invadida e ocupada por tropas estrangeiras.  Tenho aqui á mão o recorte de um jornal local que diz:
- A Europa e o Mundo Ameaçados pela Paz?
Adélia Saldanha e Charles Dupré um casal franco-brasileiro foi expulso da Itália por falar da Paz. Através das eras quem falava a verdade foi sempre perseguido. Isso ainda acontece hoje em dia. Charles e Adélia foram expulsos da Itália porque falaram a verdade. Ontem á noite falando para os malteses, este casal mostrou claramente que se o mundo não tem paz é porque não está fazendo esforços nessa direção. Ao contrário todos os esforços das nações são em prol da guerra. Malta sofreu com a colonização francesa e mais tarde com a britânica. Durante a segunda guerra mundial foram para nós trágicos anos de sofrimento, por tudo isso a ilha de Malta aprecia a paz e quer continuar a viver em Paz. Bem haja, senhor Charles, bem haja dona Adélia pelo seu extraordinário esforço em favor da Paz.
David:
- Nações pela Paz era o tema da vossa campanha. Acha que o vosso esforço foi inútil?
Adélia:
- Não! Veja o que sucedeu há días no Iraque. O automóvel em que viajava a jornalista italiana ex-refém da guerrilha iraquiana e um membro dos serviços secretos italianos foi metralhado pelas forças americanas. Isso resultou na morte do agente e nos sérios ferimentos sofridos pela jornalista. Isso mostra que os americanos não perdoaram á Itália as negociações com os terroristas. Ora na única conferência na Itália nós alertamos a opinião publica sobre as conseqüências nefastas da aliança com os Estados Unidos. Charles no seu discurso em Roma intimou as autoridades italianas a se retirarem do Iraque. A imprensa romana fez eco das palavras de Charles. Agora a opinião pública italiana mobiliza-se em massa para reclamar a retirada dos soldados italianos do Iraque. O governo italiano já anunciou o regresso das suas forças militares do Iraque. Tenho a certeza de que embora as autoridades não tenham apreciado as palavras do meu marido a opinião pública não ficou indiferente.
David:
- Charles não está presente, mas o que a senhora nos pode dizer sobre o discurso dele a respeito do papel das Nações Unidas?
Adélia:
- Ele não se importará que eu fale um pouco sobre isso. No discurso falando sobre as nações membros na ONU e no que está impedindo a paz, ele diz: A maior parte dessas nações continua fabricando armas e as comercializando. O comércio das armas é um dos negócios mais lucrativos do mundo. Ele prova isso no seu discurso com fatos inegáveis, como o fornecimento de armas ás partes em conflito no território angolano por três nações membros do conselho de segurança da ONU. O que também alerta a opinião pública é o que ele diz na conclusão: Nações abandonem a sede de poder e dominação.  Usem as verbas destinadas ás armas para cultivar a terra e tirar dela alimento acabando com a fome e a desnutrição mundial. Esta é talvez a única maneira de as nações chegarem á Paz Mundial.
David:
- Acha que essas palavras demoverão os dirigentes mundiais dos seus esforços bélicos?
Adélia:
- Penso que não. Veja só o que se passou após a reeleição de George W. Bush. Ele conseguiu do congresso americano mais setecentos bilhões de dólares para consagrar á guerra que ele afirma ser contra o terrorismo. Assim em vez de diminuir, a tensão mundial está aumentando Os guerrilheiros islâmicos continuam a semear o terror no Iraque. Os atentados á bomba fazem inúmeras vitimas cada dia.  Os amantes da paz e da liberdade têm razão para temer os próximos quatro anos. A imprensa do mundo árabe reage afirmando: Com a reeleição de G.W. Bush a paz do mundo está ainda mais ameaçada. Um professor de universidade de Damasco na Síria diz: Os erros de Bush vão continuar e nós vamos viver mais quatro anos de pesadelo. Outras autoridades afirmam que essa reeleição vai trazer mais violência no Iraque e no Afeganistão. Outros pontos tais como na Síria, Sudão e Irã podem pegar fogo de um dia para o outro.  O senhor como escritor sabe que isto é verdade. O mundo inteiro está temendo que os Estados Unidos aumentem os confrontos no mundo árabe.
David:
- E quanto á política brasileira lá fora o que a senhora nos pode dizer?
Adélia:
- Acho que é vergonhosa! Não quero citar o descaso com que as autoridades brasileiras trataram o caso que nos opôs á Itália. No entanto citarei outros. Quando do velório de Yasser Arafat um superministro brasileiro, braço direito do presidente, só chegou ao Cairo no momento em que o corpo do líder palestino já seguia de helicóptero para a Palestina. Aos olhos dos chefes de estado presentes, isto foi uma vergonha para a diplomacia brasileira. Outro exemplo: As autoridades italianas fazem o máximo para conseguir a libertação dos vários reféns italianos no Iraque e conseguem. Tanto mais difícil porque soldados italianos lutam no Iraque ao lado dos americanos.  Porém o que conseguiu o Itamaraty no caso do engenheiro brasileiro ocupado em atividades pacíficas, seqüestrado pelos rebeldes iraquianos? NADA!  Já lá vão quase três meses e nem sequer se tem certeza se o refém vive ainda. E o Brasil não apoiou o governo americano nessa guerra e o brasileiro se ocupava em atividades pacíficas. Não é isto uma vergonha?
David:
- E o que está achando da política brasileira cá dentro?
Adélia:
- Nós deixamos o Rio de Janeiro no dia das eleições municipais. No Brasil o voto é obrigatório, mas eu nunca votei, prefiro pagar a multa. Para quê votar se não há um só candidato sério em quem se possa confiar?
Veja só, o prefeito do Rio após a reeleição disse aos jornais que tinha usado o truque da saúde pública para assegurar a sua vitória. Agora está usando o mesmo truque para tentar ganhar as eleições presidenciais de 2006.  Dezesseis mil pacientes esperam cirurgias em todos os hospitais do Rio, enquanto o Prefeito deixa propositadamente a saúde publica do município chegar ao caos. Está pegando os usuários da saúde pública como reféns. Mais uma vez são as populações mais carentes que estão pagando as inconseqüências dos maus políticos.
O truque de desta vez é colocar o partido no governo em posição desconfortável para o Prefeito se fazer eleger á Presidência.
Os truques e golpes baixos estão sendo a moeda corrente dos homens políticos atuais. Veja o que está acontecendo na área da segurança. Vários projetos de combate á violência ficam só no papel. Sabe porquê? A polícia diz que é por falta de verbas! Eu gostava que os políticos me dissessem para onde vão as verbas arrecadadas pelos impostos, os mais altos do mundo. Não têm verbas para a Saúde, para a Segurança nem para a Educação. Digam-me, nos cofres de quem está todo esse dinheiro?
Outra coisa, o Rio de Janeiro a cidade maravilhosa está perto de se tornar a maior favela do mundo. Não tem política de habitação. Os transportes públicos estão num caos. Menores assaltam turistas á luz do dia em plena praia. As escolas não estão sendo eficazes como meio de tirar essas crianças da rua. A insegurança que se vive é assustadora. Todo o dia morre alguém em tiroteios. Os assaltos a residências aumentam de modo assustador. Balas perdidas cruzam a zona sul em todas as direções. O que está fazendo o governo do estado? Pouco ou nada. O casal governante já está em campanha para 2006. As campanhas televisivas dos partidos já começaram. Mas eu sei que são só promessas. Nada mudará para valer. Por tudo isso e muito mais eu não dou o meu voto a nenhum candidato atual. Nem sequer comparecerei ás urnas.
David:
- A senhora sabe que essas suas palavras podem ser consideradas crime eleitoral?
Adélia:
- Sim sei, mas eu acho ser maior crime dar carta branca a indivíduos incultos e maus administradores que apenas lutam pela sede do poder. Que usam a saúde pública para conseguir votos nas eleições. Que nunca levam em conta as verdadeiras necessidades do povo brasileiro. Que não recuam diante de nada para serem eleitos. Que enganam o povo com promessas que não podem cumprir. Que usam todas as artimanhas para conseguir nas câmaras o vergonhoso aumento dos seus salários enquanto o povo passa fome. Eu não quero de modo nenhum compartilhar na demagogia que domina a nossa política interna. No dia em que tivermos um partido ou movimento sério e honesto, se ainda estiver em vida, Adélia Saldanha cumprirá o seu dever eleitoral.
David::
 - É do conhecimento publico a sua aversão ás igrejas. Também nos seus discursos a senhora não as poupou. A dona Adélia não crê em Deus?
Adélia:
 - É justamente porque creio em Deus e nas Escrituras Sagradas que sou obrigada a detestar as Igrejas. Por exemplo: George Bush tem o aval das Igrejas americanas para fazer a guerra no Iraque, porém as Escrituras dizem que os cristãos devem buscar a paz e se empenhar por ela. Também Jesus a quem a igrejas chamam de Deus é conhecido na Bíblia como o Príncipe da Paz. Outro exemplo é a enorme riqueza que as igrejas acumularam ao longo dos anos. Mostrando aos seus discípulos que não deviam cobrar pelo seu ministério Jesus Cristo disse: De graça recebeste de graça daí. Sobre as doutrinas básicas das igrejas posso afirmar que são todas contrárias ao ensino bíblico. Outra vergonha que não posso aceitar é lideres religiosos brigarem por cargos políticos. Tiago o meio irmão de Jesus disse que isso constitui adultério espiritual. Por isso mesmo a história está mostrando que até ao segundo século da nossa era os cristãos não participavam nem na política nem nas guerras.
David:
 - A senhora tem uma grande família.  Como explicou para eles os motivos da decisão de interromperem a viagem á volta do mundo?  E como reagiram?
Adélia:
 - A reação deles foi excelente. A minha nora Fernanda Saldanha, colunista no seu jornal, até compôs um lindo soneto sobre o nosso barco e a nossa missão intitulado: SONETO DO MAR DA PAZ.
Eu fiz um pequeno discurso falando o seguinte:
Quero que saibam que não foi o medo da morte o motivo de termos posto fim á nossa missão. Se nós tivéssemos tido a certeza de que continuar serviria a causa da Paz, decerto não teríamos abandonado. Continuaríamos mesmo correndo perigo de vida.  Na decisão levamos em conta três fatores.
Primeiro: As condições mundiais estão piorando. Não têm mais jeito. E como a Fernanda bem diz no seu poema, os governantes deste mundo não querem a Paz. O modo como nos trataram lá fora prova bem isso. Os interesses econômicos ligados ao fabrico e venda de armas são um dos principais impedimentos para a paz no mundo.
Segundo: Não tínhamos o direito de arriscar as vidas dos nossos colaboradores.
Terceiro: Amamos demais a nossa família para lhe causar qualquer tipo de sofrimento.
David:
 - Quais são agora os planos para o futuro do casal Adélia e Charles Dupré?
Adélia:
 - O nosso barco já está funcionando como navio-escola. Alunos pobres das escolas públicas do Rio estão recebendo gratuitamente instrução sobre navegação, a fauna e a flora marinhas e também sobre a preservação do meio ambiente. Quanto á nós como casal, durante as férias escolares viajaremos pela costa brasileira visitando os maravilhosos lugares que nunca pudemos visitar antes. Entretanto em comunhão com o povo brasileiro como um todo, estamos ansiando o dia em que aparecerão governantes honestos, justos e bons para o nosso país.
David:
- Dona Adélia, muito agradecido pelo tempo que me consagrou. Só faço votos para que as suas últimas palavras se cumpram muito em breve.
Victor Alexandre
Enviado por Victor Alexandre em 14/06/2005
Código do texto: T24436
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Sobre o autor
Victor Alexandre
Bélgica, 72 anos
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