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VIDA RELIGIOSA: AMOR OU LOUCURA

Muitas pessoas têm feito este questionamento: seguir a Vida Religiosa (VR) é um ato de amor ou loucura? A resposta depende do seu ponto de vista. Devolvo a pergunta (pelo menos àqueles que são casados): O casamento é um gesto de amor ou uma loucura? Algumas pessoas sorriem; algumas nada respondem; outras dizem: “É um gesto de amor, pois amamos a uma pessoa, com a qual nos casamos. E quanto a vocês que não podem ter uma pessoa para um relacionamento como fica? Vocês estão deixando de lado algo que faz parte da natureza humana: o amor a uma pessoa.”

Pois é. Amar uma pessoa não significa necessariamente ter a pessoa para si. O amor é sinônimo de liberdade. O egoísmo é que retém as pessoas para si. Querer bem a pessoa amada é deixá-la com liberdade de escolha e decisão.

O que acontece muitas vezes é que quando dizemos que amamos alguém queremos esta pessoa sempre perto da gente. De certa forma controlamos sua liberdade. Queremos que ela vá onde nós vamos, faça o que fazemos, goste daquilo que gostamos. Isso é amor?

Ao nos remetermos à Bíblia, vemos o amor universal que Deus tem pelas pessoas, manifestado na pessoa de Jesus. Muitas pessoas acompanhavam Jesus porque se sentiam bem na companhia d’Ele e não porque Ele as obrigava a ficarem com Ele. Jesus pediu, ensinou e viveu este amor universal. Quis que seus discípulos amassem a todos igualmente, sem distinção ou preconceito. Com isso Jesus mostrou que a natureza humana deve ser educada para viver esse amor. Precisamos educar nosso corpo e silenciar nossos instintos.

Antes de entrar nos votos, gostaria de falar um pouco mais sobre a Vida Religiosa que pode não ser uma ideia brilhante, mas, antes de tudo é um ato de amor. A Vida Religiosa é uma luz para compreender melhor o Evangelho e o seguimento de Jesus, é uma luz neste mundo obscuro que caminha sem rumo e esperança. A VR é uma voz profética. Na sua origem, o desejo dos primeiros religiosos era viverem a aliança do seu batismo de forma radical. A essência da Vida Religiosa está em amar a Deus Pai com toda a mente, coração, entendimento e ao próximo como a si mesmo. Pelo menos este é o convite e a proposta de Jesus.

Segundo Lourenço Kearns a Consagração religiosa “fala de amor. Fala do desejo sincero de amar a Deus compaixão, e de entrar em todo um processo de apaixonamento por Deus, porque descobrimos na contemplação que Deus foi quem primeiro se apaixonou por nós. E por causa do amor a Deus, nosso amor tem de chegar até sinais proféticos de amor ao próximo.” (Teologia da Vida Consagrada, p. 19)

A consagração a Deus é um ofertório contínuo de toda a vida do consagrado. Tudo o que este faz é para louvar a Deus, em quem encontra a razão da sua consagração total.

A Vida Religiosa nos convida a fazermos algumas renúncias manifestadas pelos votos de Castidade, da Pobreza e da Obediência. Estes votos, ou Conselhos Evangélicos, professados pelos religiosos e religiosas são meios que ajudam a viver a Consagração radical a Deus.

Muitos ficam impressionados e perguntam: por que estas privações se estes aspectos fazem parte da natureza humana? Nem todos os nossos desejos precisam ser satisfeitos tais e quais se apresentam a nós. Aprendemos a viver doando tudo o que somos por amor à Deus e aos irmãos.

Como viver, por exemplo a castidade? Pois bem. Pergunto agora: você sabia escrever logo que nasceu? Acredito que não. Você foi aprendendo com o tempo. Assim acontece com suas vontades e desejos. É preciso educá-los.

Temos que aprender a educar nossos instintos e desejos. A castidade, por exemplo, “não significa nem pode significar menosprezo pelo matrimônio ou pela união física entre os cônjuges. Justamente por dar um grande valor a essas coisas, o casto não admite que o instinto sexual aja nele cegamente, sem ser controlado pela razão”. (Pe. Luiz Carlos L. da Cruz).

Falar de castidade hoje é um pouco complicado, ainda mais porque a mídia está toda hora provocando nossos desejos. Mesmo com tanto exagero na TV, jornais, revista, manter-se casto não é uma loucura, como o mundo prega, mas um ato de fé e muito amor. Uma pessoa que busca Deus e têm consciência da grandeza da sua vocação consegue viver assim, porque sabe que a função do ato sexual, não é outra, se não a de gerar filhos. São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios 6,19 diz que o “corpo é templo do Espírito Santo” e para tanto, deve ser respeitado. Aqui está uma boa resposta e um grande convite para se viver a castidade. O respeito pelo próximo que não me pertence e nem pode ser usado como objeto sexual. O outro é templo, morada do Espírito Santo e não objeto dos nossos desejos e instintos. São Paulo prossegue no versículo 20: “Glorificai ao Senhor com vosso corpo”. Glorificai o Senhor com tudo o que somos.

Enfim, amar as pessoas como morada do Espírito Santo e ver estampado nelas o rosto de Deus, nos ajuda a respeitá-las e não fazer delas um objeto de prazer.

Até mesmo os casados são convidados a viverem a castidade. Pe. Luiz C. L. da Cruz diz: “Se todo homem tem o dever de ser casto, pelo simples fato de ser racional, o cristão tem um motivo a mais para cultivar a castidade: ele é templo do Espírito Santo. Seus instintos devem ser governados, não apenas pela razão natural, mas pela graça sobrenatural”. O casto deve ter um brilho maior, resplandecer a luz que vem de Deus; é alguém feliz, e com virtudes.

Porém é claro que ninguém passa a viver do dia para a noite ou por um passo de mágica a castidade (assim como outros conselhos Evangélicos). É um exercício constante e requer atenção e vigilância. A graça de Deus tudo pode, basta se confiar.

Ainda trago as palavras e reflexões do Pe. Luiz, onde diz que a “castidade não é privilégio daqueles que nada sabem sobre o ato sexual (...). Casto é um forte, um herói, cuja fortaleza e heroísmo provocam inveja (...) O casto é um vencedor cuja vitória irrita o impuro que é derrotado pelos próprios instintos”.

A castidade não é um mal, mas um bem que fortalece a pessoa e enriquece seu espírito. É uma virtude dos santos, daqueles que põe Deus em primeiro lugar na sua vida e conseguem, ver no outro o rosto deste mesmo Deus.

Assim como este, também os outros votos, servem para a edificação da pessoa consagrada e para a salvação da sua alma.

A pobreza não significa miséria. Ser pobre é saber fazer uso das coisas que estão a sua disposição, mas que não são suas. Devemos lembrar-nos sempre que não devemos colocar o nosso coração naquilo que temos, nos bens matérias, aí eles serão mais importantes que Deus. Tudo o que temos é útil, mas nada substitui a graça de Deus. O que ocorre em muitos casos é que colocamos mais confiança nas coisas materiais que temos do que no próprio Deus. Os bens materiais jamais substituem os bens espirituais.

Uma pessoa com o voto de pobreza se alegra com o que tem, não reclama a todo o momento daquilo que não tem. Deveria saber controlar-se no uso de todas as coisas que dispõe. Pobreza na Vida Religiosa não é passar fome, mas saber partilhar, esperar, servir.

É desafiador viver o voto de pobreza num mundo que incentiva o ter e o consumismo exagerado. Mas é possível. Temos que educar nossos desejos, vontades e nosso egoísmo que muitas vezes falam mais alto.

“A virtude da pobreza pode se chamar de virtude da esperança, porque é por meio da pobreza que se vive a fraternidade, a partilha e a confiança na Divina Providência o que nos leva a acreditar que o Deus criador nos ama.” (Fonte não localizada).

A obediência é o voto que talvez mais custe viver hoje onde o mundo prega a autonomia e a liberdade, onde sou chamado a fazer da minha vida e do meu tempo o que bem entendo. Se retornarmos ao Evangelho veremos que Jesus veio para fazer a vontade do Pai e nos convida a mesma atitude. Seguir Jesus é viver como Ele viveu e não ficar inventando moda. É viver na radicalidade o Evangelho, o que Ele pregou. Dizia nosso fundador São João Calábria: “ou se vive ou então que se rasgue o Evangelho”. Falar até que é fácil. O difícil é realmente pôr em prática o que se diz. Para isso a Vida Religiosa é chamada a viver essa radicalidade, a ser “Evangelho Vivo”.

A definição teológica diz que “a obediência religiosa na sua dinâmica e no seu dinamismo interior é a consagração total a Deus da própria vontade que causa comunhão intensa com a vontade salvífica do Pai, em imitação de Cristo servo sofredor. Obediência significa doação radical ao Pai, para poder viver o Primado do Absoluto. Obediência, portanto, tem a ver com amor”. (Fonte não localizada). Quem não ama, não obedece, porque vê tudo como obrigação e não convite aos despojamento e caminho de santidade.

O orgulho, o fechamento, o egoísmo, atrapalham a vivência da obediência. Precisamos nos confiar ao Pai, pois somente a Ele pertencemos e d’Ele tudo recebemos para nossa santificação. O que mais desejar que a graça de Deus? Ela nos basta. No voto de obediência aprendemos a beleza da liberdade.

Pela obediência e também pelos demais votos nos tornamos livres e dispostos para a missão. Assim como alguns são chamados a constituir uma família, outros são chamados a viverem a Vida Consagrada.

Antes de tudo, a Vida Religiosa é um ato de amor, confiança, abandono, serviço, entrega total a Deus, de todo o ser: vontade, liberdade e afeto. A Vida Religiosa têm sua missão específica e especial de viver a radicalidade do Evangelho a partir do seu batismo. Este gesto de amor e entrega tem que ser livre e consciente, para que a missão seja realizada com amor total e doação da própria vida pela causa do Reino.

O que pode parecer loucura para alguns é um ato de amor extremo para outros, onde, deixam-se conduzir pelo amor e pela misericórdia de Deus. O consagrado apenas se coloca nas mãos de Deus sem reserva, restrições e é o próprio Deus quem vai conduzindo e fazendo caminhada com a pessoa, sempre respeitando sua liberdade. A atitude da pessoa é abertura para Deus e é Ele quem faz acontecer as maravilhas. É Deus quem opera na vida do consagrado.

Os religiosos não são pessoas perfeitas, mas pessoas abertas para a graça de Deus, buscando em tudo fazer a sua vontade. A Vida Religiosa não é para perfeitos, mas para pessoas que aceitam a ação de Deus na sua vida. Pessoas para a quais basta o Amor de Deus.

Onde está a loucura em tudo isso? Loucura é não deixar Deus fazer na nossa vida o seu plano de amor. Loucura é fugir de Deus pensando que Ele é muito exigente. Loucura é dizer não ao caminho de felicidade: Deus.

Prefiro ser chamado de louco pelos homens, a fugir do amor de Deus!

Continuemos sendo os loucos deste mundo. Afinal, o Evangelho é loucura para os sábios, mas fonte de vida e alegria para os humildes e simples.

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP
Hermes José Novakoski
Enviado por Hermes José Novakoski em 24/09/2006
Reeditado em 24/07/2015
Código do texto: T248271
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hermes José Novakoski
Marituba - Pará - Brasil, 35 anos
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Hermes José Novakoski