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Vendam o sofá!


     A cultura popular, se é que ela existe, é permeada de gostos e desgostos, simpatias e antipatias, a maioria oriunda do imaginário e do inconsciente coletivo. Há uma página (www.recantodasletras.com.br) onde publico, junto com outros intelectuais de renome, meus escritos. Tenho mais de trezentas matérias, entre crônicas, contos, poesias – além de seis e-books – lá publicadas. Ali tem coisa séria e “abobrinha”, reflexão e chistes. Pois, sabem qual é o artigo mais lido? “Histórias de cornos”, com 482 leituras. Isto denota a preferência do público por assuntos picantes, tragicômicos, como aquele.

     Pois hoje, antes de abordar um tema político, uma séria reflexão sobre nossas realidades sociais, eu me permiti trazer parte daquele artigo sobre as desventuras de maridos enganados, uma historieta que vai servir de proêmio para o assunto central desta matéria. Dizem que o marido chegou em casa fora de hora e surpreendeu a esposa, no sofá da sala, em connubium com homenzarrão da raça negra. O verbete connubium, em língua de gente, equivale a transar, fazer sexo, ou coisa parecida. Também, digam, o que esses maridos têm que fazer em casa fora de hora?

     Pois na nossa história, por certo uma ficção, o dono da casa ficou uma fera com o fato e – incontinenti – mandou vender o sofá, pois não queria mais aquela coisa ali, na sala principal da casa. Gozadinho, ne? Pois na política brasileira ocorrem fatos mais ou menos análogos. Recordam, quando no governo FHC se falou muito na indiscrição de quem ajuntou dados no “dossiê da pasta rosa” (envolvia altos escalões da República) sem nunca procurarem saber em que consistia o tal conteúdo?

     No Brasil, desde o século passado, se conspira contra o poder estabelecido. Brasileiro adora um golpe. No passado, havia dois partidos, o PSD (Partido Social Democrático) e a UDN (União Democrática Nacional) que, como tantos “democráticos” e “liberais” de hoje em dia, tinham a democracia apenas no nome, pois eram (e são) antros de conspiradores. Lembram do caso Pallocci (a quebra do sigilo bancário do caseiro)? Caiu o Presidente da Caixa e Pallocci foi execrado, sem que até hoje alguém tenha querido saber de onde o caseiro (que acusou o ministro) arranjou o dinheiro depositado em sua conta. Agora as oposições, golpistas, denuncistas e conspiradoras apresentaram fotos de pilhas de dinheiro, supostamente destinado, segundo eles, para adquirir um dossiê contra Alckmin e Aécio Neves.

     A mídia, a serviço dos conspiradores já julgou e condenou “os culpados de sempre”, no dizer do comissário do filme Casablanca. Mas me digam, se tudo não se encaixa na história do marido traído? Este, ao invés de punir a mulher adúltera ou o amante oportunista, resolve vender o sofá. Aqui punem pela quebra do sigilo bancário de um ilícito, ou pelo desejo de publicar um dossiê que apura corrupções, sem ir a fundo a respeito do miolo da questão.

     Como se vê, nossas elites ainda continuam com medo da verdade. De onde veio o depósito do caseiro? Teria sido uma “doação” de seu pai, um miserável pobretão? O que conteria o dossiê? A história dos trezentos vestidos doados à esposa de um político? Ou as preferências de outro? Bem, isto não tem relevância.

     O que interessa é que no Brasil se pune quem resolve investigar tais coisas.



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 05/10/2006
Código do texto: T257019
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
983 textos (322016 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão