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Sim, nós somos os culpados!


     Em tempos de preparação para o segundo-turno, sempre há reflexões que se tornam oportunas. Eu escutei o João Ubaldo Ribeiro, o escritor baiano titular de uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras dizer que botamos a culpa nos outros, pela zorra política, quando os maiores culpados somos nós mesmos. Esta verdadeira indústria da denúncia que assola o Brasil, onde se acusa esse e aquele, sem provas nem julgamentos é um instrumento de defesa dos safados.

    A melhor defesa é o ataque. Enquanto eu ataco você, não sobra tempo ou espaço para você me atacar. A mídia Brasileira, por sensacionalista e ávida de pontos de audiência é igualmente safada, pois publica e depois vai averiguar se é verdade. Como no Brasil nunca ninguém foi condenado por crime de imprensa, fica tudo na mesma.

    A crença geral anterior era de que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizem que Lula não serve. Se ele for reeleito ou se ganhar o Geraldo também não servirá para nada. Não serve quem não faz o nosso jogo. Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está nos políticos, mas em nós. Nós, como povo. Nós como matéria prima de um país. Sim, porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais que o dólar.

    Um país onde ficar rico da noite para o dia é sonho e uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito pelos demais. Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu “puxar” a tevê-a-cabo do vizinho, onde se frauda o Imposto de Renda para não pagar ou pagar menos imposto.

    A gente troca votos por asfalto, material de construção, cargos públicos, moleza junto aos bancos oficiais, etc. Em meu país a falta de pontualidade é um hábito e nós achamos que é malandragem. Onde o empresário não valoriza o capital humano; onde há pouco interesse pela ecologia, as pessoas jogam lixo na rua e depois culpam o governo quando o entupimento dos bueiros causa enchentes.

    Vivo em um país onde fazemos um monte de coisas erradas, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes. Quanto mais analiso os erros de Sarney, Fernando Henrique e do Lula, melhor me sinto como pessoa, como se só eles cometessem erros.

     O denuncismo irracional brota daquela antiga “situação”, inepta e prenhe de golpismos e conspirações, que se converteu em oposição raivosa.

     Ataco a corrupção, mas ainda ontem, hipoteticamente “molhei” a mão de um guarda de trânsito para não ser multado. Como “matéria prima de um país”, temos muitas coisas boas, mas nos falta aquela decência para sermos os homens e mulheres de que o Brasil precisa. Esses defeitos, essa “esperteza brasileira”, a vocação para o “jeitinho”, congênita e adquirida, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce até converter-se em escândalos, essa falta de qualidade humana do eleitor é que denigre nossa política.

     Não serviu Collor, Itamar, FH, Lula... nem servirá o que vier. Será que precisamos de mais um ditador? É gostoso ser brasileiro, mas quando essa brasilidade autóctone começa a ser empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como nação, aí a coisa pega, e se converte em tragédia social.

     Para que ocorram as mudanças que desejemos, nós é que devemos mudar primeiro. E se queremos culpados, podemos acha-lo no espelho, onde a cada manhã fazemos a barba ou colocamos maquiagem. João Ubaldo tem razão.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 05/10/2006
Código do texto: T257026
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão