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A questão do limbo


     A escatologia é a parte da teologia que estuda a “vida depois da morte”, a saber: morte, parusia, julgamento, purgatório, céu ou inferno. No passado, a Escatologia foi chamada de “novíssimos” (novissimus), como realidades inéditas para o ser humano, vividas uma única vez.

     Por esse ineditismo é que o estudo da escatologia pisa em terreno movediço, pois, apesar de seus fundamentos bíblicos, uns claros e outros presumidos, tudo fica adstrito ao terreno da fé, pois como ciência não é exata, além de ninguém haver voltado da morte para confirmar como são as coisas “do outro lado”.

     Há dias leu-se nos jornais que o Papa Bento XVI vai “abolir” o limbo, um “estado de espírito que até agora explicava o destino de bebês e fetos que morrem sem o batismo”. Na verdade, há muitos anos já não se falava no limbo, pela inverossimilhança de seus conceitos: um estado intermediário entre céu e inferno.

     Duas razões concorreram para que essa idéia fosse literalmente jogada em limbo teológico:

     primeira, não há menção, nem explícita nem indireta
     ao limbo na Bíblia;

     segunda, Deus em sua infinita misericórdia, jamais
     poderia permitir que uma criança, criatura sua, por
     causa da falta do sacramente de iniciação ficasse
     privada da visão beatífica. Mesmo os que morrem sem o
     batismo, recebem-no através do desejo e da “fé da
     comunidade”.


     A idéia de limbo é medieval, e serviu como um ato atemorizador às famílias que não se interessavam em prover o batismo aos recém nascidos. Em meus escritos, pregações e teses eu simplesmente nem chego a tocar na idéia do limbo, por julgá-la ultrapassada e fora das modernas bibliografias teológicas.

    Céu e inferno são verdades contidas na Bíblia, como endereço dos bons e dos maus. O limbo, não. Qualquer instância escatológica (depois da morte) não pode ser chamado de lugar, mas de idéia ou estado, pois no aevum pos-mortem cessa a questão de tempo e lugar.

     Entendo que os jornais, diante da informação de Roma, produziram uma notícia um tanto quanto equivocada, uma vez que – entendo eu – o Papa não vai “abolir” o limbo, mas declará-lo uma idéia inserta na cultura da Igreja em um determinado tempo histórico.

     Nesse contexto, igualmente não vejo o “pecado original” como algo que passe de pai-para-filho, mas um pecado inerente à nossa origem humana. Somos pecadores por que somos humanos. Entretanto, acima das nossas limitações está a misericórdia de Deus.


    O autor é Teólogo leigo católico.
    Mestre em Escatologia e Doutor em Teologia Moral.

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 05/10/2006
Código do texto: T257032
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
983 textos (321816 leituras)
10 e-livros (3490 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão