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Sonhos e loucuras


     Muitas pessoas se dão mal na vida porque, iludidos pela fantasia ou pelos devaneios, têm buscado sonhos que não são seus. Esses devaneios oníricos são loucura. Nossa sociedade, pragmática e impositiva, quer definir, através de várias instâncias hierárquicas, políticas, sociais, religiosas, culturais, o que é certo e o que é errado.

     A teoria do “politicamente correto”, do fim do século passado, deu lugar às tantas e nauseantes teorias psicológicas, ora de mudança de comportamento ora da busca da auto-ajuda, que pretendem, de uma forma pretensiosa e discricionária, normatizar a vida humana, através de ridículas e inexeqüíveis “receitas de bolo”, como se a teoria de alguns servissem de paradigma para todos.

     Isto torna a vida social estandardizada, doentia e excludente. Segundo o psiquiatra Roberto Shinyashiki são quatro as “loucuras da sociedade”. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.  A segunda loucura é dizer que você tem de estar feliz todos os dias. A terceira é determinar que as pessoas têm que comprar tudo o que quiserem ou puderem, pois só assim serão felizes.

     O resultado é esse consumismo devastador que se enxerga por aí. Por fim, a quarta loucura aponta para um “você tem de fazer as coisas do jeito certo”. Ora, jeito certo não existe! Não há um caminho único para se fazer as coisas. A filosofia me ensinou que existem várias maneiras de se fazer uma determinada coisa, e que uma delas pode ser a mais correta, tudo sem desprezar as demais, pois o que é certo e funciona para alguma circunstância do hoje, poderá ser rejeitado amanhã.

     Assim é com as relações sociais, a ciência, as artes, a moral e a ética. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. A felicidade, por ser inconstante, não pode ser vista como uma meta de vida, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.

     Assim com o não ter ou ter dinheiro. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema. Outros, são infelizes porque têm dinheiro demais, e sua riqueza lhes tira o sono e a paz. Há tempos, escutei de um doente terminal a queixa, no sentido de haver se sacrificado a vida inteira, e agora seria a hora de aproveitá-la e ser feliz.

     Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida, e aproveitar os pequenos momentos de felicidade que ela oferece.

     A vida, sabemos, está cheia de “maus caminhos!. Tomar o errado depende da má-escolha de cada um. Shinyashiki adverte: “Ter problemas na vida é inevitável; ser derrotado por eles é opcional”. Com isto se pode entender a necessidade que cada um de nós tem de criar suas próprias opções de vida, e procurar ser feliz com aquilo que tem, com aquilo que está à disposição, e não sonhar com uma felicidade intangível, que está lá diante, impossível de ser atingida.

     A felicida está sempre a nosso alcance. Mais do que a gente imagina. Basta vê-la não na ventura dos outros, mas nas coisas simples que estão ao redor de nós.


o autor é filósofo

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 10/10/2006
Código do texto: T260903
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
981 textos (321479 leituras)
10 e-livros (3490 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão