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Geração história em quadrinhos

Lavar a louça: cinqüenta centavos. Levar o lixo: um real. Cortar a grama: dois reais. História em quadrinhos: não tem preço. Assim pensava um garoto ao somar o valor do seu trabalho: cinqüenta centavos mais um real, mais dois reais é igual a Super-Homem além da morte ! Profundamente apaixonado pelas histórias, o menino dedica todo o seu tempo e recursos para comprar o tão desejado livro.

Ao chegar à banca, seus olhos prontamente se direcionam à última aventura de seu super-herói. As mãos ansiosas depressa apertam aquele exemplar sobre o peito, como se dissesse: esse é meu e de mais ninguém. De repente, num ato desesperado, ele joga o punhado de moedas sobre o caixa e sai correndo.

Na primeira esquina, o garoto pára. Senta na calçada. Rasga o embrulho. E devora, compulsivamente, desenhos e letras. O desejo de descobrir quais são os novos super poderes, quem são os novos inimigos e quantos morreram, é muito maior que a distância entre a banca e sua casa.

Depois de satisfazer sua mente, o jovem volta para casa, imaginado o que faria se tivesse todos aqueles poderes. Deitado na sua cama, ele relê, lê outra vez, e se cansa de não ter nem ser tudo aquilo que o mundo das histórias em quadrinhos apresenta. Chateado com a vida real, ele deposita dentro do guarda-roupa mais um exemplar a seu conjunto de duas mil revistas em quadrinhos, que coleciona mensalmente com muito interesse.

Eis a geração história em quadrinhos: um grupo de garotos (de 8 a 80 anos) seduzidos pelos produtos da cultura de massa. Homens que gastam os poucos recursos financeiros que possuem para comprar títulos como Homem-Aranha, Hulk, Super-Homem, Dragon Ball, Witchblade, Spawn e outros tantos. A intenção é ser absorvido pela narrativa ficcional das histórias e ser conduzindo a um mundo de faz-de-conta.

O irreal presente nas aventuras invade a vida das pessoas. Essa forma sutil e infantil de massificação cultural apaga a linha que divide o real da imaginação. Mais do que representar a vida, as histórias em quadrinhos passam a ditar como ela deve ser vivida e compreendida, tal qual uma religião.

A geração que acumulou pilhas de revistas dentro do guarda-roupa aprendeu que a vida deve ser domesticada e enquadrada aos parâmetros que são impostos pelas páginas. Por isso, o maior efeito dessa mídia não é o estímulo à violência ou às mensagens satânicas, mas o estilo de vida. A influência das histórias em quadrinhos se revela na mentalidade e no comportamento de alguns destes indivíduos.

O conteúdo popular, taxado como de mau gosto ou de baixa qualidade, é o principal argumento mercadológico dos quadrinistas. Educação, ética ou informação não vendem, o que produz prazer nas pessoas é despejar suas “moedinhas” sobre as garras do entretenimento. Esse é o lar da alienação e da mentira.

Para a sociedade capitalista contemporânea – produtora, reprodutora e distribuidora dos quadrinhos – o mundo é como um imenso mercado consumidor, cuja meta principal é satisfazer o cliente (produzir alegria efêmera) enquanto recebe o pagamento. No projeto do capital não há espaço para o humano, exceto se ele produza dinheiro.

A raiz de todo o mal

As histórias em quadrinhos como conhecemos hoje é uma narrativa figurada bastante antiga, resultado da luta do jornalismo moderno por leitores. No século 19, artistas europeus como o suíço Rodolphe Töpffer e o alemão Wilhelm Busch popularizaram as histórias dos mocinhos e suas venturas com uma narrativa de imagens, ou seja, comunicação visual.

Na última década daquele século, as duas maiores cadeias de jornais dos Estados Unidos, ao brigarem pelo público, criaram os suplementos dominicais, formados na maioria por narrativas figuradas. O objetivo do material era atrair a massa semi-alfabetizada e os imigrantes, que não conheciam o inglês. O sucesso desses suplementos tomou formas tão intensas que o material passou a ser produzido diariamente. As histórias eram pequenas e desenvolvidas entre quatro ou mais figuras. As falas dos personagens dentro dos balões se tornou padrão logo em seguida.

Por serem histórias alegres com ilustrações cômicas, os norte-americanos passaram a chamar os quadrinhos de comics . Em 1930, as histórias já dominavam as páginas dos maiores jornais dos Estados Unidos e do mundo. A popularidade do material atingiu seu ápice quando passou a ser chamado de comic books , conhecido no Brasil como “gibi”. Os quadrinhos não representavam mais tirinhas diárias ou suplementos do jornal, mas um produto da indústria cultural. Em pouco tempo surgiram os super-heróis e os investimentos em editoras.

Os frutos dessa árvore

Os super-heróis não são apenas aquilo que se vê nas revistas em quadrinhos. Por trás do heroísmo estão as ideologias e as situações massificantes. Os elementos ideolológicos se refletem nas ações e opiniões de inúmeros super-heróis, ídolos da grande massa.

O pecado é a fantasia, a imaginação e o inconsciente. A indústria cultural, como boa serpente sedutora, incita nas “Evas” (leitores) o desejo reprimido socialmente de liberdade e poder. Embora os indivíduos possuam sonhos comuns em seu grupo social, eles normalmente são irrealizáveis. No entanto, a fantasia individual não. As histórias em quadrinhos são as expressões exatas do inconsciente: o poder.

O desejo de liberdade inconsciente cria aventuras onde o ser humano rompe seus limites (naturais e sociais). Eliminadas as fronteiras o homem se torna um “super-homem”. Um ser que consegue superar as injustiças fazendo justiça com as próprias mãos. Para ele não há mais as prisões do trabalho, da escola ou família, pois seus desejos de aventura e liberdade passam por cima de qualquer coisa.

Assim é o retrato da geração que viveu embriagada pelos produtos da cultura de massa: inconscientes, alienados, enganados, acríticos e desinformados. A geração quadrinhos não conhece o mundo de verdade, com seus frutos saborosos e nutritivos. Por isso, se quisermos curar a apatia desse grupo é preciso desenvolver a consciência coletiva e eliminar os elementos provocadores da alienação social, tal como as histórias em quadrinhos.


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Enviado por Cabreira em 13/10/2006
Código do texto: T263135
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Sobre o autor
Cabreira
Engenheiro Coelho - São Paulo - Brasil, 31 anos
37 textos (21835 leituras)
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