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A sociedade contemporânea e o consumo

Claro está que o consumo é intrínseco à vida contemporâneo sem sequer existir a possibilidade de dissociação deste com o ser humano propriamente dito. Isso por si já seria passível de inúmeras reflexões críticas e, no entanto, por força do hábito, tomamos tal relação como natural.

O consumo, em certo sentido, é um Raio-X das entranhas da civilização, pois é capaz de desvendar o imaginário social, a arqueologia das relações humanas. É, pois, um classificador social, já que delimita “quem sou”, “com quem quero me relacionar”, “se quero ou não pertencer a tal grupo”, etc. (há uma crônica muito interessante do Fernando Sabino, intitulada “lixo” que explora isso. Um primeiro encontro entre dois vizinhos que ‘se conhecem’ sem nunca terem conversado antes. Essa façanha dá-se, pois um analisa o lixo do outro e, conseqüentemente, seus hábitos de consumo).

Ainda sim o buraco é mais embaixo quando falamos da mercantilização do mundo. Tudo é mercadoria. Exemplo elucidativo: uma empresa suíça promete “imortalizar” o ente querido que partiu dessa para uma melhor. Ela crema o corpo e o transforma em pingente para que o parente ou amigo fique “mais próximo do peito” de quem ficou por aqui.Clara banalização da morte, transformação do afeto em um “bem”.

As reflexões do filósofo francês Gilles Deleuze sobre o trabalho do também filósofo Michel Foucault tendem a classificar a sociedade contemporânea como a sociedade do controle. Como é isso? As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais móveis e flexíveis que antes. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar e pela lógica do confinamento (sem que seja necessária a existência de muros que separem o lado de dentro das instituições do seu exterior). Há uma vigilância contínua, concretizada, por exemplo, pela propagação das câmaras espalhadas por toda a parte.

Outro ponto importante da sociedade de controle é a performance que dita as regras e os costumes. Paradoxalmente, há a necessidade de aceitação em determinado grupo social (que por apropriação vira nicho mercadológico) e, ao mesmo tempo a necessidade de diferenciação dentro do próprio grupo. A fronteira entre o suplício e o prazer, entre o são e o doentio dilui-se: de um lado um anúncio convida (covardemente) aos deleites de um delicioso chocolate. Do outro, inúmeras revistas estampam corpos perfeitos em suas capas e revelam “receitas” para alcançar tal perfeição.

Por trás disso tudo há uma flexibilidade aparente. É possível, por assim dizer, trabalhar sem um horário fixo, mas a necessidade de alcançar a melhor performance impõe um stress constante. Tomamos banho pensando num projeto. Ouvimos rádio à noite montando uma apresentação para o dia seguinte. Assim, perpetua-se uma escravidão silenciosa.

Existe mais uma questão essencial nessa sociedade: as pessoas, geralmente, tomam o que gostam como absoluto. Que mulher, hoje em dia, olhando para outra gordinha diria: eu quero ser igual a ela! Pode parecer estranho, mas já foi assim. Exemplos não nos faltam se analisarmos as pinturas dos mestres seiscentistas. O que quero dizer com isso? Que gosto é cultural; transforma-se ao longo do tempo. E o que nos é imposto hoje (a magreza, por exemplo) não pode ser absorvido e tomado como verdade ou paradigma.

Debord (1994-) descreve a sociedade contemporânea como a sociedade do espetáculo, que substitui o cogito cartesiano “Penso logo existo” por: “Sou visto, logo existo”.
(O que dizer do sucesso de reality shows como o Big Brother?)
A Mídia, obviamente, contribui muito para esse processo. Mesmo quando parece crítica, é preciso analisá-la com cuidado, pois, na maioria das vezes, ou ela é descritiva ou é sensacionalista. E, além disso, na mídia propaga-se o que deve ser consumido; cientificiza-se o discurso midiático, como nos casos dos cremes de beleza que são testados nos melhores laboratórios, pelos melhores cientistas. Perde-se a credibilidade no vazio discursivo.

Outro exemplo temos no título de capa de uma revista de circulação nacional: “Chegue com todo gás aos 100 anos!” Cabe a questão: estamos preparados para viver 100 anos? Provavelmente não, pois na sociedade contemporânea, a vida do sujeito resume-se à vida profissionalmente “ativa”. O despreparo é tamanho que tentativas de projetos para a terceira idade infantilizam o “viver bem”, reduzindo a vida dos idosos a programas de lazer que passam longe da autenticidade necessária.

E esse indivíduo “ativo” se sujeita a trabalhar 8 horas por dia (às vezes mais) num lugar que muitas vezes não gosta em prol do consumo. O trabalho, tão bem quisto por Marx como realização do homem, fica subjugado pelo consumo.

Mas afinal, é possível mudar isso?

Infelizmente, a modernidade iniciada com a Revolução Cientifica no século XVI trouxe consigo a definição de quais seriam os saberes importantes. O mecanicismo e a utilidade sobressaltaram sobre a reflexão e a imaginação.

Para tentarmos reverter o quadro é preciso desconstruir o conceito de consumo. E isso passa por alguns pontos:

Analisar friamente tudo o que consumo: necessito, de fato, do que vou comprar?

Desmistificar o termo “consumo consciente” que circula por ai. A grande maioria sequer sabe o real significado. Usam isso com o velado intuito de vender mais e mais. Um exemplo: muitas pessoas acreditam que utilizando papel reciclado estão contribuindo para o meio ambiente. Mas, tendo em vista que o bem mais precioso e escasso hoje é a água, essa é uma idéia errônea, já que se gasta 8 vezes mais água no processo de reciclagem do que na fabricação convencional. O certo seria comprar de empresas que reflorestam.

Por fim, acompanhar de perto as políticas governamentais e cobrar medidas efetivas.
Matheus Arcaro
Enviado por Matheus Arcaro em 23/11/2010
Código do texto: T2632041

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Sobre o autor
Matheus Arcaro
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 30 anos
50 textos (3602 leituras)
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Matheus Arcaro



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