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CAPÃO PECADO

                                  CAPÃO PECADO
Um bom Rap Literário para espantar os maus agouros do ruído funk carnavalesco, molhado pelo Tsunami do natal

                                                                     SYLVIO NETO


O homem não se pertence
em sua totalidade
e nem pode se esquecer.
É definido pelos acontecimentos
e também os define - a guerra,
os pais, a escola, o idioma e os sonhos.

J. P. Sartre


                                                                   "Querido sistema",
                                                             você pode até não ler,
                                         mas tudo bem, pelo menos viu a capa.

                                                               Capão Pecado, Ferréz


Durante o período do reinado de Momo, terminei a leitura de "Capão Pecado", do escritor Ferréz. Um livro, nítida e autenticamente, hip-hop, um livro gangsta rap.Gostei do livro. Nem muito nem pouco, apenas gostei. E recomendo, como fonte de pensar, raciocinar e interpretar diferenças, climas, texturas sociais, raciais e políticas – Neste mesmo período li também Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir – A Arte da Excepcional Busca Pela Felicidade de Walter Van Rassum (daí, algumas pequenas comparações e citações).

Não posso, por coerência, dizer que vi, neste livro, Areia Branca, Piam, Farrula, Heliópolis, Santa Thereza, enfim, periferia e centro de Belford Roxo (região onde vivo), na presença do morro da Palmeira, Castelar, morro do Falcão, Galinha I e II e todas as regiões de acidentes geográficos e sócio-políticos do Município. Por coerência digo, pelo motivo/fato, da complexidade do local /ambiente explorado no livro, o bairro Capão Redondo em São Paulo. Tal afirmação não diminui a urgência de boas ações no campo político e econômico dessa região (tanto quanto daquela), descambando em sua melhora social, mas inibe a comparação imediata, que aqui não cabe.

Felizmente não temos tráfico de "crack" no Rio de Janeiro – lembra-me este fato a frase do Maluf: - Estupra, mas não mata!, repetida pelo anchor-man, do programa TV Baixada, Mauro Gonçalves, que bradou em certo momento de seu programa diário: - Rouba, mas, não mata!. Por tanto, "trafica mas não o crack", diria, eu, aos traficantes do Rio e de Bel, confortando e sublimando suas ações.

No mais, traficantes, homicidas justiceiros, bêbados sujos e drogados – "botando a língua para fora toda hora" – bares, forrós e bailes. Ruas sujas, valas negras a céu aberto, são o mesmo cenário a mesma locação e atores do Capão Redondo, no livro Capão Pecado, aqui Bel.

Por que afirmo ser este um livro hip-hop? Respondo, por conter os mesmos chavões e clichês do hip-hop. Eu, Sylvio Neto, sou uma porcaria no trato da língua portuguesa e da literatura brasileira.Falta-me muita leitura e estudo para conhecer melhor a ortografia e a gramática, sobre literatura e aí então, sou um capão pecado, portanto não estou aqui a me insurgir buscando questionar ou criticar uma obra. Quem me conhece sabe que seria um péssimo crítico. No comportamento sou consensual, no julgamento escrito seria bestial, radical e nojento: - "Não viemos ao mundo para comer pão com mortadela e beber coca-cola" - tanto quanto o são, minha poesia e discurso escrito. Portanto não há que se julgar deste texto uma crítica, muito pelo contrário, é ele um incentivo a sua leitura: Que é legitimamente um rap.

Cresci lendo e reconheço, neste livro a ausência de alguma coisa de que me habituei a encontrar com a leitura, tanto quanto há nele a presença de texturas novas para mim. Há aqui uma ética na ausência da ética. Há aqui um estilo diferente, muito diferente. Talvez, eu precise me habituar, ser e estar mais aberto ao novo (novo?). Existem alguns desencontros temporais : coisas como ir a padaria "tarde da noite"; Receber carta as 20 hs, da noite de natal; Sair da fábrica para almoçar em casa e o texto não dar conta da volta, partindo para outra narrativa; Ir à casa de um amigo beber um café e novamente o fazer ao chegar a casa, ato seguinte e imediato ao anterior – parecem àqueles erros cometidos em filmes pelo continuísta;

Existem alguns vários momentos (talvez) desnecessários. Na verdade o texto sugere de forma imperativa que "eles", são dispensáveis;

O uso coloquial (que é ótimo) apresenta-se por vezes sob forma forçada, exagerada;

Desculpar ou justificar os erros pela causa natural e geradora do fato e agravá-lo por conta da existência de uma causa social, motriz e sustentadora do processo, é piegas e gangsta rap demais;

Alguma falta de concordância , chega a irritar;

No entanto a capacidade descritiva, momentos de timming literário perfeito ou sem o exagero da palavra anterior, "da hora’, lembraram-me Moacyr C. Lopes, em A Ostra e o Vento (bota a cara Sylvio Neto);

O discurso, o desabafo, o choro e a emoção em muitos momentos comovem, nos leva a lembrar...e lembram, salvo o formato estilístico, as cartas ou as palavras entregues aos diários de Sartre a sua "Sartresse" – Simone de Beauvoir ou dela própria a ele. Escritos que descrevem o ambiente, o momento interno e a ação contraditória ao sentimento por hora descrito:

ELA – "Nós ainda conversamos um com o outro na estação de trem, por cima de uma corrente, então ele parte e suas costas e sua nuca desaparecem. Vou embora depressa, corro e, enquanto corro, parece que vou conseguir, não posso absolutamente ficar parada. Uma manhã de outono tão bonita...".

ELE - "Em tudo o que sinto, eu sei, ainda antes de senti-lo, que eu o sinto. E então eu o sinto apenas pela metade, completamente ocupado em defini-lo e pensar. Minhas maiores paixões nada são além de impulsos nervosos. No restante do tempo, eu o sinto de maneira rápida, e então eu o transformo em palavras, comprimo um pouco aqui, exagero um pouco ali e logo está construído um sentimento exemplar, que pode ser guardado em um livro encadernado".

Um excelente texto para ser aproveitado por Tarantino, mestre em encontrar o humano escondido dentro do desumano. A capacidade de Ferréz em mostrar, como um ambiente absolutamente (exagero?) inóspito, a luz da cidadania e dos direitos humanos, longe de boa média no IDH e dos lindos ambientes criados para dar luz a muitos contos e romances, pode dar vida e emoção a tanta gente e, constatar que a gente dali, constitui retrato real da família brasileira, é extraordinária e feliz.

Ao contrário do filósofo, escritor e intelectual descrito acima, que ousadamente comparo algum momento, Ferréz não possui o mundo através de palavras e assim também não o cria ou reconstitui. Ferréz o tem amarrado a sua própria alma. É dali filho, como o são seus personagens.


"(...) possuímos o mundo através de palavras, e em caso de necessidade, através do canto. A enseada ali, em frente aos meus olhos, não me diz nada. Sua beleza só aparece através das minhas palavras. A beleza é um significado organizado de forma verbal. Mesmo quando a beleza da natureza parece poder ser dominada, não significa de todo que ela seja muda. Amanhã, aquela mesma enseada me parece vazia e me oferece a imagem da ameaçadora indiferença da natureza(...)"

As Palavras, Jean Paul Sartre


"(...) O homem que vive na periferia é igual a essa pequena árvore, todos passam por ele e arrancam-lhe algo de valor. A pequena árvore é protegida pelo dono do bar, que põe em sua volta uma armação de madeira; assim, ela fica segura, mas sua beleza é escondida. O homem que vive na periferia, quando resolve buscar o que lhe roubaram, é posto atrás das grades pelo sistema. Tentam proteger a sociedade dele, mas também escondem sua beleza. (...) o menino que não concilia o sono com a fome; o barulho dos carros passando pela fresta do barraco, encobrindo a música do disco que fala de muitos na contramão da evolução social, sendo seus destinos infrutíferos, e sendo seus futuros tão gloriosos e raros quanto um belo pôr-do-sol. Ë muito raro um favelado parar para ver as estrelas numa grande e farta cidade que só lhe entrega cada dia mais a miséria, mas que é sua cidade(...)"

Prefácio, Capão Pecado, Ferréz


Não sei se ter lido, Capão Pecado em ambiente natural de grandeza tão barroca, teria interferido em minha emoção. Afinal, o que o livro descreve e a realidade que vivi na Praia das Conchas no Peró, em Cabo Frio, eram exponencialmente conflitantes, Milton Santos, que o diga. A minha cintilação, descrita pelo mano Renato Aranha como a linha tênue entre a sanidade e a insanidade, pôde assim, perceber de modo arbitralmente preposto a diferença, a dor, a ausência, o exagero, o ódio e o amor e um grande conjunto metafísico de bem e mal, anjo e demônio, convivas de um mundo, universo tal qual na edificação da "Cidade de Deus" de Santo Agostinho.
Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 21/06/2005
Código do texto: T26651
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
73 textos (11985 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 20:30)
Sylvio Neto