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Estação das perdas



Aquele enorme salão parecia estar jogado a toda sorte. Havia muitas flores, não havia velas, mas havia muitas flores. Flores de várias cores e tamanhos, separadas pela espécie, que formavam grandes círculos, que formavam grandes coroas.

Vi muitos rostos conhecidos, vi bons políticos e amigos. Vi bocas com sorrisos amarelos, lábios que murmuravam, vi olhos que choravam. Não era preciso esforço para ver os corações despedaçados e as mentes confusas.

Vi braços em busca de abraços, sedentos de carinho. Vi abraços calorosos, confortando, consolando, apaziguando a dor. Senti o calor, o mormaço do clima quente. No relento a chuva caia forte, sem se importar com nada, lavava as ruas, mas não as almas, molhava o chão e encharcava os corpos.

Vi um choro de mãe, mas não vi revolta. Vi o fim de um bailar e o começo de um novo ciclo. Vi o curso natural da vida se inverter, vi uma mãe chorar pela perda do filho, enquanto a história deveria ser outra.

Ouvi um bonito coral de vozes efêmeras, que cantarolava uma velha canção, que falava de amor, de vida, que ensinava que quando uma luz se apaga nasce uma nova em outro lugar, uma velha canção, que ensinava que existe uma outra vida além dessa que vivemos, que aqui não é o fim. Ouvi comentários, vi expressões indignadas. Vi olhares cruzavam o vazio e tinham como alvo certeiro aquele altar, o mesmo que fora palco de grandes ensinamentos.

Bocas se perguntavam, por quê?  Procurei em vão, os braços que queria abraçar. Imaginava sua angústia e seu sofrer, pois conheço os seus atos e o seu coração. Sabia que sofria pela perda do ente querido.

Em silêncio me perguntava, e a vida? O que é a vida senão uma transição para uma nova vida. O que é a vida, senão um aprendizado, uma escola para nosso aperfeiçoamento. Amanhã será outro dia e mesmo que alguns não queiram, o sol vai voltar a brilhar, pois a vida continua e a rotina será eterna.

É fato consumado que estamos apenas preparados para os sorrisos e as festas. Contamos apenas com os momentos alegres e chegamos mesmo a esquecer que nossa existência também é feita de momentos tristes. Não estamos preparados para as surpresas desagradáveis. Não estamos preparados para o não ou para vida que se estanca.

Perder alguém que amamos é sempre muito complicado, muito dolorido, seja na condição que for. O amigo ausente, o amor abandonado ou ainda a pessoa querida que se foi para nunca mais voltar. Instala-se em nosso ser, a pior das estações, instala-se em nosso coração a estação das perdas, com suas flores secas e o seu céu cinza.

O tempo não para, momentos tristes ou alegres, amanhã serão apenas lembranças estáticas, presas como um quadro, na parede da memória. É o tempo quem cura, que apaga as cicatrizes. É ele que nos acalma e nos prepara a alma, nos faz aceitar e nos consola o coração. É ele quem faz amarelar os quadros.

Perder alguém é sempre muito difícil. E o que fica é apenas o consolo de saber que isso não é o fim. Pois, quando uma luz se apaga, nasce uma nova em outro lugar.

Reginaldo Cordoa, futuro Administrador de Empresas e Apaixonado pela Vida.
17/10/2006

Reginaldo Cordoa
Enviado por Reginaldo Cordoa em 18/10/2006
Código do texto: T267237
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Sobre o autor
Reginaldo Cordoa
Matão - São Paulo - Brasil, 46 anos
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Reginaldo Cordoa