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Uma carta


     Eu gosto muito de falar a respeito da emoção das cartas de amor. Na verdade, os tempos atuais, pródigos em indiferença e pragmatismo, não cansam em fazer as pessoas padecerem de solidão, de uma carência, quase uma desidratação afetiva profunda, como que incurável.

     O poeta Antônio Maria, autor de “Ninguém me ama” referiu-se, certa vez, há algumas décadas, à “solidão dos bares cheios”, quando as pessoas se reúnem, conversam, bebem, mas permanecem solitárias, incapazes de preencher o vazio existencial que queima em seus interiores, aberto por uma paixão, por um grande amor, por uma desilusão...

     O cancioneiro poético, de todas as línguas, é rico em assuntos de cartas de amor. Desde o banal “...escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor...” do Erasmo até temas mais profundos e passionais. Revendo meus arquivos mnemônicos encontrei um antigo bolero (Mi Carta), pesadíssimo, onde Gregório Barrios desata: “Querida, vuelvo otra vez a conversar contigo, la noche trae un silencio que mi invita a hablarte, y pienso que tu tambiem estaras recordando...”.

     Lucho Gatica, um dos ícones românticos da minha geração também ajuda: “Somos un sueño impossivel que busca la noche,  para olvidarse en sus sombras del mundo y de todos...”.  Na verdade, já foi dito que, com o e-mail as cartas parece que caíram em desuso. A tecnologia abafou o sentimental. Ora, coisa mais fria é um e-mail, ou mesmo um telefonema, onde as palavras voam...  Na carta não. As palavras ficam; a pena corre com mais firmeza, não gagueja, é mais sincera, mais ousada...

     Quantas vezes, namorados, atuantes ou em potencial, que não tiveram coragem de revelar sonhos e desejos, valeram-se da escrita para exprimir a ousadia de seus sentimentos e emoções. Pois nesta tarde em que escrevi esta crônica, escutava o “Lembra de mim...” de Ivan Lins e conclui que todos gostam de receber cartas, de se sentirem lembrados...

     A carta denota mais preocupação. E melhor ainda quando é furtiva. A gente tem que preparar o papel, alguns fazem até rascunho, escolhem uma caneta adequada. Se for carta de amor, as moças usam seu perfume predileto para obsequiar mais ainda o destinatário. Depois de escrita, há o trabalho de subscrever o envelope, protegê-lo de olhares indiscretos, procurar o CEP, selar e colocar no Correio.

     A remessa de uma carta tem todo um ritual, místico, poético, romântico, que não se esvai na remessa, mas transforma-se em emoção, na expectativa da resposta da pessoa amada. Quem manda uma carta começa a antegozar a emoção mesmo antes de remete-la. Coisinha chata é a gente estar fazendo alguma coisa e ser interrompido:
“Telefone!”  Ou  “Podia me dar um sinal de fax...”  Agora, ninguém reclama quando recebe uma carta; principalmente se ao manuseá-la pressente quem mandou, reconhece o perfume ou identifica a letra. O coração dispara; a adrenalina vai a mil...

     Como é gostoso receber uma carta de amor! O brabo é quando se recebe uma carta portadora de más notícias, ou cujo texto não diz o que se queria ler. É decepcionante esperar uma coisa e receber outra...

     Estava quase terminando a crônica quando meu “FM” tocou uma suave e antiga música italiana, que tem tudo a ver com o assunto: “Scrivimi” (Escreve-me!)



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 19/10/2006
Código do texto: T268216
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
981 textos (321425 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão