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A comédia... nova?!

Como terei que apresentar um pequeno seminário a respeito, estou relendo La Comedia Nueva, de Leandro Fernández de Moratín, peça teatral apresentada pela primeira vez em 7 de fevereiro de 1792 — segundo informações constantes da edição da obra que tenho em mãos (1).

É triste ver como alguns colegas de curso murmuram por ter que preparar (e apresentar) um seminário sobre qualquer obra literária do passado: “Ah, porque é muito chato”, “Ah, porque o texto é antigo e muito longo” ,“Ah, porque é um tédio” e pá-pá-pá. Acho que ninguém está ali obrigado. E por isso não entendo certas atitudes que considero extremamente infantis. Ou será que reclamações desse tipo fazem parte do repertório de estudantes (de qualquer matéria) e em qualquer  lugar do mundo?

Bom, o que me motiva a escrever este texto não é relatar as reações de meus colegas do jardim da infância, e sim mostrar trechos desta peça que, embora tenha sido escrita no século XVIII, a meu ver continua atualíssima em vários aspectos.

A comédia, que em termos pós-modernos poder-se-ia denominar meta-comédia, trata de momentos que antecedem o lançamento da comedia fictícia El Gran Cerco de Viena, primeira obra de um autor iniciante e desconhecido que decidiu tornar-se escritor da noite para o dia após ter ficado desempregado: “ (...) viéndose él así , sin oficio ni beneficio, ni pariente ni habiente, ha cogido y se ha hecho poeta.”, nos conta um dos personagens, o garçon do café em que se passa a história.

Dentre os personagens, além do garçon, vemos o autor da comédia e sua equipe, um grupo de bajuladores que só sabe despejar elogios ao talento do jovem autor e profetizar que a peça será um sucesso; e um único verdadeiro crítico, D. Pedro, um senhor que não é muito apreciado por sua sinceridade.

A meu ver, La Comedia Nueva é uma sátira, e ao mesmo tempo uma crítica severa, à forma como se fazia teatro e literatura na Espanha daquela época. A peça fictícia espelha, de certa forma, a recepcão que teve a peça verdadeira, um tipo de boneca-russa (2). Algumas falas interessantes reproduzo a seguir, mantendo a ortografia do original.

Partes de fala de D. Pedro, 1° Ato, Cena III:

Don Pedro explica a D. Antonio, um amigo, porque havia ido àquele café:
“ (...) A fin de mesa se armó una disputa entre dos literatos que apenas saben leer. Dijeron mil despropósitos, me fastidié, y me vine.”

Mais adiante, D. Pedro descreve seu caráter:
“No, por cierto. Yo soy el primero en los espectáculos, en los paseos, en las diversiones públicas; alterno los placeres con el estudio; tengo pocos, pero buenos amigos, y a ellos debo los más felices instantes de mi vida. Si en las concurrencias particulares soy raro algunas veces, siento serlo; pero ¿qué le he de hacer? Yo no quiero mentir, ni puedo disimular, y creo que el decir la verdad francamente es la prenda más digna de un hombre de bien.”

D. Antonio questiona o comportamento de D. Pedro:
“Aquí mismo he oído hablar muchas veces de usted. Todos aprecian su talento, su instrucción y su probidad; pero no dejan de extrañar la aspereza de su carácter.”

Ao que D. Pedro responde:
“¿Y por qué? Porque no vengo a predicar al café. Porque no vierto pela noche lo que leí por la mañana. Porque no disputo, ni ostento erudición ridícula, como tres, o cuatro, o diez pedantes que vienen aquí a perder el día y a excitar la admiración de los tontos y la risa de los hombres de juicio. ¿Por eso me llaman áspero y extravagante? Poco me importa. Yo me hallo bien con la opinión que he seguido hasta aquí, de que en un café jamás debe hablar en público el que sea prudente. ”

Mais adiante, D. Pedro critica a atitude de D. Antonio, que parece gostar de se divertir às custas das ilusões alheias:
“ (...) Yo no sé: usted tiene talento, y la instrucción necesaria para no equivocarse en materias de literatura; pero usted es el protector nato de todas las ridiculeces. Al paso que conoce usted y elogia las bellezas de una obra de mérito, no se detiene en dar iguales aplausos a lo más disparatado y absurdo; y con una rociada de pullas, chufletas y ironías, hace usted creer al mayor idiota que es un prodigio de habilidad. (...)“

Como o mundo está cheio de D. Antonios, gente que adora se divertir às custas da ignorancia ou ingenuidade alheias, não?

E para terminar, fala de D. Pedro (1° Ato, Cena VI) sobre a situação do teatro espanhol da época, e a quantidade ‘exorbitante’ de autores (imagine se vivesse hoje, nos tempos da internet... O pensamento da época me chamou muito a atenção, e quando livros ainda eram artigos raros e caríssimos!):
“(...) el teatro español tiene de sobra autorcillos chanflones que le abastezcan de mamarrachos; que lo que necesita es una reforma fundamental en todas sus partes; y que mientras ésta no se verifique, los buenos ingenios que tienen la nación, o no harán nada, o harán lo que únicamente baste para manifestar que saben escribir con acierto, y que no quieren escribir.”

Há também um personagem D. Hermógenes, um dos bajuladores que em quase todas as suas falas recorre a citações, o que D. Pedro reprova de maneira elegantíssima no trecho a seguir:

D. Hermógenes:
“Bien dice Séneca en su Epístola diez y ocho que...”

D. Pedro:
“Séneca dice en todas sus Epístolas que usted es un pedantón ridículo a quien yo no puedo aguantar. Adiós señores.” Sai de cena.

Deixo as passagens no original. Imagino que não será difícil para quem tem o português como língua materna entendê-las. Estas passagens da peça de Moratín podem ser recepcionadas de várias formas e não é minha intenção usá-las aqui para fazer discursos de qualquer tipo ou coisas do gênero. Li, gostei e achei legal compartilhar. Gostaria ainda de lembrar ao leitor não confundir as opiniões de Moratín com as minhas próprias, as quais não veiculo tão explicitamente neste texto, ainda mais porque as passagens abordam distintos e variados temas. Aos amantes da literatura em geral, quis trazer um pouco da obra deste autor espanhol, o qual vale a pena conhecer. Um pouco mais da sabedoria de outro grande escritor do passado, dessa vez um brasileiro, também sobre temas literários, no meu conto 'Sobre Necessidade de Aplausos'. No momento, acho que temos muito mais a aprender com os autores do passado do que com os mais atuais, mas esta é só mais uma opinião! :-)

Grata pela leitura, um abraço fraterno.

(1) J. Dowling e R. Andioc (eds) (1968): L. Fernández de Moratín: La Comedia Nueva y El Sí de las Niñas, Clásicos Castalia, Madrid.

(2) Para quem não sabe, uma boneca-russa é aquele tipo de bibelô que carrega uma réplica menor dentro de si mesmo e assim sucessivamente, até chegar a uma miniatura final.
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 21/12/2010
Reeditado em 21/12/2010
Código do texto: T2683992
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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