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Retalhos de cetim


     Foi num domingo. Era “Dia dos Pais” e eu tinha que viajar para Belém do Pará. Em face da efeméride, marquei meu vôo para as 16 horas. Ia dar tempo para fazer o clássico churrasquinho em casa e ir para o aeroporto (fica a 10 minutos da minha casa). Na véspera, quando tudo parecia arranjado, houve um desarranjo.

     A Varig ligou para minha casa, afirmando que o meu vôo havia sido cancelado, e que havia um lugar para mim no das 12h30min. Eu começava um curso na segunda, na Arquidiocese de Belém, às oito da manhã. Já viram: tive que festejar o “Dia dos Pais” no aeroporto, tomando cafezinho com Carmen, os filhos, genro, neta e sogra.
   
   Como o check-in era às 11h30min não dava nem para um almoço rápido. Na semana seguinte, Carmen viajou para lá, para me auxiliar na segunda semana do evento. Com ela foi pior. Cancelado o vôo, ela foi colocada num Vasp com escala em São Paulo, para azar, junto com a delegação do Inter. Com o atraso da escala em Sampa ela quase perde a conexão do Galeão para Belém. Depois daquela joguei fora meu tolo bairrismo gaúcho: só viajo de TAM.
Aliás, há mais de vinte anos que a Varig não é gaúcha. Sua intelligentsia funciona toda em São Paulo. De gaúcha só o nome. A esse respeito, o humorista José Vasconcelos define Varig como “Vários Alemães Reunidos Iludindo Gaúchos”.

   Brincadeiras a parte, é gozado ver alguns conterrâneos dizendo que só voam pela Varig porque ela é gaúcha. O grande problema da Varig, como de resto a Caixa, a Petrobrás, e o Banco do Brasil é que, por dentro há uma “fundação”, maior que a própria entidade, que puxa mais para seus interesses do que da empresa. Além disto, a empresa não se atualizou. Enquanto as outras passaram a explorar mais percursos e apresentar um serviço melhor, a “gaúcha” deixou cair a peteca, revelando incapacidade para enfrentar a crise (que afeta a todas) e a concorrência.

   Além disto há, como nas demais, um mau gerenciamento das tarifas. Você vai a Buenos Aires e de lá pega um avião para Paris, por exemplo, o custo é 70% daquilo que pagaria saindo de Porto Alegre.
Agora a Varig, para se tornar saudável, demitiu 5500 funcionários. Por que não fez isto antes, para evitar a ruptura de mercado? Sim, pois com a degradação dos serviços, a piora da comida e da bebida, e pelos cancelamentos de vôos, quem será louco em viajar pela Varig? E se tratam assim seus empregados e clientes, como andará a manutenção das aeronaves? Eu fora!

   A Varig já foi a melhor. Viajava-se na first class, por exemplo, comendo por cardápio, toalhas de linho, talheres de inox, vinho importado, champanhe, licores, pratos de porcelana e taças de cristal. Hoje dão uma bolachinha com uma “laranjágua”.

   O carioca usa uma gíria, para designar o cara que não se dá pela conta dos problemas que pululam a seu redor, como alguém anestesiado, que dorme “em retalhos de cetim”. Assim foi a Varig. Enquanto sua fundação crescia, os serviços se degradavam e os vôos diminuíam. A concorrência cresceu e as contas não foram pagas nos vencimentos. Pode ser que quando o leitor ler este artigo, a “nossa” Varig já esteja no buraco. É questão de detalhe. Infelizmente, a quebra da Varig é um pé-no-saco de nosso gauchismo.

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 20/10/2006
Código do texto: T269273
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão