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É quando a noite desce sobre o dia, que se abrem os portais do mundo onírico onde nos defrontamos com nossos heróis (nossos sucessos, alegrias e amores) ou nossos dragões, (nossos medos, fracassos e tristezas), com nossa luz e com nossa sombra.

Analisar e prestar atenção nos nossos sonhos é ter a possibilidade de revisitar nossa história e ressignificar nossa biografia.

E nosso inconsciente sempre usa nos sonhos o material que nós colhemos na nossa consciência - ou nossas atitudes diante da vida, ou nossos próprios medos – desconhecidos de nós muitas vezes-, ou como reagimos diante da vida, ou o que nos empolga, o que nos excita, ou tudo o que uma vez foi consciente, mas agora esquecido; tudo que foi percebido pelos sentidos, mas não foi notado pela nossa mente consciente.
 
Se traição é uma palavra forte para o sonhador, se de alguma maneira já houve esta experiência na vida, ou de trair ou ser traído, ou principalmente – preste atenção – se há um medo inconsciente de que isto de fato ocorra, o inconsciente sabe que usar este tema vai chamar nossa atenção para o sonho.
 
Ninguém trai assim do nada.
Uma traição acontece antes na alma.
O ato em si (o contato físico) apenas culmina o que já estava pronto dentro do coração.
 
Porque traímos?
Porque alguma coisa está faltando.
Não sabemos nem o que é, com certeza, mas algo está faltando – imaginamos que a falta está no outro com o qual nos relacionamos, quando na verdade a incompletude está em nós mesmos.
 
O que é traição?
No dicionário uma das definições é:
Não cumprir promessa, compromisso ou princípio.
Contratos se fazem com o outro, mas a responsabilidade do descumprimento das cláusulas tem relação com quem não foi fiel ao acordo -quando ele existe – pois nem sempre estabelecemos cláusulas claras nos contratos das nossas relações, pensamos que fidelidade, por exemplo, está implícito, mas nem sempre – e na maioria das vezes não está – e nem tampouco é igual para todos o significado de um conceito.

Usamos conceitos nos nossos princípios, valores e pensamentos para classificar objetos, pessoas  e também para economia de nosso esforço cognitivo, só que o significado de um conceito adquire na maioria das vezes um sentido muito particular, ainda mais quando se falam de emoções, sentimentos e atitudes, pois não há verdades universais, há comportamentos mais massificados, mas isto não significa que é o normal, ou o melhor.
Por isto o cuidado, nós fazemos a leitura das pessoas e do meio circundante conforme a nossa visão de mundo, nossas crenças e nossos valores pessoais.

Na psicologia fenomenológica aprendemos a colocar nossas crenças e nossos valores pessoais em *Epoché, que significa a suspensão do juízo, que é a atitude de não aceitar nem negar uma determinada  proposição ou juízo,para que a gente possa ir “as coisas em si mesmas(Husserl).
É importante esta atitude quando a gente quer compreender porque as pessoas  que convivem conosco fazem o que fazem, para não corrermos o risco de misturar o que são conteúdos psíquicos nossos com o do outro.
 
Somos singulares e o real conhecimento do outro com quem nos relacionamos vai acontecendo com o tempo.
Aos poucos vamos retirando as nossas projeções (o que eu penso e sou, projeto no outro - a paixão é cega não é? – e tudo são coincidências e sincronicidades durante este estado de apaixonamento- que ainda bem- tem data de validade para terminar.) – e na maioria das vezes o outro tem uma leitura diferente dos nossos conceitos , e quando dizemos
- Ah... mas ele (ela)me decepcionou, mudou com o tempo (claro que o tempo muda) e só agora mostrou o que é de verdade.
 
Com certeza, as situações, as contingências da vida não se mostram de uma vez só, elas vão se mostrando com o tempo de convivência, é quando uma circunstância acontece que mostramos como agimos.
 
Mas porque isto acontece na nossa vida?
 
Vamos imaginar como foi o nosso nascimento.
Estávamos quentinhos e protegidos (preste atenção nesta palavra – protegidos) -lá no útero da nossa mamãe, ela nos alimentava , nos acarinhava, éramos o centro de todas as atenções.
Vivíamos plenos.
Um verdadeiro paraíso.
Depois de nove meses- as contrações e com elas somos expelidos para o mundo, enfrentamos um canal ao nascer, que queima a 50 graus - a vagina precisa se dilatar – por isto o calor - de repente, alguém nos puxou ou escorregamos por entre as pernas da nossa mamãe em direção ao mundo externo, e já neste momento começamos a sentir frio e todas as  sensações corporais como fome e sede.
Choramos e logo alguém nos agasalha e coloca nos braços de nossa mamãe.
Ops... o primeiro reforço aconteceu...choramos e alguém nos acolheu.
Mas infelizmente nem sempre na vida vai ser assim, com certeza não vai.
Vamos espernear muitas vezes diante dos enfrentamentos da vida e não vai adiantar nada.
Ninguém vai dar atenção para nossa birra.
 
E já nos primeiros dias de vida então, começam a ser despertados dentro de nós nossas incertezas, nossos medos e nossas inseguranças.
... 
Não é assim ainda agora, quando enfrentamos situações novas na vida?
Quando entramos na primeira vez na empresa onde vamos trabalhar, ou quando somos apresentados a pessoas importantes em nossa vida?
Quando damos o primeiro beijo -lembro que eu ensaiei na adolescência toda a coreografia dos lábios beijando a palma de minha mão.
Não percorre um frio pelo corpo, não suamos frio com medo do outro não gostar do nosso cheiro, do nosso gosto, e de não sermos aceitos e amados?
Apesar de vivermos num meio interativo - o ser humano é um eterno aprendiz em matéria de relacionamentos, porque cada encontro é único e começa do marco zero.
...
 
Vamos crescendo e assimilando o meio que nos rodeia, e é a partir desta referência é que serão formados os primeiros conceitos na nossa vida.
A maneira como somos cuidados na infância, pode influir em muito na maneira em que vamos administrar estes sentimentos e emoções ao longo da vida, mas uma coisa é certa:
Eles vão nos acompanhar para sempre.
Lá no útero a nossa vidinha era a ideal.
Mas fora de lá:
 
Lamento muito, mas aqui a vida é real!

E no mundo real existem conflitos, problemas, e frustrações, que geram em nós medos e angústias.

O que fazemos então?
Procuramos no outro, no marido, na mulher, no amigo, na amiga ou no (a) amante tamponar este furo que fica aberto em nossa vida.
Só que jamais vamos encontrar, a vida não é feita de pessoas ou situações ideais.
Somos feitos do real.
O mundo é real.
Podemos fazer sempre apenas o possível  uns pelos outros, jamais o ideal, até mesmo para quem amamos com toda a verdade e profundidade de alma.

Somos humanos e temos... todos...nossos limites.
 
Então nos enganamos, usamos personas para nos fazer querer bem, agradando quem nos cerca, deixando nossas vontades de lado, muitas vezes abortamos nossos desejos, em troca de afeto, carinho, reconhecimento e elogios.
Para ser a pessoa ideal para o (s) outro (s).
Já pensou nisto?

 
E o que sobra para nós?
Medo de perder quem de alguma maneira nós sentimos que nos protege (lembra que lá no útero nos sentíamos protegidos?), e se não nos dedicarmos para a abertura de nossa consciência, minamos nossas forças, nos sentimos fragilizados e inseguros.
É aqui que começa o caminho, ou para ser traído ou para trair.
 
Nada, nada mais fere mais fundo nossa emoção, do que amarmos sem nos sentirmos amados.
A necessidade de correspondência é absoluta em nossas vidas.
Não sermos correspondidos no nosso querer, nos fere profundamente.
E todos nós, sem exceção temos uma vocação inata para o enamoramento.
Já nascemos enamorados e com ânsia de sermos correspondidos.

Está percebendo como precisamos de afetos?
Está na nossa biologia, não temos como fugir.
Necessitamos de cuidados, para sempre na vida.
Perceber que estes cuidados nem sempre se referem ao outro, antes de tudo precisamos do nosso próprio colo, do nosso amor próprio.
 
Todos nós, com maior ou menor intensidade temos medo de rejeições, elas nos desmontam, e nosso equilíbrio psíquico sofre rupturas profundas, e uma traição pode de fato marcar nossa história de vida para sempre, como um descarrilamento na rota que imaginamos na linha do nosso destino.
 
Muitas vezes até, este medo de rejeição é tão grande, que nos apegamos a pessoas (amores e amigos) problemáticos, porque a chance de rejeição é menor.
Estas são atitudes inconscientes.
 
Além do mais – preste atenção - querer que o outro (a) não nos traia é menos importante do que lhe pedir para não trair a si mesmo.
Até porque –entenda bem isto- um parceiro ou uma parceira que traísse seu próprio desejo para ficar com a gente, acabaria depois de algum tempo nos culpando por termos sido o motivo dele (a) ter-se traído.
Percebe a extensão desta contingência?
Não tem como controlar o amor e o desejo do outro por nós.

 
Então não pense que seu sonho com traição foi um aviso divino que seu (sua) namorado (a), sua mulher ou seu marido vai lhe trair não.
Já pensou que trabalheira teria uma divindade para ficar “avisando” as possíveis traições das pessoas?
Percebe como este pensamento não faz sentido?
 
Não é assim que funcionam nossos sonhos.
Não se pode nunca analisá-los nos sentido literal.
Não crie fantasmas no seu relacionamento que podem levar ao ciúme até patológico, que aí sim poderá desequilibrar e embrutecer o entendimento mútuo.
 
São atitudes, pensamentos e conceitos - nossos – não do outro- que devem ser revistos e quem sabe ressignificados.
 
Entender por exemplo que ninguém veio neste mundo para suprir as nossas necessidades e anseios.
Entender que cada um de nós está aqui para viver a nossa própria jornada e poder vivê-la com os outros é com certeza uma benção, mas jamais uma obrigação!

Percebe como julgar qualquer atitude alheia é completamente inútil?
Somos a soma das nossas experiências, da nossa biologia, e de como significamos o mundo internamente.
Por isto somos singulares.

Certo ou errado?
Bem ou mal?
Bom ou ruim?
Normal ou anormal?
Sinto muito, mas são apenas conceitos, muito cuidado com estas avaliações.
Existe sim uma ética coletiva, do respeito ao outro, existem regras de conduta para podermos viver em sociedade e em paz, mas questões de foro íntimo?
Isto só diz respeito a cada um.
   
Com certeza são comportamentos que aprendemos ao longo da vida e como esta abertura da consciência nos traz paz, vamos reforçando e percebendo que a serenidade começa a se instalar na alma, quando nos livramos deste peso da idealização do mundo e das pessoas.
 
Mas é uma decisão, uma escolha e uma aprendizagem na nossa jornada, e isto não acontece num estalar de dedos.
  
O significado de sonhos com traição quer dizer:
Fortaleça-se do que você é.
Descubra-se.
Não se traia vivendo uma vida de aparências.
Busque a sua verdade na essência da sua alma.
Amplie seus horizontes, conheça seus pontos fracos para poder fazer valer sua vida e ter o controle dela - da sua vida e não a do outro- em suas mãos
Enfrente seus medos.Conheça-os e aceite-se como um ser humano limitado.
 

E firme um contrato, um acordo consigo mesmo:
- Deixar de lado idealizações percebendo que viver a realidade da vida exige coragem e determinação.
 
 
Sonhou com traição?
Esqueça a afirmação “Devo ser”.
Lembrar sempre de que adquirimos confiança quando nos sentimos capazes de sermos amados, não pelo que fazemos, mas pelo que somos.
 
   
Ne. poesia 07.01.2011
  
 
 
Este artigo tem como constructo teórico a Psicologia de Carl Gustav Jung – Psiquiatra Suíço e fundador da Psicologia Analítica Junguiana.
O estudo sistemático dos sonhos, de seus pacientes e dos seus próprios sonhos, bem como dos conceitos Junguianos, encontram-se descritos numa extensa bibliografia deixada como herança deste grande curador de almas, como também dos seus inúmeros discípulos (Marie-Louise Von Franz, por exemplo) que nomeá-los aqui como referencias a lista seria extensa demais.
 
O livro O Homem e Seus Símbolos quem sabe seja - para mim - uma referência maior.
Nele Jung pontua que
o homem só se realiza através do conhecimento e aceitação incondicional do seu inconsciente — conhecimento este que ele busca e toma para si, através da análise dos seus sonhos.



*Epoché –conceito chave na Fenomenologia de Edmund Husserl(Filósofo Alemão e o fundador da Fenomenologia)
 

Outros textos :
(Para abrir o link, pausar o mouse sobre o título e clicar).



Perdas e Danos-Resenha (análise) Psicológica. Filme sobre Desejo. (1ª parte)
 
Sonhar com bebês e crianças- qual é o significado?

Significado de sonhos com cobra



 
 
 
 






Maria Poesia
Enviado por Maria Poesia em 07/01/2011
Reeditado em 12/01/2013
Código do texto: T2714394
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