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Os ciclos da nossa vida


     Eu já disse aqui, parafraseando poetas, que a vida vai e vem em ondas... Só que o que vai não volta, e o que volta nem sempre é a repetição daquilo que foi. O grande Fernando Pessoa é enfático ao afirmar que “tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”.

     Nessa perspectiva, é preciso saber quando uma fase de nossa vida termina e começa a seguinte. Deste modo, se insistimos em permanecer em uma etapa. Mais do que o tempo necessário, perdemos o sentido das outras coisas que ainda faltam ser vividas. É preciso encerrar ciclos, fechar portas, terminar capítulos. Não importa o nome que damos à mudança. O que importa é enviar ao passado as instâncias superadas da vida atual, que chegaram, por uma razão ou outra, a seu fim.

     Perdeu o emprego? Seu amor foi embora? Saiu da casa dos pais? A amizade acabou? Você não deve perder tempo questionando porque tudo mudou. A vida vem em ondas, e elas se alternam. As coisas podiam ser gostosas, alegres, mas o tempo transformou-as em pó. Essas mudanças podem acarretar um estresse, um desgaste imenso, e ficamos atados ao passado, mergulhados em uma angústia capaz de respingar nos outros, que nos vêem parados, chorosos, estáticos.

     A ninguém é permitido ficar no presente e no passado ao mesmo tempo. Nem mesmo quando procuramos respostas sobre as coisas que nos aconteceram. É bom sentir saudades, sim, mas é preciso encarar a vida que caminha para frente. O que passou, a despeito de nossos protestos, não voltará. Não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, ou jovens culpados e rancorosos, que insistem em travar o tempo. As coisas passam, e o melhor que podemos fazer é deixar que elas realmente possam ir embora.

     Por isso é imperioso que nossos projetos sejam transferidos para o futuro. Saudade, sim; prisão às recordações, não! É salutar dar as coisas, limpar prateleiras, desfazer-se de roupas, doar livros velhos, expurgar cacarecos da casa e do espírito. Tudo o que é visível atua como um símbolo do invisível que acolhemos em nosso coração. Desfazer-se de certas lembranças é dar espaço para que as coisas novas possam acontecer em nosso interior.

     Não se deve esperar sucesso em todas as nossas empreitadas; há vitórias e derrotas. Tem gente que reconhece e enaltece nossos méritos; outros ignoram ou até desprezam esses valores. De nada adianta a gente ligar nossa “tevê emocional” na tentativa de ver filmes “retrô”. É bom recordar o passado, sem, porém, tornar-se refém dele. Ver o passado e insistir em voltar aos sofrimentos só vai nos envenenar. Nada mais. Não há nada mais perigoso que rupturas que não são superadas, sejam elas do tipo que forem.

     O futuro é incerto; passado é memória. Só o presente é dádiva, e como tal deve ser encarado. Nossa vida é igual a um livro: antes de começar um capítulo é preciso, como um autor, terminar o anterior. Hábitos não são necessidades. Estão mais na linha dos vícios que das virtudes. Podemos viver sem eles. Encerram-se ciclos, não por medo, orgulho ou despreparo, mas porque simplesmente aquilo não se encaixa mais em nossas vidas.

     A roupinha da “primeira comunhão” não cabe mais em nós. São necessárias novas atitude e providências para o futuro. Por isso, feche a porta, mude o penteado, limpe a casa, troque a roupa, mude a cor do quarto, abra as janelas. Agindo assim, você vai deixar de ser que era, e se transformar em quem você é.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 28/10/2006
Código do texto: T275792
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão