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Vampiros e Vampirismo

Vampiros e Vampirismo

INTRODUÇÃO

Não existe, sem dúvidas, uma figura tão galante e tão poderosa quanto um vampiro. Ele povoa o imaginário das pessoas desde tempos muito antigos e permanece vivo até hoje, cada dia mais moderno, mais renovado.

Tratando da iconicidade do vampiro, originalmente ele não é um símbolo de sugador de sangue. Sua imagem nos remete a uma pessoa doente, frágil, que com o sol poderia se desfazer, tamanha sua debilidade. Esse é o conceito original do vampiro, aquele que está e é doente, de alguma forma.

Um dos primeiros mitos sobre vampiros remete a uma fábula judia. Nessa fábula é retratada a história de Lillith, que foi a primeira mulher de Adão antes de Eva. Como Lillith recusara-se a ser submissa a Adão, fora expulsa do Éden por Deus e transformada numa criatura noturna, que matava os filhos de Adão e Eva por vingança e se alimentava de sua carne e sangue.

Há diversas representações de vampiros dentro das mais diversas culturas do mundo. O Deus Mongol do Tempo, o Senhor Nepalês da Morte, o Demônio Tibetano... todos são exemplos de como a imagem do vampiro atravessou inúmeras culturas dentro do mundo. A cultura grega, com sua Lamia (uma espécie de vampiro feminino, metade cobra, metade mulher), a semelhança das sereias, assombravam o imaginário deles;

Essas crenças também levavam as pessoas a procurarem sinais de vampirismo em todo o lugar. Para os gregos, uma pessoa com cabelo vermelho e olhos azuis eram mais propensas a serem vampiras. A cultura eslava e americana coloca o vampiro como símbolo do mal e pessoas associadas a eles sempre tinham alguma “marca”.

O mito eslavo dos vampiros foi, sem dúvidas, o que mais fortemente se difundiu no mundo e, com isso, ajudou a criar nosso estereotipo do vampiro.
Esse mito surgiu do conflito existente, durante o século IX, entre o Cristianismo e o Paganismo. Com a vitória do cristianismo, os vampiros passaram então a fazer parte do folclore desses povos.

A parte mais sensual e provocante da imagem do vampiro é, sem sombra de dúvida, típica dos povos americanos e ingleses. O vampiro, em sua essência, representa a doença, o mal e a morte. Essas características não são dadas como “românticas”, como aparecem nos filmes e nos livros.

Foi exatamente com eles, com a literatura e o cinema que a imagem do vampiro ganhou o renome e a imagem que temos hoje do vampiro: um ser das trevas, maligno e sedutor.

O vampiro também representa um importante arquétipo humano. Sugando sangue, vivendo as custas da vida de outros, ele é basicamente uma representação de como nós mesmos fazemos isso diariamente.


ORIGENS DO MITO

Evidentemente que o mito não tem uma única origem. Cada povo, cada cultura possui uma associação diferenciada do mito “daqueles que sugam sangue”.

Os gregos acreditavam na lenda das Lamias. Mais tarde foram também considerados os Vrikolakas. Esses vampiros foram frutos da maldição de Zeus sobre os filhos de Licaon e um deles, Vrikolas, deu origem a uma espécie de vampiro que podia se transformar em lobo. A partir desse mito que algumas versões dos vampiros tem associação com lobisomens.

O mito mais forte para nós, sem dúvidas, é o do vampiro eslavo. O vampiro eslavo foi uma figura do folclore pagão que sobreviveu ao Cristianismo. E esse mito chegou na Romênia, pois era uma região de forte influencia eslava (e que por muito tempo foi dominada pelos povos eslavos). Adaptou-se a cultura local e adquiriu algumas nuances diferentes, que se aproximam demais do nosso arquétipo moderno. A esse tipo de vampiro dá-se o nome de Strigoi.

Os povos africanos têm, em sua cultura, o mito de seres sobrenaturais com dentes de ferro que tomavam sangue de recém-nascidos e devoravam a carne de pessoas que estivessem em seu caminho. A origem disso vem de pessoas amaldiçoadas a vagar pela terra como monstros.

Nas regiões Bálcãs há também um mito muito forte acerca dos vampiros. Lá eles eram retratados como mulheres muito velhas, raramente homens eram considerados vampiros, por questão de estamento social. Isso era tão forte que os eremitas e os sem-teto eram vistos como vampiros na Europa medieval.

Analisando os mitos do vampiro, isso nos leva a crer que todos eles se originaram no Oriente. Com o comércio da rota da seda e de outras mercadorias, os viajantes passavam por diversas regiões e iam espalhando a história através da Europa, o que explica como que todos os mitos sobre os vampiros seja, de certo modo, parecidos.

A Igreja Católica tem muitas versões diferentes desse mito. Depois que ela se subdividiu em 1054, cada uma das igrejas adotou uma visão frente a esse mito. A Igreja Romana acreditava que os corpos incorruptos eram de santos, enquanto e a Igreja Ortodoxa via esses mesmos corpos como incidências de vampiros.

Temos também a literatura como fonte do nosso arquétipo de vampiros. Os escritores ultra-românticos ajudaram demais a definir o vampiro como um ser noturno e sedutor, com toques de conquistador e de uma malignidade tremenda. Isso também ajudou a definir coisas que mais tarde seriam usadas no cinema. O conto “Carmila”, do escritor irlandês Sheridam Le Fanu juntou ao mito do vampiro a estética gótica que conhecemos hoje.
A historia gira em torno de uma vampira que desenvolve uma longa ligação com uma vítima do sexo feminino. Insinuações eróticas nesse estranho e sinistro vínculo entre vampira e vítima ecoam ao longo de toda a história.


TRAÇANDO UM PARALELO: CATOLICISMO E VAMPIROS

A religião católica, analisando friamente, é uma coleção de mitos de outros povos. E dentro da religião católica há algumas coisas semelhantes aos conceitos do vampirismo, acompanhem o seguinte raciocínio.

Na tradição católica come-se do pão, que simboliza a carne, e bebe-se do vinho, simbolizando o sangue. Ambos seriam representações de Cristo, e comendo a ambos, teríamos assim uma vida eterna ao lado de Deus.

Dentro do nosso conceito moderno de vampiro (e somente dentro dele) há uma certa semelhança. As lendas originais tratam os vampiros como algo pouco diferente de um canibal, não tendo, inclusive, a vida eterna.


O MITO DE DRÁCULA

Drácula foi, sem dúvida, a figura que ajudou a colocar o mito do vampiro no seu patamar mais alto.

Vlad Tepes foi um cruel rei que governou a região hoje conhecida como Romênia. Ele era um cristão convicto, que ajudou a proteger a região contra os mouros. Ele tinha como costume empalar seus inimigos e tomar seu sangue com pão.

Evidentemente que isso era mal visto pela sociedade da época. Como a lenda dos Strigoi era forte no imaginário do povo, havia uma imagem muito negativizada de Vlad e durante muito tempo suas histórias eram motivos de as pessoas tremerem de medo.

BRAM STOCKER, durante o período vitoriano, resolveu explorar esse mito em sua mais famosa obra, “Drácula”. Os escritores vitorianos exploraram demais a literatura de horror e iam a mitos de outros povos buscar inspiração para seus livros.

Bram Stocker deu a cara ao Drácula como conhecemos hoje. A imagem do vampiro forte, dominador, galante, poderoso, veio exatamente com a retratação desse escritor inglês. Essa imagem perdurou durante muito tempo e foi exaustivamente explorada pelo cinema.

O VAMPIRO MODERNO

O nosso conceito de vampiro moderno veio de duas fontes.

A primeira, sem dúvidas, foi o cinema. O cinema nos ajudou na crer que vampiros temem alho, cruz e água benta, conceitos então somente dados pela mitologia católica. Depois viram os poderes, os aspectos e cada roteirista via o vampiro de uma forma diferenciada dos demais, o que gerou uma salada muito grande.

O segundo ponto veio com a escritora Anna Rice. Com ela veio a questão: “E se os vampiros fossem como nós?” “E se eles tivessem um aspecto comum, ao invés de fantástico?”.

Esses conceitos ficaram tão conhecidos que seu primeiro livro, “Interview with Vampire”, vende até hoje. A nossa tradução foi feita por Clarice Lispector, um dos nossos maiores nomes dentro da literatura nacional. O filme é uma retratação muito superficial das questões colocadas no livro, até mesmo por conta de o livro conter um teor bem mais adulto.

Anne Rice contribuiu nos seus livros não somente com a questão do mito, mas por abordar temas como homossexualismo, pedofilia, sadismo e também por colocar um pouco do universo da subcultura gótica, que era tão estranha ao “homem normal” da sociedade.

Mais tarde Mark Hein Hagen, frente à editora White Wolf, escreveu o rpg “Vampire the Masquerade”. Esse livro, com forte influência da literatura de Anne Rice, ajudou ainda mais a fixar nosso conceito de vampiro moderno. E ainda tornou mais forte a ligação deles com a subcultura gótica, colocando também elementos da cultura punk.


VAMPIROS CINEMATOGRÁFICOS

Claro, o cinema não podia deixar de aproveitar-se desse mito. Diversos filmes ajudaram a dar uma cara aos vampiros, renovando constantemente o mito. Mas nenhum foi mais significante que o “Drácula”, estrelado por Bela Lugosi.

Bela Lugosi foi um ator que, durante muitos anos, fez filmes de terror. Ele viveu o auge do cinema de terror e também viu a decadência do mesmo. Quando Bela Lugosi morreu pobre, foi enterrado com a roupa de Drácula do seu primeiro filme e, anos mais tarde, gozaria de uma popularidade entre os mais jovens, quando o cinema de terror voltou a ter seu auge. A música “Bela Lugosi is Dead”, do grupo Bauhaus, é uma homenagem a esse mestre.

Temos também os filmes com Cristopher Lee. Ele encarnou muito bem o conde Drácula, mais ou menos como retratado nas lendas e no livro de Bram Stocker.

Modernamente tivemos “Entrevista com Vampiro”, uma adaptação da obra de Anne Rice. Essa adaptação surgiu no auge dos anos 90 onde o tema era abordado com muita freqüência e todos queriam fazer e falar sobre vampiros. Depois disso tivemos coisas como “Blade”, “Um drink no Inferno”, “Buffy” e outros, cada um dando mais um toque diferente ao mito, tornando-o uma salada de referências, que não podem ser dadas como “certas” ou “erradas”.

MÚSICA

Evidentemente que até mesmo a música moderna tem feito referência a esse mito, sobretudo as bandas de rock.

Temos Alice Cooper, Cradle of Filth, Inkkubus Sukkubus, Ikon, Bauhaus, Moonspell etc, bandas que em certas músicas usam dessa temática.

Tem dois exemplos que gostaria de colocar aqui.

A banda italiana THEATRES DES VAMPIRES dedicou todas as suas músicas a falar sobre vampiros. Com forte influencia de Anne Rice, a banda fazia um black metal bem tosco e aos poucos foi dando uma cara mais gótica ao som, além de se valer de sons sintetizados para criar uma atmosfera mais com a cara de filmes de vampiros.

O grupo alemão BLUTENGEL também dedica as suas músicas a essa temática. São um grupo de EBM (Eletronic Body Music; uma variação da música eletrônica) cujas letras e cds sempre remontam ao mito do vampiro. O nome, em alemão, significa “ANJO DE SANGUE”, o que casa direitinho com a banda.

VAMPIROS AO REDOR DO MUNDO

Agora vamos ver como que algumas culturas tratam e denominam seus vampiros.

HAUBUI – Um tipo de vampiro norueguês, que habitaria uma espécie de catacumbas. Um corpo morto-vivo que estava sempre perto do local onde foi enterrado, atacando qualquer pessoa que atravessasse esse lugar.

DRAUGER - O vampiro mais famoso dentro da mitologia norueguesa. Eles se originariam nas catacumbas (como os HAUBUI) ou seria mortos que não conseguiam descansar em paz. Eram conhecidos como Aptrgangr (aquele que caminha depois de morto) e eram retratados em muitas sagas nórdicas.
Seu tipo físico era enorme, com extrema força física. Possuía poderes mágicos de adivinhação do futuro, controle do clima e mudança de forma, podendo se mover pela terra e atravessar a rocha.
Para matar um Drauger era preciso vencê-lo num combate mano a mano, e vencer usando somente os punhos. Depois disso a cabeça do vampiro deveria ser decapitada com uma espada e os restos incinerados. Esses restos deveria ser levados para um local distante ou atirados ao mar.

VRYKOLAKAS – São o tipo de vampiro mais comum da mitologia grega. Ele teria nascido de uma maldição imposta aos filhos de Licaon. E dentro desse tipo, há dois tipos de Vrykolakas: um que nasce dos mortos, parecido com o que conhecemos; e outro que vem de um estado de sonambulismo.

KATHAKANO – Um vampiro que habitava a ilha de Creta. Ele é igual ao que conhecemos, com a diferença que somente poderia ser morto se sua cabeça fosse cortada e fervida em vinagre. Ele era descrito como uma criatura enorme, com dentes muito brancos e espirrava sangue em seus inimigos, que produzia nelas queimaduras horríveis.

LAMIA – Fazem parte do folclore romano e grego. Eram sempre mulheres, com a parte inferior de animal. Devoravam a carne e bebiam o sangue de seus inimigos.
As lamias nasceram de uma relação que Zeus teve com a rainha da Líbia. Hera, insatisfeita com isso, matou todas as crianças nascidas dessa relação. Depois disso resolveu fazer vingança, matando qualquer homem que tentasse fazer relações sexuais com ela. Nessas relações nasceram crianças com poderes mágicos, as Lamias, que possuíam a metade superior de uma mulher lindíssima e a metade inferior de serpente. Elas usavam suas belas vozes para enfeitiçar homens e crianças, para então os devorar.

BRUCOLACO – Um tipo de vampiro grego. É descrito como uma criatura com pele dura e tensa. Ele pode, uma vez por noite, emitir um grito, que mata quem responder, espalhando uma doença muito forte. Ele é criado quando uma pessoa é excomungada pela igreja. A melhor forma de evitar isso é não respondendo ao grito, esperando que ele o emita pela segunda vez. Os Brucolacos também nasciam de pessoas que entravam em catalepsia, cujas almas tornavam-se lobos famintos por carne e sangue.

EMPUSA – Um outro tipo de vampiro grego, era uma cria de Hades para atender aos desígnios de Hecate.

UPIR – Um tipo de vampiro russo, que atacava crianças e seus parentes, posteriormente. Esse tipo de vampiro era bem humano, em termos de aparência e dormia de noite e atacava de dia.

MYERTOVJEC – O tipo de vampiro mais famoso das lendas russas, que tinha um rosto púrpura e saia para caçar da meia-noite até o galo cantar. Era um tipo de vampiro que nascia da contaminação com um lobisomem ou pelo feitiço de uma bruxa.

STRIGOI – É o nosso arquétipo de vampiro. Ele vem da região conhecida hoje como Romênia. Eles nasceram de uma maldição dada a bruxa Styx, e todas as crias dela carregariam essa maldição. Uma outra versão colocava que, caso fossem o sétimo filho do sétimo filho, ele seria, por natureza, um vampiro. Drácula pertenceria a esse tipo de vampiro, assim como Elizabeth Bathòry.

NOSFERATU - O tipo mais conhecido de vampiro romeno. Ele nasce sendo o filho ilegítimo de parentes ilegítimos (algo meio como um filho nascido de primos, sabe). Ele se deleitava em destruir a tudo, além de participar de orgias com os vivos.


O VAMPIRO PSIQUICO

Como último vampiro, temos o vampiro psíquico ou psyvamp.

Esse vampiro é uma lenda moderna, com fortes traços calcados na psicologia. Na psicologia existe o vampirismo, que é quando uma pessoa somente consegue viver parasitando em outra, obrigando-a a fazer coisas para ela.

Um vampiro psíquico não foge muito disso. Ele se aproveita das energias dos outros, deixando-os mais fracos. Ele sempre irá querer se aproveitar de pessoas, tornando-as mais fracas e sugando-lhes tudo de bom. E sempre deixará a pessoa com uma sensação de fadiga e cansaço

Essa lenda ganhou muita força dentro da cena gótica, devido ao contato dessas pessoas com histórias e lendas, aliados ao ocultismo. E existem diversos sites no mundo dedicados a esse tipo de vampirismo, muitos deles em inglês.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 29/10/2006
Código do texto: T276763

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Sobre o autor
Fabio Melo
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