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Risco de pasteurização da escrita

 
Começo este artigo pensando nos livros que foram sugeridos para leitura no vestibular do início de 1958. Na época, não existia cursinho pré-vestibular em Sorocaba e tive que contratar dois professores particulares, um para Matemática e outro para Português. Tive aulas particulares com o saudoso professor João Tortello, pai do poeta Paulo Tortello, falecido em 2000.
 
Naquela época, conheci o menino Paulo Tortello que, em julho de 1957, estava com cinco anos de idade, era muito ativo e com uma forte personalidade (hoje, dizem 'atitude').
 
Dos livros selecionados para a prova escrita e oral de Português, de 1958, acredito uns 20% até hoje são solicitados nos principais vestibulares do país. Isso nos faz pensar que os livros que são indicados para serem lidos e estudados, nos últimos 50 anos, já estão em nosso sangue e nos influenciaram sobre o método de escrever. E que quase não há renovação.
 
Porém, poucos novos autores passaram a fazer parte desse seleto grupo de escritores clássicos, pois o mercado editorial brasileiro, além de seletivo, é conservador. Com isso, não resta outra saída para os novos escritores, senão caminho das chamadas “Antologias”, que se tornaram uma trincheira para quem escreve e deseja torna pública a sua obra.
 
Então, não podemos nunca nos esquecer de que o escritor que participa de antologias é, normalmente, um iniciante na carreira das letras e que as coletâneas representam, na verdade, suas tribunas para colocar seus pontos de vista sem nenhum tipo censura, e, normalmente, a revisão é feita pelo próprio interessado em levar o que pensa para o maior número de leitores.
 
Para os que lêem
 
Dessa forma, os leitores devem entender que não estão diante de um autor consagrado, mas um escritor em fase de maturação, portanto, não estarão lendo uma obra que sofreu, de alguma forma, algum tipo de influência de sucessos anteriores ou que seja motivado a repetir a fórmula para não correr o risco de um possível fracasso de ordem financeira, depois de um ou mais livros bem-sucedidos.
Chamo isso de pasteurização do texto ou, seja, a contínua repetição de mecanismos lingüísticos com o único propósito de vender, como fazem alguns autores consagrados pela mídia contemporânea.
 
Como exemplo desse mecanismo, temos o famoso “Senhor dos Anéis”, cuja fórmula sustenta-se na repetição de um estilo; com isso, as pessoas estão sempre lendo a mesma forma de narrativa que fez sucesso e os editores não podem brincar com as regras do mundo capitalista. Conseqüentemente, o escritor fica refém das rígidas regras do mercado editorial que busca o sucesso e não o talento, uma vez que a maioria dos leitores compra, na verdade, por puro modismo, muitos são levados pela correnteza da propaganda, em decorrência do sucesso anteriormente alcançado.
 
Livros novos de autores sorocabanos como “Das Gavetas” ou “Dançando Conforme a Vida”, de Neusa Padovani Martins, lançados durante a 2ª Semana do Escritor Sorocabano, oferecem aos leitores uma visão diferenciada e muita criatividade da nossa realidade, principalmente o “Dançando”, que são textos que a autora escreveu no decorrer de sua existência.
 
Por isso, alguns deles fazem menção a um fato ou episódio particularmente especial em sua vida. Longe de ser um livro autobiográfico, é antes uma obra que fala das coisas simples e marcantes na vida de qualquer um de nós.
 
Para isso, a autora usou de uma linguagem que vem cheia de rimas suaves que dão leveza e fluidez ao texto. Mãe, pai, sobrinhos ou situações kafkianas, todo mundo tem na vida, porém, a forma de se retratar cada um deles é que acaba por fazer toda a diferença.
 
Quando Neusa conta a situação que viveu ao ficar presa no quintal de sua própria casa e ser salva por bombeiros, o leitor pode pensar no quanto corajosa foi a autora em expor o ridículo pelo qual passou. É exatamente neste ponto que a autora demonstra que as pessoas precisam aprender a rir de si próprias, procurando o encantamento do viver e ser feliz, dentro de sua própria vida, e não fora delas.
 
Este livro vem também quebrar um paradigma antigo que diz que um livro deve ter um único lado para começar. O “Dançando” tem dois começos com um tema específico para cada um deles. É um livro para ser lido, virado ao contrário e lido novamente, algo inovador dentro do universo das edições.
 
Assim, caro leitor, permita-me voltar a falar do poeta e professor Paulo Tortello, que foi homenageado  pelo professor e um dos autores do livro “Das Gavetas”, o poeta e revisor de livros João Alvarenga, também antigo colaborador do “Fanletras”. A homenagem vem em boa hora, pois Paulo Tortello foi o criador do projeto “Poesia em Debate” que existe há mais de uma década, sendo uma bandeira de resistência da poesia em nossa cidade.
 
O “Das Gavetas” é inspirado no fanzine “FanLetras”, editado pelos autores nos anos 90, que tinha a função de veicular a produção de textos literários que não despertavam o interesse das grandes editoras.
 
Assim, leitor, pense e tire suas conclusões. Se esse grupo de jovens autores não tivesse a coragem de partir para a produção independente de tal livro, será que a cidade saberia que eles são cronistas e que têm textos que vão do irônico ao melancólico? Assim, iniciativas como essas associadas às antologias são soluções criativas para divulgar os nossos talentos e tirar a literatura da mesmice.
 
Logo, procure e, sempre que possível, ler autores novos. Eles são muitos e ainda não estão contaminados pela fórmula do sucesso fácil, divulgam o que escreve com dificuldade, tentando quebrar paradigmas da arte pronta, pois estão na fase inicial de sua produção e não sabemos se, depois do sucesso alcançado, poderão ter a liberdade deste momento ou se terão que escrever como mandam os editores que vislumbram apenas mais um novo sucesso de vendas.
 
Douglas Lara, idealizador da Semana do Escritor de Sorocaba
 
Coletânea recebe inscrições de autores
http://www.jcsol.com.br/2006/09/21/21B304.php

Acontece em Sorocaba
Douglas Lara (15) 3227-2305
http://www.sorocaba.com.br/acontece
Douglas Lara
Enviado por Douglas Lara em 30/10/2006
Código do texto: T277258
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Sobre o autor
Douglas Lara
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 78 anos
517 textos (131779 leituras)
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