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Pensando ao contrário - Reflexões sobre a educação publica

Recentemente participei de um debate com um grupo de amigos onde diversos temas sociais e políticos foram levantados e analisados. Entre eles estava a educação pública brasileira.

Como era de se esperar, o sistema foi bombardeado de argumentos totalmente justificáveis. Convenhamos que atacar verbalmente o sistema de educação nacional nem se constitui um desafio. O descaso para com os alunos, material e edifícios precários, má qualidade de muitos mestres e demais problemas saltam aos olhos. Políticos em campanha são os únicos seres capazes de encontrar lados positivos no sistema. Todos sabem disso.

Portanto, esse tema estava convergindo para um ponto de aceitação comum, sendo ele totalmente negativo. Entretanto, uma idéia veio a mim enquanto pensava sobre tudo isso. De repente vi a questão por outro ponto de vista, tão inverso que mudou minha conclusão inicial sobre o assunto.

A qualidade do ensino está ruim? Sim, é claro! Mas de certa forma está em um nível apropriado, em muitos casos! É isso mesmo, acabei de afirmar que para muitos jovens, o atual nível de instrução está satisfatório!
Não, eu não fui para uma realidade ilusória. Meu novo ponto de vista mudou o foco do problema. Tirou do sistema, do governo. E para onde foi o tal foco? PARA AS FAMÍLIAS!

O raciocínio é bem simples: Se uma pessoa estiver carregando um fardo de 10 quilos e estiver à beira do colapso, já não agüentando mais, faz algum mínimo sentido esperar que ela dobre o valor de sua carga? Que pegue outros 10 quilos? Há alguma razoabilidade nisso? Respostas óbvias.

Então aplicando em nossa realidade educacional o exemplo fica assim: A grande maioria dos jovens simplesmente NÃO acompanha nem mesmo o nível atual! Sim, o ensino é fraco, não é suficiente para enfrentar os desafios da vida profissional e universitária de modo algum. Mas o fato é que muitos nem acompanham esse conteúdo básico.

Em inglês passa-se do primeiro ao terceiro ano do ensino médio estudando o verbo To Be e palavras cognatas, e mesmo assim há quem saia sem entender! Muitos não são capazes de realizar uma leitura em voz alta ou fazer operações matemáticas primárias, e essas coisas são repetidas ano após ano mesmo pelo pior professor, até pelos substitutos. Tendo isso em vista, torna-se sem sentido reclamar da falta de qualidade. Se os jovens não estão suportando a carga atual, leve, onde está a razoabilidade em desejar que o peso seja aumentado? Se realmente estivesse baixo demais o nível, era de se esperar que fosse ridiculamente fácil compreender e dominar o conteúdo. E, no entanto, em grande parte dos casos a situação é oposta.

E onde está a raiz do problema? Mencionei no começo e agora vou frisar: NA FAMILIA.

Por que tantos jovens vão para a escola publica, são confrontados com um conteúdo vergonhosamente básico, contendo o mínimo conhecimento possível, e ainda assim se saem mal nesse desafio tão simples? Por serem burros, inferiores intelectualmente?! Nada disso! Simplesmente por não estarem motivados. E não estão motivados porque o ambiente familiar dos mesmos geralmente não treinou a criança ou adolescente para ver aquele estudo como algo importante e necessário.

Acho deveras hilário ouvir pais e mães protestando contra a má qualidade do ensino. Realmente querem que se ensine inglês de verdade, para sair falando fluentemente, e talvez também espanhol, italiano, alemão e física quântica, ou então filosofia profunda para jovens que sequer aprendem direito a equação do primeiro grau, verbo To Be e nem sabem ler em voz alta com um mínimo de habilidade? Que coloque carga de estudos integral para aqueles que mal suportam umas poucas horas sem resmungo e revolta? Risível, no mínimo!

Claro que os pais falam quase sempre que estudar é importante, usam o velho jargão de que é necessário para “ser alguém na vida”, e sonham com filhos advogados, médicos, empresários, mas não passa das palavras. Sabemos muito bem hoje em dia que para crianças o exemplo é que educa, e não o que é declarado verbalmente. E quanto mais nova ela for, mais se aplica esse princípio. E qual é o exemplo que esses futuros estudantes recebem desde sempre?

Agora estamos entrando problemas culturais, coisas que considero como falhas de caráter da cultura popular. O triste fato é que muitas dessas crianças com baixo rendimento nunca vêem os pais valorizando a intelectualidade. Não os vêem lendo livros, não os ganham de presente. No máximo observam o pai lendo jornal, e em muitos casos somente cadernos de autos e de esporte.

A tendência é que inicialmente valorizem o que os pais valorizam, adotem seus valores. Afinal, dependem daquele adulto para sobreviver, e como parece que ele está dando conta, automaticamente o subconsciente assume que são satisfatórios, exemplares. E o que vêem como objeto de interesse? Futebol, carros, novelas... Noção de recreação sempre é somente assistir TV, ou quase... Livros e outros artigos desenvolvedores da mente são raros ou inexistentes.

Com isso, os meninos crescem tento por objetivo de vida ser jogador de futebol, esperando se divertir e ainda ficar ricos ainda jovens. E as meninas, influenciadas pelas medíocres novelas, esperam ficarem as mais belas possíveis para se divertirem e arranjarem que as sustente e dê luxo (que no caso pode ser o jovem que acha que será um jogador famoso).

E ainda há aquele caso extremamente comum em que os pais são fissurados em loterias, tele-sena, jogos de sorte/azar em geral.
Crescem também respirando o sonho de enriquecer da noite para o dia, sem qualquer esforço, por pura sorte.

Os jovens são encaixados em estereótipos culturais onde o saber, a intelectualidade, não são de modo algum prioritários, e muitas vezes nem mesmo constam no paradigma.

E isso é confirmado e reconfirmado ao longo da adolescência, onde a família não inibe interesses recreativos totalmente venenosos para o cérebro, como pseudo-musica funk, ou deixam que sejam intoxicados pelos hinos de happers internacionais, cuja ÚNICA mensagem passada em suas letras é “eu sou rico porque apareço na TV, e por isso tenho todas as gostosas que desejo, carros e casas, e você é um lixo se não ficar igual a mim”. Ou então tentando tornarem-se chamativos para um dia irem parar em algum Big Brother Brasil e enriquecerem... E se nem coibir isso a família faz, muito menos ela é capaz de preencher o espaço com algo construtivo. Os jovens permanecem cativos desse vício popular que fixa como objetivo a riqueza rápida e fácil servindo-se da beleza ou do mundo dos esportes. E logicamente sem espaço para o crescimento intelectual.

Sendo assim, é de se espantar que as crianças saiam-se mal nos estudos? Quando não há professor, elas ficam felizes! Vão poder ficar jogando bola ou desenvolvendo namoricos. Se elas ficassem desconsoladas com a falta de professor por desejarem conhecimento, ai sim haveria base para os pais reclamarem da falta do mestre!

Claro que ficar sentando copiando, ouvindo, pensando, não é tão divertido para quase todas as pessoas quanto namorar, praticar esportes. Mas quando a pessoa tem uma boa noção de valores, de importância, também não é aquele sacrifício insuportável. Ainda mais no caso de crianças, naturalmente curiosas.

Eu fui criado em uma religião em que se estuda muito, tanto a Bíblia como referências históricas relativas a ela. Hoje não sigo mais essa fé - ou qualquer outra - mas ainda assim acho que foi uma boa base. Mas enfim, o que quero mostrar é que eu via por lá a diferença que faz quando os estudos (seja qual for, no caso do exemplo estudos religiosos) são valorizados. As crianças aprendem desde cedo que é algo importante e ficam curiosas! Fazem perguntas e querem mostrar aos outros o que aprendem.


Se nos lares de todas as famílias a educação escolar fosse igualmente valorizada, se livros fossem um presente considerado muito bom pelas crianças, algo pelo qual ansiassem, se os pais lessem histórias para elas ao invés de somente levarem para ver filmes e jogos de futebol, novelas e reality shows, tenho certeza que iriam para a escola curiosas e dariam trabalho aos professores! Eu sei que eu dava, quando criança, e tudo graças ao fato de que a importância do conhecimento foi gravada em meu subconsciente.

Enfim, não estou defendendo o vergonhoso descaso governamental. Sei que a situação é humilhante e não só nessa área. Considero mesmo um enorme absurdo profissões fundamentais serem muito pior pagas do que outras meramente nominais. Um professor ter menos dinheiro que um mero assessor de gabinete de políticos de auto-escalão é um fato sem cabimento, para mim.  Na realidade, acredito que há três profissões que deveriam ser pagas regiamente: professores, policiais e médicos do sistema publico de saúde. Essas pessoas deviam ocupar o mais alto escalão da folha de pagamento do governo, pois policiais e médicos são os guardiões do presente, ao passo que os professores são os construtores do futuro.

Isso sem mencionar nossa carga tributária. Nós já pagamos bem caro ao governo por serviços de qualidade. Pagamos imposto de renda, de autos e imóveis, pagamos imposto embutido em cada produto e serviço que adquirimos e temos ainda mais descontos em nossos holerites se formos funcionários, ou mais todo um conjunto de tributação, se formos empresários ou autônomos.

Mas novamente voltamos ao problema familiar: Não adianta nada cobrar maior qualidade de ensino e mandar para as escolas crianças já moldadas para não dar valor e compreenderem bem mesmo o nível atual.

E esse desinteresse semeando na própria família fica confirmado pelo fato de que não atinge somente a classe pobre. Encontramos freqüentemente alunos desmotivados em escolas particulares, faltando às aulas e não rendendo. Não foram ambientados para valorizar o crescimento intelectual.

E ainda vou além ao jogar a responsabilidade sob os ombros das famílias e dos vícios culturais. Se os pais tomarem iniciativas simples, começando por terem somente o numero de filhos que podem sustentar e dar atenção e por eles próprios se interessarem em educação, lerem e assistirem coisas construtivas toda a melhoria educacional e cultural será praticamente automática – não há como causar o exemplo desejado interessando-se artificialmente. Na realidade, se os pais mesmo se interessarem não será esforço algum influenciar os filhos, porque vão sentir prazer em ler histórias para eles e em realizar demais atividades educativas em geral. E será um agradabilíssimo tempo de carinho e crescimento em família!

Com isso enviarão seus jovens para as escolas munidos de interesse pelo conhecimento. O futuro ganhará melhores chances. Aquelas situações ruins e desiguais citadas existem porque a sociedade politicamente ignorante e desinteressada permite, e isso é um subproduto da combinação de um sistema falho de ensino, no exemplo familiar deficiente e nos valores culturais vulgares. Criando um bom exemplo na família será possível criar uma nova geração mais culta, interessada. E quando chegar a vez dessa nova geração ter a sua própria, a tendência é que seja cada vez mais natural repassar bons hábitos intelectuais.

Aos poucos, essas novas gerações chegarão ao poder no país, tanto porque os políticos atuais irão se aposentar ou falecer, quanto porque a nova terá um conhecimento político melhor e mais intenso, e antes mesmo do tempo expulsar a “velha guarda” eles já estarão lá, brigando por seu espaço. E se forem pessoas acostumadas desde o berço à importância do saber, é de se esperar que melhorem as condições do sistema educacional. E ao mesmo tempo, o sistema melhorado não será uma sobrecarga para essas novas gerações de crianças mais "amigas do saber". Se hoje o nível de ensino fosse drasticamente elevado, não seria compatível com o preparo dos estudantes, mas essa hipotética nova geração acompanharia sem problemas, na verdade provavelmente com prazer.

Portanto, a conclusão é que a raiz do problema mesmo está nos lares que abraçam os valores falhos da doentia cultura popular sem questionar. Não mudam hábitos contraproducentes. E a boa notícia é que a solução desse problema está ao alcance, não depende do governo ou de outro fator fora de nosso controle: depende somente de cada pai e mãe, especialmente dos que ainda serão.
Basta que primeiro elevem a si próprios - algo que pode se mostrar uma fonte de grande prazer - bem como tenham uma família proporcional às suas condições, e depois inculquem bons hábitos educacionais em seus filhos. Ou talvez seja até redundante essa ultima parte, porque se os pais tiverem esses bons hábitos a transmissão será praticamente automática.
Certamente é uma missão muito mais simples do que tentar limpar a corrupção política, para que eles resolvam melhoras às coisas. É muito mais fácil, além de eficaz, realizar o serviço internamente.

Pode ter seus desafios e dificuldades essa demanda – mudança de hábitos não são fáceis – e os efeitos inicialmente podem ser quase invisíveis, mas irá aos poucos emergir com força suficiente para transformar a própria cultura de todo um povo, uma cura para a doença de caráter de que nossa cultura padece!
Henrique Morgante
Enviado por Henrique Morgante em 17/02/2011
Reeditado em 17/12/2011
Código do texto: T2798823

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Sobre o autor
Henrique Morgante
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