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UM MUNDO DE PAZ

"Lá vem esta visionária falar de utopias!..." - talvez alguns pensem...Porque, como livre e sem fim é o entendimento humano a respeito de tudo, já houve quem dissesse que o conceito de paz assim como o concebemos é absurdo. Não sei se é mesmo...

Faz uns dez anos, estive duas vezes em Fernando de Noronha. É um retalho de céu na Terra. Jóia preciosa em todos os sentidos possíveis, que ficou incrustada em meu coração como uma das mais doces recordações da minha vida. E, ante tantas coisas que me tomaram de fundo encanto - as paisagens de magia indescritível, o tom de azul inédito das águas transparentes e mornas mesmo em pleno mar alto, as matas recortadas por trilhas convidativas, as montanhas, a luz, de outro mundo, estranha, única, presente naquele lugar...entre todas estas maravilhas, houve outra coisa que me impressionou talvez que na mesma medida: a reação da rica fauna de Fernando de Noronha com o contato humano!

Refiro-me, mais especificamente, às aves! Fernando de Noronha é forrada de atobás. Atobá é uma ave de porte médio e branquinha, meio desengonçada na aparência...em todo o Nordeste as encontramos com facilidade. Mas em Fernando de Noronha com uma peculiaridade: para nosso assombro, não temem o ser humano, como acontece nas grandes cidades com aves citadinas como pombos, beija-flores e outras...

Em visita a uma das muitas daquelas praias paradisíacas pude constatar, encantada. Caminhava a passeio pelas areias com um, na época, namorado, e me detive ao avistar um atobá sobre uma pedra próxima. O meu acompanhante me preveniu de que eu podia chegar mais perto, rindo-se da minha cautela em acercar-me demasiadamente da ave que, de cima da pedra, até então, limitara-se a olhar-me placidamente, como se também ela observando-me com curiosidade.

Aceitei a sugestão e avancei mais. E mais ainda...até ficar lado a lado com o atobá que permaneceu tão imóvel como antes, olhando-me também...Sem alçar vôo para longe, assustadiça, sem fugir, sem nem ao menos se deslocar defensivamente pela pedra me evitando.

Enquanto eu permanecia admirando o animal, e notando meu encantamento, Hernani, este meu namorado de então, rindo-se, comentou, como se já acostumado a este tipo de reação de visitantes: "Aqui ninguém ameaça os animais. Eles não nos temem, ninguém vai fazer mal a eles"...

De fato, em Fernando de Noronha, por conta da lei de proteção ambiental, nem mesmo uma mísera concha podemos tirar da areia, como muitos costumam fazer inconseqüentemente no intuito de guardar lembranças, sem tomar uma advertência do guia acompanhante ou eventual morador da ilha. Todos, sem exceções, são conscientes da conduta adequada à manutenção do equilíbrio ecológico no lugar - e repreendem, sem rodeios, os turistas mal-educados...

Mas, voltando ao atobá, pude observar, durante a minha estadia, que não apenas estas aves assim se comportam em todo o grande perímetro da ilha. Há, por exemplo, também uma fartura de bodes espalhados para todo lado...que, engraçados, também se mantém imóveis diante dos visitantes, encarando-nos de um jeito solene, como se meio estupefatos com a nossa aparência. Passamos por eles, e, se nos voltamos bem mais a frente para olhá-los lá atrás, notamos que continuam nos olhando fixamente de longe!...

Toda esta digressão é para sugerir a reflexão no sentido de que em algum momento triste do passado não só os animais, mas o próprio homem, passou a reagir como assim a fauna reage diante da ameaça predatória humana. N'algum instante crítico o ser humano entendeu, irreversivelmente, tratar-se a nossa espécie talvez que da que mais evoca a sensação do perigo, a conduta traiçoeira, a tendência selvagem de extermínio a troco de nada, a pretexto de ódio, intolerância e falta de condições íntimas para conviver com diferenças - como se estas diferenças individuais fossem não algo inerente à toda manifestação de vida, mas alegação válida para todo o tipo de pretensa expressão de uma superioridade absurda, que autoriza a opressão e a destruição pura e simples do próximo, devido a este próximo não se portar de acordo com os nossos muito questionáveis conceitos do que sejam regras e padrões de convívio entre pessoas, países, e civilizações...

N'alguma época já muitíssimo distante no tempo, deveria haver confiança e ausência de medo entre os seres humanos. N'algum mundo agora difícil de se conceber, pessoas de procedências e de diretrizes de conduta opostas devem ter sabido se aproximar sem se temerem, em digna atitude de contemplação e de receptividade para entender o outro, e o seu outro modo diverso de ver e de viver...

Fico imaginando se ainda seremos capazes, no futuro, de, neste sentido, aprender com esta lição sutil que nos é oferecida pelos animais.

Animais que não são agredidos e desrespeitados não nos temem - não temem o homem! Gentis e ternos, apenas nos observam, mergulhando-nos em indescritível aura de paz!

Talvez que n'algum dia, em não mais agredindo-nos uns aos outros, num padrão de conduta inferior mesmo ao dos animais ferozes - que, se matam, é por sobrevivência, não por orgulho ou por arrogância -, ainda venhamos a ter o tal mundo de paz!


Com amor,








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Christina Nunes
Enviado por Christina Nunes em 03/11/2006
Código do texto: T281437
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Sobre a autora
Christina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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