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SOCIEDADE QUE SE MATA

CRIMES HEDIONDOS, VINGANÇAS MORTÍFERAS.

Este artigo não é fundamentado em estudo científico sistemático, mas em observações do cotidiano. É aceito que não se pode efetuar estudo científico do comportamento humano, dado ao fato de as reações dos indivíduos não serem previsíveis como as reações dos elementos químicos e físicos, pois as respostas humanas baseiam-se na forma como cada um observa e avalia a situação, bem como os elementos que a compõe, baseado tudo em experiência pessoal e cultura individual, além da importância que cada um dá a cada evento. Sendo assim, quanto menos variada a experiência e cultura do indivíduo, menor será sua capacidade de avaliar aos elementos, então sua resposta se parecerá muito mais com a de outros indivíduos.
A experimentação científica requer a formulação de uma miniatura do que se pretende provar, que reagirá conforme a ação e reação dos elementos que a compõe, produzindo resultado igual ou diferente do observado no modelo natural, limitando-se a duas respostas. No caso do comportamento humano, o mesmo modelo produzirá respostas infinitas, ainda que a experiência e cultura individual sejam limitadas.
Todavia, como a experiência e cultura dos indivíduos têm sido padronizadas a partir do pensar de poucos indivíduos através das novelas, dos filmes e dos noticiários, muito mais padronizadas têm se tornado suas respostas ao ambiente. Isto se reflete no consumo, na vivência, na relação interpessoal, padronizando os conceitos de equilíbrio, de coerência, de ética, de moral e de justiça, formulados conforme a experiência pessoal e cultural dos autores das novelas,  filmes e notícias, não mais pela experiência pessoal e cultural dos indivíduos. Assim os comuns tornam-se teleguiados, perdendo o senso particular e coloquial, subvertendo o interesse pessoal em favor do interesse de uns. Passam a querer o que alguns querem e pensar que o mundo, as pessoas e os acontecimentos são o que ou como os autores da televisão dizem que são.
Prova é a insegurança crescente, fomentada pêlos noticiários. Muitos moram em zonas onde ocorrem assaltos, roubos e mortes, porém, seguem vivos, sem ser roubados, nem assaltados e mesmo sendo, como ocorreu três vezes com este autor, seguem vivos, com nova experiência, que usam para evitar experiência parecida, ou como prova tranquilizadora de que sofrer um assalto não leva ao fim de tudo, tratando-se apenas de uma experiência ruim que, em regra, passa rápido. Entretanto, por causa da televisão, muitos vivem aterrorizados, indignando-se com a brutalidade de ações criminosas mostradas nos noticiários, como no Linha Direta, por exemplo, mas indiferentes ao sofrimento e miséria ao redor, muitas vezes presenciando crimes sem fazer absolutamente nada.
Então estamos formulando nossa realidade segundo uma realidade que não é a nossa. Conhecemos um imenso volume de crimes com altíssimo grau de vilania, mas não fazem parte do nosso mundo real. Parece-mos que nas quadras perto de onde moramos, nos caminhos pelos quais transitamos há crimes imensos em andamento a todo instante e não passaremos ilesos por eles, mas na verdade tais crimes tão grandes, que nos parecem aglutinados em nosso ambiente, estão espalhados por um território cuja vastidão não podemos visualizar em nossa imaginação e poderão nunca nos atingir, pois carecem de local e instante próprios, bem como motivações subordinadas a circunstâncias particulares. O local e o instante podem ou não serem qualquer um, mas as circunstâncias são muito mais próprias e particulares em cada caso. Digo que crimes não surgem do nada, mas são configurados passo a passo até o ponto culminante, como se constrói uma casa. Na maioria dos casos a vítima não é passiva, mas contribui grandemente com o crime, mesmo que nem sempre o motive e em muitos casos sua participação dá-se somente por estar descuidada no local e tempo coincidentes.
Sendo que temos formulado nossa opinião a respeito de crimes e reações a eles com base  na interpretação de alguns cineastas, novelistas e editores de noticiários, e eles têm experiências e motivações diferentes das nossas, bem como pontos de vista e valores distintos, podemos dizer que a raiva se transmite por via oral e ocular, visto que cresce no consciente coletivo um potencial padronizado de vingar-se, equivalente ao potencial do criminoso. Percebe-se que a maior parte desse potencial destrutivo permanece na mente das pessoas, sendo alimentando pela insistência repetitiva dos conceitos de justiça dos autores da mídia.
O espírito de vingança e retaliação é tão baixo e vil quanto o que o motiva, pois despoja-se dos princípios de justiça caso o impeçam de retribuir o mal. Deita-se por terra a verdade se seu uso ameaçar obstruir a vingança, sendo que as testemunhas comumente movem-se por impulsos vingativos e os policiais, bem como os promotores, são movidos, não somente pelos impulsos vingativos decorrentes do apiedar-se das vítimas, mas também pelo interesse em satisfazer os contribuintes, bem como produzir carreira, pelo que concentram seus esforços no objetivo de juntar somente as informações que podem incriminar o provável suspeito, obtendo tais informações através do uso distorcido da lei (como pretender usar o silêncio do réu como prova incriminadora) e ações comprometedoras da validade dessas informações, usando mentiras com pretensão de apurar a verdade.
Em regra, as investigações têm partido do pressuposto equivocado de que o suspeito é culpado, carecendo apenas que se prove que é verdade, contrariando que a lei dispõe que “todos são inocentes até que se prove o contrário”. Argumentam que certas ações criminosas na investigação são necessárias a fim de fazer-se justiça provando a culpa do culpado. Todavia, isto é uma incoerência, pois partem do pressuposto de que o suspeito é culpado antes de ter-se a prova de que é mesmo culpado. Aí a ética e a moral foram há muito diluídas, justificando abusos, pois o instinto de retribuição do mal não segue o direito, predispondo-se a derrubar qualquer barreira para consumar-se. Geralmente a vítima torna-se santa, forçando-se a incoerência de que suas atitudes jamais poderiam motivar o crime.
Não é exatamente isto que o criminoso faz para poder convencer-se de que está certo na leitura e julgamento que fez, justificando para ele mesmo a consumação de sua ação criminosa?
Todavia, mais baixo e vil que o desrespeito aos princípios ainda é o mal que o vingativo causa em si mesmo, bem como nos que o rodeiam, ao nutrir o espírito de retribuição do mal.
Quanto mais dolorido e duradouro é o sofrimento pela morte provocada, antecedida de sofrimento provocado, do que a morte natural, precedida de sofrimento, ou homicida de alguém a quem se ama? Na verdade um é tão dolorido quanto o outro, acrescido apenas da indignação por saber-se que à vítima pode não ter sido dado a oportunidade de defender-se. Mas, em regra, nos primeiros dias se sofre muito, sendo que a dor sufoca pela angústia, mas ela vai passando a medida que o tempo põe outras experiências em seu lugar, sufocando aos poucos as lembranças, conduzindo-as para longe.
Observa-se que um ano depois boa parte dos sentimentos de auto censura e negação de si mesmo desaparecem, então a pessoa permite-se alegra-se, ouvir música, sentir prazer, etc., o que não se permitia pelo pensar de ao ente falecido não ser permitido, pelo impedimento de estar morto. Daí para a frente, a angústia e indignação da perda transmudam-se lentamente em saudade, que, talvez aumente, mas é certo que será esquecida com o tempo.
Entretanto, muito de indignação é preciso nutrir até que se veja o criminoso punido, apesar que sua punição não devolva o ente perdido nem alivie o sofrer da perda. Ao contrário, no  expectante de ver punido o criminoso, a dor da perda, bem como a decorrente do desejo de vingança, seguem inalteradas até a consumação da punição que julga merecida, mesmo após  décadas. Os que perdoam logo se interessam do criminoso, resultando que um ano e meio depois a dor da perda se extinguiu, deixando-os livres do sofrer, salvos do diabetes, câncer, gastrite, etc.. È certo que o criminoso logo achará seu destino, se não recuar de seu caminho de crime.
Alguém defenderá a necessidade de punir em defesa da honra da vítima ou para inibir ações criminosas. Tais máximas têm sido disseminadas em sociedades cujas opiniões são formuladas com base na opinião de poucos indivíduos comprometidos com a dominação e poder econômico. Nenhuma honra pode beneficiar um morto, pois não tem consciência e o ser vitimado por agressão não expõe a vítima a desonra, ao contrário, resulta no perdão dos seus erros. Por outro lado, a sanfona furada de que a repressão inibe o crime já foi mais do que desmentida, sendo que a criminalidade cresce muito acima da repressão, que não é pouca. Nas civilizações históricas o único modelo experimentado para inibir ao crime foi a repressão, mas o crime sempre proliferou em proporções abismais a medida que a repressão foi implementada.
O modelo corretivo baseado em punição vingativa denuncia uma sociedade negligente para com seus membros, sendo que por perder um destrói outro, resultando na perda de dois. O modelo de justiça escuso com o identificar e sanar as causas que motivam as ações criminosas é prova flagrante da negligência dessa sociedade orgulhosa. Pretendendo defender a honra de uns humilha-se outros por suas ações desesperadas, muitas vezes resultantes de humilhações que seus pais sofreram e eles sofrem ainda. Pretendem reprimir o crime, quando o estimulam, pois nos centros prisionais as penas dos reclusos são acrescidas de hostilização, humilhação e dor, resultantes do abuso de seus corregedores, quando ao Estado é reservado apenas o direito de restringir a liberdade. É certo que um modelo corretivo educativo, onde o recluso experimentasse crescimento pessoal pelo exercício de uma profissão justamente remunerada, que lhe produzisse dignidade, bem como saneamento das necessidades de sua família, produziria resultados positivo. E se incluísse crescimento intelectual, não limitando os horizontes, muitas pessoas bem melhores seriam restituídas à saciedade e a beneficiariam agradecidas.
Todavia, não investem nisto, mas nutrem ódio da sociedade contra seus membros, pelo medo exposto na propaganda do crime, na qual pintam a vilania com cores marcantes. Os delinqüentes dessa sociedade são comprimidos em lata de lixo, e, livrando-se deles, ala esquece que possuem famílias, membros dignos dessa sociedade, e suas famílias os amam, conhecem seus lados bons, tendo interesse neles. No futuro um desses membros poderá ser outro delinqüente incompreendido, vingando-se da injustiça que lhe fizeram ao punir seu pai. Então será novamente sufocado como um infrator sem causa.
E por quê os homens do poder econômico não influenciam os homens da lei a implantar um sistema corretivo que produza efeitos positivos, preferindo gastar fortunas em presídios onde os seres humanos são tratados como animais? Decerto a resposta seja: porque há quem lucre com a insegurança e o medo, assim como há quem lucra como os pedágios rodoviários. É certo que os canais de televisão lucram muito, bem como muitos de seus clientes, que vendem sistemas de segurança em vídeo, informática, além de sistemas seguros de transferência de dados e valores, seguros patrimoniais, de vida, etc., e sabemos que quanto mais insegurança, mais caro custam esses sistemas. É certo que a insegurança produz um mercado milionário e que há também os  que a defendem, pois dizem que emprega muita gente.

Wilson Amaral
Breve Jesus Voltará
Enviado por Breve Jesus Voltará em 06/11/2006
Reeditado em 07/11/2006
Código do texto: T283996
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Sobre o autor
Breve Jesus Voltará
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 50 anos
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