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Por que as crianças e adolescentes não gostam de ir à escola? Parte 1

Estive refletindo sobre este problema, muito motivado pelas aulas do curso de LA401/402C ministrado pela professora Terezinha Maher e por sua PED, Selma Moura, que tive ano passado, e também pela disciplina "Escola e Cultura", do Profº Antônio Carlos, todos da UNICAMP

Primeiramente, gostaria de dizer que este artigo não tem a gana de resolver o problema, mas sim, de tentar descobrir o motivo. Ainda não tenho sequer graduação e se fosse usar bibliografia neste texto, seria muito pouca, e por isso, admito que portanto, este poderá ser uma porcaria. Mas, tenho algo interessante em meu "currículum", e isto talvez o faça interessante: Já fui aluno "nerd" e já fui aluno do "fundão". Já estudei em classes com maioria de mulheres, passei por oito escolas, estudei com surdos, estudei em bairro rico e bairro pobre. A primeira vez em que fui para a escola foi um dia feliz, e não chorei (acredito que chega a ser raro isso) , enfim, tenho alguma experiência prática sobre a vida escolar.

Vou então, a partir disto, tentar enumerar alguns dos motivos pelos quais acredito que a escola seja chata para algumas pessoas, e inclusive, tentar explicar o motivo de ela não ser chata para outras.

1- É a primeira vez em que fazemos algo obrigados, e mais do que isso, por outras pessoas

A escola é praticamente a primeira coisa que fazemos obrigados, sem controle nenhum. Imediatamente, imagino que você esteja pensando: Mas e quantas vezes, antes mesmo da escola, levamos bronca, somos obrigados a comer, tomar banho, etc? Bom, levar bronca é algo controlado por nós, ou seja, levamos bronca porque fizemos uma ação primeiro. Obrigados a tomar banho? e comer? Sim, mas é rápido, curto, e de certa forma, ainda estamos em certo controle de nossas ações, além é claro, de sermos obrigados por nossos pais.

Mas, e na escola? Além de muitas vezes sermos obrigados a comparecer todo dia , tanto porque não optariamos por ir, se nos fosse dada a chance de escolha, quanto por existirem pais que não motivam ou que não possuem motivos para incentivar, pois a escola que podem dar para seus filhos é "ruim", seremos mandados por um estranho! Sim, a escola é praticamente o primeiro momento em nossas vidas em que somos mandados por estranhos (e talvez o segundo seja o emprego).

Portanto, se não bastasse sermos obrigados por nossos pais, ainda temos que aturar um(a) desconhecido(a) dizendo o que devemos fazer.

Por conta disso, métodos alternativos, coisas bacanas, atividades "lúdicas", me parecem boas alternativas para que a criança não fique com a sensação de ser mandada, até porque não está preparada para isso. Mas, em algumas escolas (já vivi isso), mesmo com crianças pequenas, o esquema de montagem da sala de aula já é semelhante ao de uma sala de ensino fundamental e médio, com todos alunos voltados para o professor, regras exageradas, enfim, um ensino "mecânico".

2- Para alguns, é a primeira vez em que se encontram em contato com um número relativamente grande de pessoas

Sempre existiram, e sempre existirão pais "coruja". É bem possível que, para muitas crianças, principalmente que não fizeram escola desde pequenas, e só entraram lá no "Infantil II" ou "Pré", seja algo impactante estar em contato com tantas pessoas.

Não possuo muitos conhecimentos em psicologia, mas acredito que estas crianças poderão reagir de 'n' maneiras. Quando fiz pré-escola, tinha um garoto chamado "T" que nunca dizia nada. Nem mesmo na chamada. Ele era extremamente tímido, e na época, pensava que ele era mudo, até que um dia vi ele falando com seus pais. Ou seja, ele falava, sim! Provalvelmente era tímido.

Tive (e tenho) pais coruja, e sei como é. Mas, no meu caso, não sofri com ir para a escola, talvez porque praticamente todo dia estava no shopping center, e portanto, acostumado com multidões. Tive uma professora de psicologia na Anhanguera, a Aglay,  que dizia exatamente isso: Shopping e lugares movimentados são recomendados para crianças "socializarem", e no caso de bebês, basta ter atenção com o ruído não ser alto demais a ponto de incomodar (ou machucar) seus ouvidos.

Não chorei ao ir para a escola no meu primeiro dia. Pelo contrário, fiquei feliz, pois além de estar finalmente saindo um pouco de casa, era uma escola interessante, que possuia este comentado ensino "lúdico", que já tinha sido reforçado por meus pais. Eles fizeram questão de dizer que aquela escola, em especial, era diferente das demais.

Mas enfim, neste segundo "item", generalizando um pouco, quero chegar à conclusão de que pode ser um pouco sofrido para quem for tímido.

3- É a primeira vez em que nosso orgulho pode ser ferido e recebemos apelidos

Continuo usando o "é a primeira vez", e de fato, a escola é um lugar de muitas "primeiras vezes".
Estamos lá em casa, paparicados por nossos pais, avôs, pela família em geral, tratados como reis, e acabamos por chegar em um lugar onde acabamos por receber ofensas, apelidos, e, no caso de quem é apressado e já quer logo conquistar alguém (como foi meu caso, com apenas 5 anos. O nome dela era "Piera"), acaba também por conhecer seu primeiro "não", o que pareceria super improvável, pois que garota recusaria o "filhinho da mamãe que é lindo, perfeito e cool"?

Mas voltando aos casos dos apelidos. além de nos impactarem, podem ser irritantes se forem frequentes, o chamado "bullying", e constituir um grande motivo para não ser legal ir para a escola, afinal, fora dela, somos reis, e nela, somos maltratados e não temos "moral" alguma.

4- É um lugar onde podemos nos sentir indefesos

Por estarmos longe de nossos pais, podemos nos sentir indefesos. É importante lembrar que cada pessoa é única, e, portanto, sua experiência de vida é muito subjetiva. Haverão certas pessoas em que não sofreram com isso, pois eram mais fortes e corajosas, enfim, aqueles que eram os "mandões" na época de infância. Há também os que eram mais frágeis, e mandados.

A real é que logo quando pequenos, levaremos nossos brinquedos para a aula, e lá algum outro aluno poderá surrupiar ardilosamente o mesmo. Tá, eu quis fazer piada com essa palavra, mas de fato, outros alunos acabam por pegar seus brinquedos, brincar com eles e não deixar você, que é o "dono", usar! Muitas vezes também os quebram...e aí? Você fica lá, que nem um bobo, implorando para a professora fazer algo. Ah se a mamãe estivesse por perto, nada disso aconteceria...(e lá vai a mãe reclamar disso na reunião de pais, gerando uma briga de adultos, o que é mais vergonhoso ainda).

Mas este sentimento não para por aí, não. Ele continua mesmo quando crescemos. Lembro que sempre existia, ao menos uma pessoa, que era a piada da sala.

    * Na minha primeira série, era uma menina que a "achavam" esquisita.
    * Na segunda, era novamente uma garota, pois ela jogava futebol, e o pessoal achava ela estranha por conta disso, mostrando o machismo e a falta de tolerância presente lá.
    * Na terceira e quarta foi um garoto que era metido a ser brigão, mas sempre chorava.
    * Na quinta série, era uma garota, e mesmo sendo uma escola estadual, ela era motivo de piada por ser demasiadamnte pobre e ser considerada "burra". Um espetáculo da insensibilidade (e ainda querem que todos gostem de ir para a escola?)
    * Da sexta até a oitava, foram garotos, e os motivos novamente tolos, como por exemplo, um deles era piada porque seus pés ficavam um pouco virados quando ele estava parado, e por isso, o apelido dele era "dez para as duas". Nem preciso dizer que é lamentável, não?
    * No ensino médio isso diminuiu, mas ainda existiu.

Apesar de tirar boas notas e muitas vezes ser chamado de "nerd", recebi alguns apelidos também, mas nunca fui o alvo principal da sala, e um dos motivos era o de que eu tinha muita amizade com o pessoal do fundão,. Essa amizade nascia, sabe de onde? Do futebol. Eu era considerado o melhor goleiro da escola.
É por isso que estou certo de que as atividades esportivas, se bem conduzidas (explicarei em outro item o motivo de minha observação) realmente integram as pessoas, e me faziam portanto, um "nerd legal". Inclusive eu não era de brigas, mas se alguém me ameaçasse, o pessoal do fundão me protegia, como já chegou a ocorrer.

5- É também onde podem ocorrer traumas

A escola também é um lugar muito propício para desenvolvimento de traumas, e pior ainda, para a continuidade deles, pois como ocorrem longe dos pais, fica difícil detectá-los, e muitas vezes o professor é quem teria que perceber isso, mas não o faz, tanto por incompetência, quanto por excesso de alunos na sala (salas com 40 alunos, por exemplo).

Como fiz uma observação agora há pouco, atividades esportivas são legais, se bem conduzidas. Infelizmente não foi o caso comigo, em certo momento, e sofri com isso.
Sou péssimo para jogar basquete, e infelizmente, o professor teve a péssima ideia de fazer uma atividade, que não recomendo para nenhum outro prof de Ed.Física: Ela consistia em fazer uma fila e acertar a cesta. cada um da fila acertaria uma vez, e sairia dela. A fila que acabasse primeiro, ganhava (eram dois times)

Pois é, chegou a minha vez, e levei tanto tempo para acertar a cesta, que fiz nosso time perder e todos ficarem bravos comigo. Fiquei traumatizado com isso, e não frequentei mais a quadra durante 2 anos, mas o professor, que era um grosseiro, não percebia isso, me dando nota baixa e implicando comigo.

Só voltei a jogar na quadra, quando uma professora mais sensível detectou o problema, me incentivou e me fez perder o trauma, trauma este que meus pais não sabiam, ou seja, quem teve que lidar com isto e me ajudar foi a professora. Sou muito grato à ela por isso. Seu nome era Profª Gláucia, da escola E. E. Profº João Lourenço Rodrigues.

É por isso que fiz essa restrição quando argumentei que esporte é bom. É bom, mas desde que seja bem conduzido.

6- Matérias "chatas"

Bom, este item é simples: Há certas matérias que não nos agradam.
Penso que há duas inconsistências no curriculum de ensino fundamental e médio:

- Há excesso de matérias repetidas. No ensino médio cheguei a aprender muitas coisas que já tinha aprendido no fundamental. Além disso, houve "re-aprendizado" de certas matérias, como por exemplo, no fundamental me ensinaram que não havia raiz quadrada negativa, e depois no médio, aprendi que existe. Ora, se existe, por que não aprendemos uma vez só, e da maneira correta? Ou então, por que ao menos não me disseram que existia, mas não iria aprender naquela ocasião? Acaba virando um festival de contradições!

- Há matérias que muitas vezes não usaremos (probabilidade é algo interessante de se aprender...mas, polinômios? Se não formos estudar exatas, para que usaremos?). Penso que a escola poderia durar menos tempo, e a faculdade mais. Ou então, ao menos a escola ter mais matérias que contribuam para o dia-a-dia das pessoas, uma vez que muitas sairão do ensino fundamental ou médio, e nunca mais entrarão em uma instituição de ensino. Poderiam ter, por exemplo, dicas de primeiros socorros, aulas de direito do consumidor, informática, defesa pessoal, entre outras.

7- Método de ensino

Bom, o método de ensino já é algo amplamente estudado e sabemos que possui certas deficiências, em especial com os modos "decoreba", falta de discussão de um tema em sala de aula, onde o sentido das coisas acaba sendo apenas um, enfim, não me alongarei neste tema, pois é um campo delicado, que não admite especulações. Deixo apenas indicado aqui, para constar. Na própria Unicamp, há muitos professores que estudam isso e poderão dizer melhor do que eu.

Bom pessoal, esta é a primeira parte de meu artigo. Continuarei, assim que puder.
Octávio Fonseca
Enviado por Octávio Fonseca em 12/03/2011
Código do texto: T2843237

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Sobre o autor
Octávio Fonseca
Campinas - São Paulo - Brasil, 23 anos
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