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A Escola como violência simbólica

INTRODUÇÃO

Nos dias atuais, convivemos com as desigualdades de um modo natural, como se fosse algo que é da natureza do ser humano ou até mesmo não as percebendo como desigualdades.
No ambiente escolar não é diferente, pois mesmo que não percebamos, ela também se encontra presente, em forma de imposição da cultura dominante aos dominados. A esse tipo de desigualdade travestida na cultura e dada com natural, damos o nome de violência simbólica. A violência simbólica nas escolas ocorre de várias maneiras, tanto do professor para o aluno, que o trata de forma igual aos outros, sem se preocupar com a sua diferença social, econômica, ou quando o professor impede o próprio aluno de pensar, fazendo apenas reproduzir o que deseja a instituição, entre outras coisas e, até mesmo, do aluno para o professor, quanto este se demonstra desinteressado pelo conteúdo que o professor lhe repassa, etc.
É de suma importância o estudo sobre a violência simbólica nas escolas atuais, pois é através de sua observação e estudo, que podemos modificá-la, através da conscientização das pessoas acerca do problema, pois a partir do momento que tomamos consciência de algo é que podemos modificá-lo.
Neste artigo, utilizei de vários livros de Pierre Bourdieu, autor da conceituação de violência simbólica, e de outros autores que trataram do mesmo assunto, seja analisando a sociologia de Pierre Bourdieu ou analisando as situações ocorridas no ambiente escolar, tais como Mirian Abramovay e Maria das Graças Rua.
Para esclarecimento do assunto tratado no artigo denominei três subtítulos sendo eles a conceituação de violência simbólica, a violência simbólica travestida em nosso dia-a-dia e a violência simbólica no ambiente escolar.
No subtítulo que trata da conceituação de violência simbólica, tentei esclarecer de um modo de fácil compreensão o que seria o conceito de violência simbólica e o que ele abrange. Já no segundo subtítulo tento explicar o como a violência simbólica esta travestida em nosso dia-a-dia, através de entendermos tal ação como normal do ser humano e, no terceiro subtítulo o como essa violência age no ambiente escolar.


 A conceituação de violência simbólica

A primeira conceituação de violência simbólica foi dada pelo pensador Pierre Bourdieu, onde o mesmo definia violência simbólica como o processo pelo qual a classe que domina economicamente impõe sua cultura aos dominados. Para ele, juntamente com o sociólogo Jean-Claude Passeron, a cultura é algo arbitrário, pois não se assenta numa realidade dada como natural.  Para eles, a cultura, é estipulada por uma determinada classe social dominante, ou seja, a classe alta.

“A cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, a desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções. Esse efeito ideológico, produ-lo a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário de comunicação) é tambem a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distancia em relação à cultura dominante.” (BORDIEU, 2003, p 11).

Devido a essa cultura repassada através da violência simbólica nos ser dada como algo comum e natural, não percebemos essa violência atuando, pois já estamos acostumados com ela desde que aprendemos a entender o significado das coisas, ou seja, desde pequenos, ficando desse modo difícil a percepção disto como algo fora dos padrões, incomum por ter nos sido colocado por uma cultura dominante.


A violência simbólica travestida em nosso dia-a-dia

Nos dias atuais, estamos tão acostumados em convivermos nas desigualdades que não a percebemos mais em nossa sociedade. Isto ocorre devido a essas desigualdades serem tão presentes que acreditamos ser natural do próprio ser humano, não sendo entendidas para nós como algo errado e muitas vezes passando despercebida. A escola não age de modo diferente, visto que a mesma também faz parte da sociedade em que vivemos.

A violência simbólica é a mais difícil de ser percebida (...) porque é exercida pela sociedade quando esta não é capaz de encaminhar seus jovens ao mercado de trabalho, quando não lhes oferece oportunidades para o desenvolvimento da criatividade e de atividades de lazer; quando as escolas impõem conteúdos destituídos de interesse e de significado para a vida dos alunos; ou quando os professores se recusam a proporcionar explicações suficientes, abandonando os estudantes à sua própria sorte, desvalorizando-os com palavras e atitudes de desmerecimento". (ABRAMOVAY; RUA, 2002, p.335)

Essas classes populares são submetidas a essa violência simbólica também quando é imposto a elas o conhecimento como o das classes dominantes e negando as outras culturas.
Com isso percebemos que as pessoas dominadas não se opõem a que as domina, devido a uma não consciência de sua situação, tratando essa situação como algo natural e livre de qualquer tipo de diferenciação.


A violência simbólica no ambiente escolar: a escola como um instrumento oculto de dominação.

Pensar em uma escola voltada par todos e vendo todos como iguais, isto é, respeitando-os com suas diferenças não pode ser considerado em nenhum momento a realidade que existe no ambiente escolar e, ao contrário do que pensamos a escola não é nem nenhum momento neutra, pois até mesmo a cultura que ela impõe aos seus alunos está longe de ser algo sem interesse de alguma parte, mas uma imposição da cultura da classe dominante, favorecendo aos alunos que pertencem à classe que está mais perto dessa cultura imposta pela escola. Isto é algo tão certo que até mesmo os conteúdos no âmbito escolar são voltados para essa classe dominante, onde essa escolha de conteúdos não passa de um produto das relações de forças entre as classes sociais, sobressaindo-se aos demais e, futuramente sendo eles os que serão super-representados nas universidades em relação aos que não fazem parte da mesma classe social.
Podemos perceber esta violência na escola, ao analisarmos as próprias avaliações elaboradas, tanto orais quanto descritivas. Nas avaliações orais, que podem ser chamadas tambem de “provas de boas maneiras”, o professor geralmente analisa mais o modo com que o aluno se desenvolve ao falar do que o conteúdo apresentado; e nas descritivas também avaliando de modo semelhante, onde primeiro é analisado como o aluno expressa seu pensamento na forma escrita e depois o conteúdo. É claro que aquele que possui os “moldes” que a escola exige desde pequeno, se sairá melhor sempre, pois vemos que na escola primeiro se julga a “excelência social” para depois se julgar a “excelência escolar”, percebendo mais uma vez, que o sucesso do aluno está mais na semelhança dos hábitos entre o professor e o aluno, do que na absorção do conteúdo dado.
Mas ao falarmos desta violência não podemos dá-la somente em uma parte de ensino ou até mesmo apenas no ambiente escolar (ensino fundamental, médio e superior), pois a escola impõe essa violência de uma forma natural e o mesmo critério de avaliação é empregado também em outras provas, tais como concursos, vestibular, etc., e também é atraves dela que nos são dados os profissionais de altos cargos.

Os exames e os concursos julgam em razão de divisões que não tem necessariamente a racionalidade como princípio, e os títulos que sancionam os seus resultados apresentam como garantias de competência técnica certificados de competência social, muito próximos disso dos títulos de nobreza (...). A função técnica evidente, demasiado evidente, de formação, de transmissão de uma competência técnica e de seleção dos mais competentes tecnicamente mascara uma função social, que é a consagração dos detentores estatutários da competência social, do direito de dirigir (...). Temos assim (...) uma nobreza escolar hereditária de dirigentes de indústria, de grandes médicos, de altos funcionários e até de dirigentes políticos, e essa nobreza de escola comporta uma parte importante de herdeiros da antiga nobreza de sangue, que converteram seus títulos nobiliários em títulos escolares. Assim, a instituição escolar, da qual se pensou, em outros tempos, que poderia introduzir uma forma de meritocracia ao privilegiar as aptidões individuais sobre os privilégios hereditários, tende a instaurar, através da ligação oculta entre aptidão escolar e a herança cultural, uma verdadeira nobreza de Estado, cuja autoridade e legitimidade são garantidas pelo titulo escolar. (BORDIEU, 1996, p. 38).


Percebemos mais uma vez que escola não é libertadora, mas conservadora, pois mantém a dominação sobre as classes populares, no período escolar e fora dele, mas por ela, onde tudo é imposição da cultura dominante.
No sistema escolar também percebemos a violência simbólica quando esta cumpre essa função de legitimação impondo às classes dominadas o reconhecimento do saber das classes dominantes, negando a existência de outra cultura legítima.
Entretanto, a imposição da cultura da classe dominante às outras classes acaba gerando uma desculturação pela parte dos membros das classes dominadas. Percebemos isto na própria linguagem das classes, que são completamente diferentes. Enquanto na classe dominante seus membros se comunicam através de uma linguagem mais formal, intelectual e abstrata, na classe dominada a linguagem é popular se manifesta de modo contrário. No ambiente escolar a linguagem requerida é uma linguagem formal, intelectual e abstrata, tal como na classe dominante e, aqueles que não fazem parte dessa classe, efetivamente na escola, devem aprender essa linguagem estrangeira a seu ver. Há um completo processo de desculturação na escola, pois no sentido de perda de cultura de sentido, este processo se impõe para garantir a sobrevivência da instituição.

“Mas o sistema mais poderoso, que afasta os membros das classes dominadas da instituição escolar, é o habitus. Produto da interiorização das condições objetivas, (...), ele provoca uma auto-eliminação das categorias desfavorecidas. Os indivíduos aprendem a antecipar o seu futuro de acordo com a sua experiência do presente, e logo a não desejar aquilo que, em seu grupo social, aparece eminentemente pouco provável. Assim a convicção que a escola pode constituir um meio de controlar a trajetória social será mais difundida entre aqueles que têm uma oportunidade razoável de sucesso. As classes populares se mostram menos dispostas a fundar a sua esperança de ascensão na escola, e seus filhos serão descritos com “menos ou pouco motivados””. (BONNEWITZ, 2003, P. 120 -121).


Analisando essa desmotivação que ocorre devido a esse processo de auto-eliminação das categorias menos desfavorecidas, percebemos que essa argumentação afasta a idéia imposta pelo senso comum de que as classes dominadas possuem inaptidão para os estudos ou que falta recursos econômicos para tal ação, mas percebemos que isto ocorre devido as estratégias escolares de favorecerem apenas as classes dominantes.


CONSIDERAÇÕES GERAIS

Analisando essa violência exercida na escola, vemos como a escola possui um modo de ensino direcionado mais as pessoas de classes superiores, interiorizando a sua cultura. A escola anula a capacidade do aluno de pensar, fazendo-o apenas reproduzir as coisas. A Escola também incorre a essa violência simbólica ao incorporar e refletir uma ideologia da igualdade das oportunidades, fundamentada numa visão liberal da educação como instrumento que garante o sucesso e a mobilidade social para todos, porém ao fazer isto, nega o fato de estar favorecendo somente os já “socialmente favorecidos”.  A escola não leva em consideração os diferentes modos de vida dos seus alunos, e como aponta o próprio Pierre Bourdieu, a escola trata os desiguais como aparentemente iguais, defendendo uma escola direcionada a inclusão, que na verdade atua de modo contrário.
Essa violência exercida pela escola não possui apenas consequências no âmbito escolar, mas é algo que o aluno levara para a sua vida toda, mesmo que inconsequentemente.
Mas esta violência não é algo que ocorre apenas nas escolas, mas sim, em toda a sociedade que vivemos, seja ela no ambiente escolar, no de trabalho e até mesmo na própria igreja. Nosso país se diz um país de todos, para viver até pode ser, mas não é um país de todos no conceito de cultura, leis e outras coisas, pois sempre favorecerá as classes dominantes, pois é mais vantajoso para ele.
Nós podemos mudar isso, e podemos começar essa mudança pelo ambiente escolar que é o local em que todos os nossos descendentes um dia irão que frequentar. Entretanto, para que isto aconteça, devemos nos conscientizar dessa situação, percebendo que a violência simbólica não é algo natural do ser humano, e por isso passa despercebida, mas que é algo nocivo para as pessoas, principalmente as que não possuem os moldes impostos por ela, fazendo com que a escola deixe de ser um local de reprodução da cultura dominante, mas sim um lugar onde haja um respeito com todos os alunos, sejam eles diferentes como forem, transformando a escola em local para todos, um local de inclusão, uma escola para todos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVAY, M; RUA, M. G. Violências nas escolas Brasília: Unesco, 2002.

BONNEWITZ, P. Sociologia de P. Bourdieu. Tradução de Lucy Magalhães. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

BOURDIEU, P. Razões práticas – sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus, 1996.
Ellen Koteski
Enviado por Ellen Koteski em 26/04/2011
Código do texto: T2931881

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Sobre a autora
Ellen Koteski
Cruz Machado - Paraná - Brasil, 24 anos
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