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A construção do conhecimento científico e o ensino de História

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
DEPARTAMENTO DE LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
LICENCIATURA EM HISTÓRIA


A construção do conhecimento científico e o ensino de História


Antonio José Ferreira de Mesquita


RESUMO


Este trabalho visa descrever a produção do conhecimento científico na Academia, sua relação e disseminação pelos professores nas salas de aula dos níveis fundamental e médio, a atuação dos professores na concepção e alteração dos currículos escolares, a evolução do ensino da matéria História, as práticas metodológicas e pedagógicas, a utilização dos livros didáticos, a influência do método cartesiano na educação e no ensino de História e sua relação com a verdade e a razão, como também, a construção do conhecimento para obtenção da emancipação dos indivíduos, além de abordarmos como o ensino no Brasil sofreu e sofre influências políticas e sociais para atender aos interesses da classe dominante.

Palavras-chave: Produção do conhecimento científico, ensino de História, verdade-razão, emancipação.


 
A autora Circe Bittencourt, em sua obra “ENSINO DE HISTÓRIA: fundamentos e métodos” inicia seu trabalho apontando que estudo regular da disciplina História, remonta ao século XIX, ou seja, faz parte dos “planos de estudos” no ano de 1837 da primeira escola pública brasileira, considerada de nível secundário, contudo, os cursos de nível superior e a formação de seus profissionais só foram criados a partir da década de 30 do século XX. Passa a abordar como a disciplina escolar relaciona-se ao papel do conhecimento como instrumento de poder e o papel da escola na divisão de classes e na manutenção de privilégios de determinados setores da sociedade. Em seguida, trabalha a escola como lugar de recepção e reprodução do conhecimento externo e o professor sendo o responsável pela adaptação do conhecimento científico ao meio escolar e na constituição da disciplina e a prática nas salas de aula, sendo os mesmos, responsáveis pela transformação do saber a ser ensinado em saber aprendido, ou seja, ação fundamental no processo de produção do conhecimento. Quanto ao processo de ensino-aprendizagem, analisa a disciplina durante sua longa duração e os métodos e conteúdos tradicionais através da memorização, que é o responsável pelo paradigma da História escolar ser uma “matéria decorativa” por excelência. Num segundo momento, trata-se a História, no decorrer dos séculos XIX e XX, como instrumento pedagógico na construção de uma “identidade nacional”, ou seja, voltada para uma formação moral e cívica com seus conteúdos elaborados para construir uma idéia de nação associada à de pátria como eixos indissolúveis, fortalecendo o espírito nacionalista através das “invenções de tradições”, assegurando à História uma missão de ensinar as “tradições nacionais”, como também, despertar o patriotismo. Mesmo durante a criação do ensino secundário a matéria História ainda estava ligada ao patriotismo e as tradições, contudo, o ensino passou a ser direcionado as classes dominantes ou as elites como formação de valores. Os métodos de ensino de História passaram por modificações tanto no nível primário como no secundário, passando de métodos exclusivos de memorização a incorporar métodos ativos através dos pressupostos da psicologia cognitiva . O ensino e a matéria História nas atuais propostas curriculares continuam observando os modelos externos, especialmente os da França. As mudanças observadas seguem as tendências mundiais de formar uma sociedade de acordo com a lógica de mercado, como também, nas novas perspectivas de ensino-aprendizagem e não mais exclusivamente no ensino. Por outro lado, a interdisciplinaridade exigida nos moldes atuais, exige a transformação do professor de História num trabalhador intelectual que juntamente com seus alunos deve pesquisar, estudar, organizar e sistematizar os materiais didáticos apropriados às diversas condições escolares . Continuando, trata dos problemas enfrentados pelos professores na escolha dos conteúdos a serem abordados e utilizados nos currículos escolares, tendo de optar por manter os conteúdos tradicionais ou selecionar os conteúdos significativos para atender um público escolar proveniente de diferentes condições sociais e culturais. Ela aborda os momentos em que são observadas as tendências do ensino de História, valorizando a História narrativa, cultural e local ou regional. Em cada uma das situações apresentadas, o Historiador procede segundo a perspectiva adotada .
No texto trabalhado por Felipe Fernández-Armesto: “A GAIOLA DOS PÁSSAROS SELVAGENS: A verdade da razão”, o autor trabalha o sentido da verdade e da razão na construção do conhecimento no mundo oriental e ocidental, passando pelo racionalismo puro dos gregos que nos leva à lógica. Contudo, verifica-se que a verdade e a razão possuem valores diferentes em civilizações distintas, ou seja, depende da cultura e do pensamento da sociedade estudada. Não podemos esquecer da linguagem, a qual, sendo utilizada para a construção da história não exprime uma verdade segura, pois, podendo ser facilmente manipulada, encontrando incertezas ou inverdades, por isso, cabe aos historiadores tentar representar a verdade dentro dos conceitos utilizados, tendo em vista, que não é possível reconstituí-la. Os historiadores são hoje sacerdotes de um culto à verdade, destronando antigas crenças e posições, porém, alguns, permanecem inertes às mudanças de comportamentos e pensamentos quanto ao que se considera verdade incômoda ou mentira que leva, momentaneamente, a certo alívio ou acomodação . A retratação da verdade é uma das mais dramáticas “estórias” da história. É preciso fazer uma tentativa para traçar seu curso, pois isto, pode ajudar a explicar um dos grandes enigmas do mundo moderno . A História como outras ciências, vão buscar a verdade e a razão em Descartes, Kant e outros, essa razão combina-se com outros ingredientes, dentre os quais, o fascínio pelo método científico, ou seja, deveria haver comprovação do que estava sendo estudado e não apenas usar o pensamento em busca da verdade, contudo, existe a utilização da linguagem para a retratação da verdade. Em meados do século XX, com a descoberta de novos rumos e valores científicos, surge um princípio de incertezas. Mesmo após a formulação do princípio da incerteza, ainda era possível achar um caminho no cemitério da certeza.
No Discurso do método, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza e a ausência de dúvidas. Descartes tentou popularizar ao máximo os conceitos abordados e expressos de maneira não impositiva, mas compartilhada. Em toda a obra permeia a autoridade da razão. Para Descartes a autoridade dos sentidos, ou seja, as percepções do mundo, também são particularmente rejeitadas. O conhecimento significativo, segundo o tratado, só pode ser atingido pela razão, abstraindo-se a distração dos sentidos. O método de raciocínio proposto por Descartes no Discurso compõe-se de quatro partes distintas ou  passos: a) Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade e sua justificação. Verificar a verdade, a boa procedência daquilo que se investiga – aceitar o que seja indubitável, apenas; b) Análise, ou divisão do assunto em tantas partes quanto possível e necessário; c) Síntese, ou elaboração progressiva de conclusões abrangentes e ordenadas a partir de objetos mais simples e fáceis até os mais complexos e difíceis e d) Enumerar e revisar minuciosamente as conclusões, garantindo que nada seja omitido e que a coerência geral exista. Essas regras até hoje norteiam a produção do conhecimento, ou seja, só aceitar tudo aquilo que pode ser realmente comprovado, rejeitando o que mais gere algum tipo de dúvida ou incerteza. Podemos observar no ensino de História nas escolas de nível fundamental e médio, uma linearidade dos acontecimentos, como também, a distância entre o que é produzido na Academia e o conteúdo imposto aos alunos secundaristas através dos livros didáticos.
No livro: EDUCAÇÃO E EMANCIPAÇÃO de Theodor W. Adorno, o autor demonstra em seu texto – Educação após Auschwitz, que só através da educação conseguiríamos evitar uma repetição daquele campo de concentração. No mesmo texto, outro ponto considerado pelo filósofo é o “coletivo e os costumes” que, para o mesmo, seriam os responsáveis pela dominação e alienação do individual, ou seja, pensamos e agimos pelo que é determinado pelo grupo de caráter manipulador, além da violência praticada diariamente por jovens e adultos. Isto era tido como uma regressão à barbárie. Adorno acredita que existe uma deficiência no amor entre as pessoas, contudo, pode-se mudar esse preceito quando passamos a tratar melhor as crianças, ou seja, começar desde cedo a trabalhar o lado afetivo e procurar entender através do uso da Psicologia as razões pelas quais a frieza é gerada.
Num segundo texto: Educação – para quê? O autor transcreve um diálogo entre ele Becker sobre como os jovens poderiam se emancipar através da educação, ou seja, os educadores devem abolir ou exigir das crianças que sejam idênticas aos adultos e, com isso, tornar o processo de crescimento e amadurecimento menos doloroso, para tanto, é necessário que desde a primeira educação infantil, haja um processo de conscientização e de espontaneidade. Para Bogdan Suchodolski: “a educação como preparação para a superação permanente da alienação”. Outro ponto fundamental seria a utilização de uma Psicologia  profunda para uma educação efetivamente procedente em direção à emancipação, contudo, mesmo adotando essas ações, poderão existir  autoritários e manipuladores de gabinetes, porém, é na educação e autodeterminação que reside a emancipação do indivíduo, fortalecendo-o e preparando-o para combater os pensamentos e as atitudes consideradas como barbáries.
Percebemos que o processo histórico da civilização e da ciência História passou por diversos momentos, como também, sofreu diversas abordagens partindo de simples relação dentro de outras ciências, como também, disciplina ensinada na Academia. No Brasil, particularmente, sendo responsável, num primeiro momento, por despertar o patriotismo. Em outro momento, juntamente com outras matérias, usada pelas classes dominantes como objeto de poder e dominação. E, por fim, a educação tomada como elemento responsável pela emancipação do indivíduo, contrária a alienação causadora do desafeto e da barbárie.
O papel primordial do professor não só de História como das demais matérias é ensinar seus alunos a pensar, utilizando os acontecimentos históricos e atuais, como também, saber trabalhar o conhecimento científico produzido na Academia, transpondo-o para o currículo escolar.
 
 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação. Tradução Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 1995, pp.119-139.
BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de história: fundamentos e métodos. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2005. pp.25-177.
DESCARTES, René. Discurso do método: Regras para a direção do espírito. São Paulo: Martin Claret, 2002 [1637].
FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe. Verdade: uma história. Tradução Beatriz Vieira. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.

CITAÇÕES

BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de história: fundamentos e métodos. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2005. pp.59-92.

BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de história: fundamentos e métodos. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2005. pp.99-130. Idem, pp. 138-172.
FELIPE, Fernández-Armesto. Verdade. Rio de Janeiro: Record, 2000. pp. 189-190.   Idem, p. 193.
AMESQUITA
Enviado por AMESQUITA em 05/05/2011
Código do texto: T2951024
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Sobre o autor
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Recife - Pernambuco - Brasil, 51 anos
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