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Saúde Pública: retrato do Brasil... e do brasileiro

É bastante comum observar nos meios de comunicação reportagens sobre o sistema público de saúde no Brasil e, sobretudo, em seus aspectos mais negativos. E o poder público é colocado sempre como o grande causador de todo o problema. Pouco se vê sobre análises criticas construtivas e possíveis soluções para um sistema que, por ser público, precisa da participação de todos para funcionar.
Ao colocar o poder público sempre como o grande vilão do sistema de saúde, cria-se a impressão geral de que o governo não sabe gerir, não possui competência para administrar e somente um serviço de saúde privado pode oferecer qualidade ao cidadão. Tal idéia foi reforçada, em muito, pelo período de governo neo-liberal que o Brasil foi ‘vítima’, onde o próprio governo assumia uma suposta incompetência para administrar o que lhe é devido, sobretudo para justificar as privatizações e reforçando um comportamento egoísta em nossa sociedade, apelativo ao privado.
Mas seria realmente e somente o governo o grande culpado pelas falhas que ocorrem no sistema público de saúde? Seria a sociedade uma vítima inocente do descaso governamental?
O Sistema Único de Saúde (SUS), nome dado ao sistema público de saúde no Brasil, é bastante amplo e complexo e, assim sendo, precisa também de um grande sistema de fiscalização e controle. O SUS atende milhões de pessoas, todos os dias, sem cobrar absolutamente nada por isto de forma direta (pois o contribuinte mantém a saúde pública através de impostos) e sofre com uma demanda imensa de pacientes que cresce com o passar dos anos. Por outro lado, o sistema de saúde privado do Brasil também cresceu muito nos últimos anos em número de usuários e serviços oferecidos e tornou-se uma opção para muitas pessoas descontentes com o sistema público.
O SUS, além da enorme demanda, enfrenta inúmeros outros problemas como a falta de fiscalização e controle, citado a pouco, o que resulta, muitas vezes em funcionários que não trabalham adequadamente, - incluindo muitos médicos, desperdício e desvio de materiais, longas filas de espera para tratamento ambulatorial e por ai vai. Sobretudo a demora nos atendimentos fazem muitos procurarem um plano de saúde privado e ter a segurança de um atendimento mais rápido em caso de necessidade. Quem pode pagar, paga e quem não pode...
Mas este quadro atual da saúde no Brasil é sinal do mais puro egoísmo de grande parte dos cidadãos brasileiros.
Não há nada contra um cidadão ter seu plano de saúde privada. Pois isto é uma opção de cada um e a liberdade, inclusive nestes casos, deve ser garantida. Mas o que se deve discutir é como a sociedade brasileira cuida do seu sistema público de saúde. Muitos apenas usam o serviço, reclamam do atendimento, mas não fazem absolutamente nada para melhorar este serviço. Nem mesmo fazem o esforço para utilizarem a caixa de sugestão, presente em muitas unidades de saúde, para expor sua posição e opinião. Limitam-se a reclamarem nas poltronas de suas casas e nos balcões dos botecos, sem fazer-se ouvir, de fato. É bem mais fácil mesmo pagar por um serviço privado ao invés de lutar para que o serviço público seja melhor.
Por todo Brasil estão se criando conselhos de gestão populares das unidades de saúde, onde o cidadão comum pode opinar e participar das decisões destas unidades, inclusive na boa utilização dos recursos, mas o que se vê é uma baixíssima participação popular nestes conselhos. Parece que a idéia do “alguém fará por mim” prevalece. Como uma sociedade que não fiscaliza e não zela pelos serviços públicos que lhe são oferecidos pode querer que este serviço seja oferecido com qualidade? Como podem exigir dos governantes que mantenham a qualidade no serviço público de saúde se a qualidade deste serviço não é devidamente questionada pelos meios disponíveis? A saúde pública no Brasil nada mais é do que o resultado da omissão dos próprios usuários deste mesmo serviço.
Muitos podem alegar que quem deveria fazer este serviço era o próprio governante, pois foi eleito para isto. Mas estes que dizem isto, dificilmente acompanham as atividades dos ocupantes de cargos eletivos e o que estão fazendo pela saúde pública. Pois se tivessem este nível de consciência coletiva, estariam, também, cientes que a participação popular é a base de qualquer sistema democrático, seja este qual for.
O governo não é o grande responsável pelos problemas na saúde pública no Brasil e sim toda sociedade brasileira. Não se pode esquecer que os governantes são eleitos democraticamente por esta mesma sociedade e seus integrantes são, igualmente provenientes desta sociedade. O Brasil ainda não importa políticos e estes são “fabricados” aqui mesmo, são reflexos de como é nossa sociedade, apenas. Se o governante não dá a devida atenção à saúde pública é porque vem de uma sociedade que não também não zela pelos serviços públicos.
No dia em que os cidadãos brasileiros aprenderem a zelar pelos serviços públicos, apresentando críticas, sugestões e soluções pelas vias corretas, isto é, tendo um posicionamento maduro e consciente diante das questões que o aflige, o serviço público de saúde será um serviço oferecido de forma digna para todos e o sistema privado será uma opção consciente de um serviço, ao invés de ser uma fuga.

Edison Evaristo Vieira Junior
Psicólogo
Edison Evaristo Vieira Jr
Enviado por Edison Evaristo Vieira Jr em 14/05/2011
Código do texto: T2969098
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Sobre o autor
Edison Evaristo Vieira Jr
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 34 anos
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