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LIÇÕES DO PEQUENO PRÍNCIPE

Relendo o Pequeno Príncipe depois de alguns anos me dou cada vez mais conta que para parecermos pessoas grandes, adultas temos que complicar. Enquanto que a vida é simples, prática e também nos convida a contemplação do mistério.
Temos a mania de sempre querer parecer ser pessoa importante, com isso deixamos de ser o que realmente somos para ser o que nos faz ser mais agradáveis aos olhos alheios.
A mania de querer ser pessoa “grande” (compreende-se aqui importante) quando não se é, nos torna superficiais, vazios, ocos, porque não somos o que realmente somos. Os amigos se afastam de nós porque não suportam essa encenação falsa.
Os adultos estragam as crianças, seus sonhos, seus ideais. Eles querem que as crianças pensem como eles pensam, vejam como eles vêem, acreditem no que eles acreditam, gostem daquilo que eles gostam. Nossas crianças são muito determinadas. Limites fazem bem, desde que não sejam exagerados ao ponto de inibir a criança na sua inteligência, no seu talento e potencial. Sua liberdade não passa das quatro paredes do quarto, do computador, da televisão. Mania de adulto em querer se achar mais que as crianças, mas vivem pior que elas.
Complicamos as coisas para parecermos adultos, mas com isso nos tornamos infantis porque não aprendemos a viver a beleza da vida na sua pequenez, na sua simplicidade. Complicar é coisa de adulto. Perguntar, conhecer faz bem para qualquer um. Impor limites pensando sermos melhores é coisa de adulto. É preciso ser criança para complicar menos, amar mais, sonhar mais, buscar mais, para viver melhor. Será que isso não basta?
Quantas crianças não vivem seus sonhos porque os adultos não deixam que elas vivam. Até parece que adulto entende de sonhos! São os grandes frustrados por não terem realizado seus sonhos. A infelicidade de tantos prova que muitos adultos não sabem sonhar, não sabem cultivar sonhos, mas sabem complicar e por isso são chamados de adultos.
Parece chato, mas quando nos tornamos adultos, pensamos ou acreditamos saber muito, e por isso, queremos encher os outros de “lições de moral”. Porém, o que sabemos ainda não nos ajudou a viver melhor. Será que vale a pena complicar tanto? A gente complica para parecer que é gente grande, para parecer adulto.
Não seria melhor deixar o outro ser o que é e eu buscar viver melhor minha vida? Talvez assim os meus exemplos convenceriam mais os outros. Para que complicar com o outro se sou igual ou pior que ele? É que para parecer adulto eu tenho que complicar, explicar ainda que pareça óbvio porque eu penso que o outro não entendeu. Conversar, dar um conselho é bom, mas nem sempre é preciso. Calar e ouvir, calar e agir também faz sentido.
Aquela conversa descontraída, legal, sem complicar é bem mais agradável do que aquela onde somente se pergunta os por quê(?) e as razões de tudo. Adulto parece que não sabe viver, falar, amar sem complicar.
As crianças as vezes não gostam dos adultos porque eles complicam muito e se tornam chatos. Criança vive o que é, o que sente e não complica, não dramatiza, a não ser que aprenda com os adultos.
Como adultos esquecemos ou não nos damos conta de coisas simples como a beleza de uma flor, um pôr-do-sol, o vôo de um pássaro ou de uma borboleta, a correnteza de um riacho, o cantar das andorinhas. Ficamos buscando coisas que pensamos nos acalmarem, nos satisfazerem mais. Buscamos ir ao cinema ver um filme, ir a um bar, jogar jogos eletrônicos. Quantas pessoas têm amplos espaços para caminhar, andar de bicicleta, passear com amigos, com a família, mas trocam essas coisas lindas e saudáveis pela academia com altos sons, pelo computador, pela televisão. Adulto gosta mesmo de complicar, e com isso habituamos as crianças a estes hábitos que não são saudáveis e depois reclamamos de estresse.
É engraçado que quando vemos alguém chorar, por exemplo, não sabemos o que fazer, enquanto que uma criança, na sua liberdade e espontaneidade consola uma pessoa melhor que nós. A questão é que nós, os adultos, complicamos de mais. Ficamos imaginando o que dirão se nos aproximarmos de alguém que chora e abraçarmos essa pessoa. A criança não pensa pelos outros; age por amor e isso basta para ser feliz no momento, para consolar uma pessoa que chora.
Adulto só não é feliz porque coloca muitos empecilhos a sua felicidade. Complica muito e vive pouco.
Como adultos complicamos quando estamos ficando sem cabelo, quando aparecem as rugas no rosto, quando o time perde, quando a roupa não está na moda. Esquecemos que muitas coisas fazem parte da natureza humana e nossas complicações e implicâncias não mudarão em nada as coisas, apenas nos trarão mais sinais de envelhecimento, dor de cabeça. Adulto gosta de complicar mesmo e paga o preço disso. Complica pensando ser mais feliz.
A autoridade parece perseguir as pessoas. Olhando bem, penso que somos nós que a buscamos. Por quê? O ser humano, especialmente depois de adulto gosta de dar ordens, ter súditos, de ser obedecido. É uma espécie de prazer para ele sentir-se em poder de outras pessoas, dar ordens e ver que suas ordens estão sendo executadas. Todos, de certa forma buscamos poder, satisfação (esta, quando com boa intenção é bem-vindo). O problema maior é que nos acostumamos com isso e nos esquecemos que as pessoas têm sua individualidade, sua liberdade e como nós, todos gostam de ser respeitados. O que me surpreende é que complicamos tanto que nem mais nos compreendemos o que somos e o que queremos.
Deveríamos ter a sensibilidade de uma flor que não guarda para si sua beleza. Ela se revela como é e por isso ela é tão cobiçada. Se fôssemos unicamente aquilo que somos, sem complicar nada, o mundo seria melhor.
Diz o livro que “se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio”. Isso é o mais difícil. Sabemos tudo da vida alheia; queremos sempre aconselhar, porém não sabemos viver bem. Isso me parece ser uma contradição. Exigir além daquilo que os outros podem dar é uma forma de demonstrar autoritarismo. Precisamos fazer mais e exigir menos. Viver mais, amar mais e cobrar menos. A vida é mais simples que a nossa complicação.
Desde criança nos ensinam que temos necessidade um do outro. Até que não é ruim esta idéia, assim não nos tornamos tão egoístas. Porém, o que ocorre muitas vezes é que usamos os outros a nosso favor, a nosso “bel prazer” como se o outro fosse objeto de uso. Fazemos muitas coisas esperando aplausos, elogios e assim nos enganamos a nós mesmos, pois a primeira pessoa que deveria elogiar, aplaudir ou criticar nossas ações merecedoras destes atos, somos nós mesmos. Assim não viveríamos para agradar os outros, ou para sermos elogiados, mas porque a vida é um dom precioso que merece ser bem vivido. Elogiar os outros também é um dom e precisa ser posto em prática quando uma pessoa merece.
A saída que buscamos para nossos problemas nem sempre é a melhor. Precisamos refletir bastante sobre nós mesmos, sobre nossas escolhas, aquilo que queremos ser. Refletir que não somos os únicos que sofrem e que nossos problemas diminuem quando esquecemos deles (ao menos os superficiais). Confiar na força divina é uma atitude sábia.
Na atualidade parece que não temos mais tempo para nada. Sempre estamos atarefados. Será que isso não é uma estratégia que nos fazem usar para dizer que somos gente importante, ou ainda, que somos adultos? Isso pode ser uma estratégia para não mais pensarmos em nós mesmos, nos outros, na realidade que nos envolve, na vida, e assim, o que acontecer não nos atinge, não nos compromete. O tempo sempre foi e será o mesmo. Somos nós que nos ocupamos de tantas coisas que até, às vezes, esquecemos de viver melhor cada momento. As tecnologias deveriam nos ajudar para vivermos melhor, com mais tempo para a vida, as pessoas, a família e não nos aprisionarmos em nosso mundo. É pertinente de vez em quando olharmos para nosso dia-a-dia a fim de nos darmos conta se realmente é necessário fazer tudo o que fazemos. As muitas ocupações podem ser também uma fuga da vida. Precisamos viver mais, e isso não quer dizer que sempre temos que estar trabalhando. Viver mais não é necessariamente viver muitos anos, mas viver bem cada momento que passa como único e que nunca mais voltará. Ficar trabalhando sempre para ter que ser, é uma mentalidade capitalista, onde o lazer, o descanso, o passeio, a conversa com amigos é “tempo perdido”. Será? Para a mentalidade capitalista pessoa boa é aquela em constante movimento, produção, consumo. O viver não importa. Será que não estamos chorando sobre nossa falta de competência em organizar o tempo? Precisamos olhar para as prioridades, entre elas o bem-viver. Teremos que responder pela nossa vida, o que fizermos com ela. Viver não significa apenas produzir.
As regras que estabelecemos para viver melhor (pelo menos acreditamos nisso) são importantes, mas não devem estar acima da pessoa humana. As coisas que fazemos são úteis mas nem sempre favorecem a vida humana. É preciso cuidar para que nossas regras e tarefas não nos escravizem. A escravidão que criamos de nós mesmos é a pior delas. As vezes é preciso dar tempo ao “não fazer nada” (pensamento capitalista para o tempo que passamos conosco mesmo ou com os amigos e familiares). É preciso se permitir certas coisas porque a vida passa e não espera terminarmos nosso amontoado de tarefas.
Uma imagem forte relatada no livro é que a terra é grande, povoada, e o Pequeno Príncipe pensou que estando entre os homens não estaria isolado. Nas grandes cidades há uma numerosa multidão que circula pelas ruas, praças, avenidas. Aparentemente são títeres ou objetos que se movem sem rumo. Sempre há movimento. A maior solidão é justamente esta: sentir-se só no meio da multidão. Aí ninguém te conhece, ninguém quer saber de ti. Nos esquecemos porém, que todos sofremos do mesmo problema: a solidão. Mas ninguém quer falar porque sente-se só no meio da multidão. Acredito que um sorriso, um cumprimento entre as pessoas que passam, não com todos, é claro,  não nos faria perder tempo e tornaria nosso dia um pouco mais feliz. Parece que o cumprimento atrasa, o sorriso tira pedaços. A todo momento temos que parecer pessoas sérias. Os adultos são complicados, hein!
Ao subir a montanha e tentar um diálogo, o Pequeno Príncipe ouvia o que ele mesmo falava; pensou que os homens repetem apenas quilo que ouvem dizer. Ele tem razão. Muitas vezes nos tornamos meras marionetes, repetindo o que os outros dizem, pensam, fazem. A vida é única e insubstituível. Ou se vive ou não, mas ela passa. Viver é ser criativo, pensar, criticar, silenciar, fazer acontecer.
No meio desta multidão sempre encontramos aquelas pessoas que se tornam amigas. Conhecer uma pessoa exige cativá-la e deixar-se cativar. Aqueles que se tornam amigos nossos, nós os vemos diferente, vemos com os olhos do coração e estar na sua companhia é motivo de alegria. Para muitos ter amigos ou fazer amizades é tempo perdido. Acredito que não é assim. Os amigos nos ajudam a caminhar e nos fazem entender que nada somos se estamos sozinhos. Somos seres de convivência e relação e o estar com os amigos e amigas nos faz bem. O tempo que passamos com que cativamos não é tempo perdido, mas tempo bem vivido. Quando não somos amados, queridos, cativados nos sentimos sozinhos e a solidão nos torna tristes, fechados, infelizes. Os amigos são dádivas, dons, que o tempo não apagará jamais.
As verdadeiras amizades valem a pena. Elas transformam nossa vida e nos fazem entendermos sua beleza. “É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer”, responder o pequeno príncipe ao seu companheiro de jornada. Penso que muitas vezes nos preocupamos de mais pelos problemas e assim nos esquecemos das coisas lindas que vivemos, os amigos que tivemos e temos.
Uma pergunta que não cansa de soar: SOU FELIZ? É desejo de todo ser humano ser feliz. Estamos sempre em busca da felicidade. A indagação que fica no ar é a seguinte: Não somos felizes porque não sabemos ser ou porque não temos o que queremos?  Percebo que somos mais felizes do que cremos ser e nos tornamos mais felizes à medida que descobrimos a beleza da vida nas coisas simples que vemos, que fazemos, que temos, que recebemos. Por isso é que uma criança é feliz. Para ela uma bala é motivo de alegria. Gente grande quer coisas grandes como se a felicidade estivesse nas coisas. Adultos complicam as coisas simples.
Precisamos prender que as coisas mais simples da vida são as que mais nos realizam, ainda que sejam rotineiras. A questão é o sentido que damos para aquilo que fazemos, temos, recebemos. O simples e rotineiro gesto de tomar um copo de água, se quisermos, pode ser muito gostoso, basta nos concentrarmos na “delícia” da água.  São estas coisas simples que nos realizam como pessoa. Quem é capaz de ver a beleza das coisas simples saberá enxergar a beleza das coisas grandes e nobres. Tudo depende como você olha. Não vale complicar para parecer gente grande.
Algo que não esqueço, é que nós, que nos consideramos adultos, buscamos muitas coisas e coisas grandes para parecermos felizes, sendo que a felicidade está no jeito de como vemos as coisas e não nela própria. Perguntado sobre o que mais lhe dava saudade, um certo bispo respondeu aos repórteres: “A minha infância. Porque naquela época qualquer coisa era motivo de alegria, ainda que fosse uma bala que meu pai dava. Hoje, parece que nada mais me realiza”. Complicamos até para ser feliz. É coisa de gente grande!
Ao pensarmos na nossa vida, nos daremos conta que o belo não pode ser visto apenas pelos olhos humanos, mas pelo nosso coração, pois o Belo pertence a Deus e Deus habita em nosso coração. A beleza de uma amizade, por exemplo, o seu significado é compreendido pelo nosso coração. Aos olhos humanos uma flor pode ser desprezível, porém, quando darmos atenção e valor perceberemos que ela têm uma beleza especial e única, como a flor do nosso principezinho.
Cada pessoa humana carrega seus segredos assim como o deserto. A grandeza está no fundo do deserto, no coração das pessoas. Essa beleza pode ser descoberta quando dermos tempo para a pessoa se abrir para nós e a acolhermos como ela é.
Muitas pessoas vivem sem amigos e tantos casamentos são desfeitos porque somos muito imediatistas e nos acostumamos a coisificar as pessoas. Queremos tudo para “ontem”. A pessoa não é mercadoria nem objeto de uso; muito menos um computador onde você acessa  quando quer, o que quer e quando precisa. Nós temos um tempo, cada um o seu, e precisamos ser respeitados neste tempo que é único. Quem sabe esperar vai ter um grande amigo, uma grande e nobre pessoa caminhando consigo. Todas as pessoas são nobres em seu interior tantas vezes desconhecido, desrespeitado, machucado. Só o tempo dá respostas ao ser humano.
Quando descobrimos coisas valiosas em nossas vidas, precisamos ter coragem de “perder tempo” com elas. Quando encontramos amigos de verdade precisamos ter coragem de deixar tantas coisas inúteis que nos aprisionam e conviver com eles. Assim como o Pequeno Príncipe se foi, um dia essas pessoas, essas coisas que temos se vão e o que restará serão os momentos bem vividos e convividos com as pessoas ou o ressentimento de não termos vivido bem aquele momento com as pessoas que estávamos. O restante é inútil. Descobriremos isso um dia. O amor que semeamos, a amizade que cultivamos, a verdade que dissemos, o carinho que doamos, o tempo que passamos conosco mesmo, com nossos amigos, com quem amamos ficará. O restante é inútil e passageiro. Felizes de nós se nos dermos conta disso em tempo, aí então, poderemos dizer que VIVEMOS e nossos descendentes nos chamarão de sábios e assim ficaremos guardados para sempre em seus corações, porque soubemos viver a vida verdadeiramente.
Tudo passa. O amor permanece. Ame e serás feliz!
Agora começo a mudar;
Agora começo a reescrever minha vida, minha história;
Agora começo de novo;
Agora começo a amar de verdade;
Agora começo a entender a vida, a beleza da vida que tantas vezes complicamos para parecer adultos, deixando de viver sua beleza.

Ainda um dia espero compreender melhor este livro, a minha história, a vida e escrever de novo...

*****

Hermes José Novakoski
Farroupilha, 2006

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Hermes José Novakoski
Enviado por Hermes José Novakoski em 21/11/2006
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