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Doutores lá e cá


     Igual aos do Brasil, os intelectuais da Índia são malucos por doutorados. Lá, tal como aqui, há doutores para tudo, desde “Moléstias não-existentes”, “Letras apagadas” até “Ciências ocultas” e outras “especializações”. Lá os doutores o são por conquista, em doutorados de fato, diferente daqui, onde qualquer bacharel se auto-intitula “doutor”.

     Parto do pressuposto que “doutor” é quem possui o laurel de um doutorado, e não a simples conclusão de um curso superior. Naquela bela nação asiática existe a maior concentração per capita, de doutores, do planeta. Nem por isso, lá como aqui, tantos títulos acadêmicos têm ajudado a tirar o país da miséria e da ignorância. Trata-se de um país de belezas e contrastes.

     A elite social levou o país ao clube nuclear, mas não conseguiu tirá-lo do Terceiro Mundo. A miséria do povo contrasta com a corrida armamentista do governo, com o luxo da elite, e riqueza dos templos. Enquanto o povo passa fome, vacas, macacos e bois andam soltos nas ruas, não é permitido comê-los pois pode se tratar da transmigração (uma espécie de reencarnação budista) de algum antepassado.

     Recentemente, no terreno político, a Índia teve um avanço. Como todos sabem, desde 1500 a .C. a sociedade indiana é estratificada em quatro classes sociais, chamadas castas. Nessa conformidade, temos os brâmanes (intelectuais e sacerdotes), os xátrias (governantes, políticos e militares), os sudras (artesãos, operários e servos) e os párias (pessoas sem classe social, também conhecidos como “intocáveis”). A Índia possui um título que muito desagrada os americanos: a maior democracia do mundo. Desde que se tornou república, em 1947, seus 800 milhões de habitantes (15% da população mundial), elegem governantes, legisladores e magistrados.

     Há dois anos “a maior democracia do mundo” deu um exemplo admirável de quebra de preconceitos, elegendo pela primeira vez, um pária, à presidência da República. Tantos doutores e um marginalizado assume o poder. Avança a democracia, caem as barreiras sociais e, talvez por aí, o populoso país da Ásia começa a encontrar seu caminho de desenvolvimento.

     Se alguém obtém um título de “doutor”, não deve usa-lo para sua ostentação ou vaidade, mas para o bem de todos. Ainda mais se foi obtido através de bolsa ou universidade gratuita.

     Diferente do Brasil, onde as pessoas pobres, autênticos párias, mas paradoxalmente elitistas, se deixam seduzir por falácias, votando em membros de outras castas que, depois de subirem ao poder, tornam o povo cada vez mais excluído, na Índia, se um pária experimenta uma mudança social, usa-a para melhorar as condições de vida de seus pares.

     A casta superior, geralmente vira as costas aos que cometeram o equívoco de os eleger. A maioria dos doutores e homens públicos do Brasil só governa, legisla e julga em favor de sua própria casta. Isso faz a democracia vacilar. Aqui as castas superiores desprezam os parias, que – paradoxalmente – têm prazer em votar em alguns “doutores” de meia-tijela.






Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 22/11/2006
Código do texto: T298167
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão