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É Fácil Ser Escritor



Não se espantem! Este título não é um dito xistoso e proposital de um autor Prêmio Nobel de Literatura, não! Trata-se de uma constatação realizada, sim, por um escritor, porém, desses amadores que nem sequer teve uma poesia publicada num caderno de leitores de um jornal na edição de domingo.
Foi-se o tempo em que para ser escritor era necessário que o candidato tivesse, no mínimo, uma mente brilhante capaz de desenterrar do nada, intrigas perfeitas, espionagem internacional, tráfico, escândalos políticos, crimes perfeitos, em fim, enredos estes que se encontram abundantemente nos autores das décadas de 70 e 80, como Graham Greene, Johannes Mario Simmel, John Lé Carré, Arthur Hailey, Sidney Sheldon, Günter Crass, Frederick Forsyth, Harold Robbins, só para citar alguns.
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(este parêntese é realmente necessário:
Na supracitada lista encontram-se três escritores que podem ser devidamente classificados como injustiçados pela crítica. Aqui estão eles: Johannes Mario Simmel, Harold Robbins, Frederick Forsyth.
Começando por Harold Robbins e Frederick Forsyth, posto que seus estilos são similares, deve-se ressaltar que a qualidade literária das suas obras em nada se iguala à de escritores como José Saramago, Jorge Amado, Jorge Luís Borges, literatos estes que foram contemporâneos àqueles. Colocar lado a lado, na estante, Harold Robbins e Thomas Mann é realmente um sacrilégio, do ponto de vista estético e do acabamento da obra. No entanto, se levarmos em consideração que para se produzir uma obra de arte é imprescindível a presença da criatividade, Robbins e Forsyth, sobem, fatalmente, alguns pontos no ranking da literatura, visto que pouquíssimos escritores, souberam tão bem tramar uma urdidura e narra-la com precisão como eles. Que a qualidade artística dessas obras deixa a desejar, não resta dúvidas, mas o fato de escritores tão laureados pela crítica como William Faulkner, nunca terem, sequer, sobrevivido da escrita de seus livros, tal o repúdio do público ante livros tão herméticos, os fizeram voltarem-se mais para o leitor que para um simples comentarista de um veículo famoso, que na maioria das vezes, nem gosta de ler ou o faz à força, somente para se embasar quanto às análises que escreve.
Numa época em que a falta de criatividade assola de maneira crônica um dos escritores mais lidos do Brasil, Paulo Coelho, exímio plagiador; arremete escritores a tocar em assuntos tão chibateados como o tema do alardeado “Código Da Vinci”, que se não fosse alicerçado em questões tão polêmicas como a sexualidade de Jesus, as corrupções da Igreja, etc., não teria vendido um exemplar sequer, pois já se escreveu muitos livros péssimos nesta época de incompetentes observadores, porém o “Código Da Vinci” está de parabéns, Harold Robbins e companhia merecem ser saldados com salamaleques.
Johannes Mario Simmel é um caso à parte, apesar de sua verve conter muitos elementos utilizados pelos outros dois escritores citados. A obra de Simmel é singular porque cheira à saúde quanto aos sintomas da boa arte de compor. Lá estão contidos os mesmos problemas dos seus correligionários, porém com toque elegante de reflexão humanística e preocupação social, seria temerário compara-lo a Charles Dickens, entretanto é impossível ler seus livros sem rir e chorar ao mesmo tempo.)
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Um contemplador sutil pode perfeitamente retirar da nossa realidade material para iniciar uma narração, sem precisar acrescentar muitos floreios, e tornar-se um imortal. A humanidade, ainda que grotesca, delicia-se quando se vê retratada. Como reencontrar um amigo distante é a sensação de descobrir num livro uma estranha semelhança entre o vilão da história e o prefeito da nossa cidade, um empresário da capital ou o próprio vizinho. Perdeu-se totalmente a noção das bandeiras limítrofes do absurdo e do ridículo no âmbito do comportamento humano. Recentemente a legião de leitores de Günter Crass horrorizou-se com suas declarações de ter feito parte do alto escalão do Nazismo. As máscaras não conseguem mais se manter fixas e castelos milenares estão caindo em fração de segundos.
Os autores hodiernos, infelizmente, não são dotados do faro de Balzac ou Flaubert, insinuam mais do que denunciam; quando muito denunciam de maneira pouco científica ou histórica como tentou fazer Dan Brown. A literatura engajada, verdadeira literatura, deve ser a arma a favor dos menos representados seja devido à diferença de classes, religiosas ou ideológicas.
O capitalismo, mosca varejeira dotada de um terrível veneno que a tudo empesta onde pousa, têm trocado beijos e abraços com o mercado editorial alimentando a alienação geral. É incrível mais facilmente se encontram nas estantes das livrarias fantasias mirabolantes escritas como os livros de auto-ajuda tão cultuados, quando seria muito mais simples fazer uma descrição concisa da realidade para que o próprio leitor pudesse julgar por si só, em vez de ficar constantemente tentando induzi-lo como se ele fosse um cego.
A corrida pelo status têm feito com que muitos escritores façam uso dos recursos literários de uma escola que nunca deixou de influenciar em tempo algum da história, o cinismo. Além disso, a senilidade de alguns grandes mestres das nossas letras contemporâneas tem deixado angustiado o universo dos leitores, que em tempo brevíssimo, estarão praticamente sem opções de leitura. Sublinhem-se alguns escritores alemães que atualmente andaram publicando livros que nada têm de maturidade, mas sim de superficialidade, exceção para Günter Crass que lançou sua belíssima autobiografia.
É muito fácil ser escritor, difícil é ser justo e coerente com aquilo que se escreve.

Aracati-Ce, 14 de setembro de 2006.

                                               André Breton
                            Acesse: o-arqueiro.blogspot.com
André Breton
Enviado por André Breton em 24/11/2006
Código do texto: T299913

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Sobre o autor
André Breton
Aracati - Ceará - Brasil, 31 anos
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André Breton