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Dando Qualidade de Vida a um Cão Especial
 
1. Introdução:


Há muitos anos, li um texto interessante em que o autor traçava um paralelo para a experiência de ser pai de uma criança especial: é como se você se preparasse para conhecer um país, traçasse roteiros, comprasse a moeda local, aprendesse a língua e, quando desembarcasse do avião, estivesse em um outro lugar, completamente diferente. Após o primeiro susto e a necessidade de adaptação, você começaria a perceber que este outro país também tem muitas belezas, uma cultura fascinante e que valeu a pena conhecê-lo.
Com os bichos, não é muito diferente. Assumir a responsabilidade sobre um cão especial é, ao mesmo tempo, assustador e mágico, como deve ser assustador e mágico desembarcar num lugar estranho, onde será necessário aprender a se virar. O objetivo deste texto é oferecer justamente um guia para esta viagem, onde a paralisia dos membros posteriores é apenas um dos problemas decorrentes de uma lesão grave na coluna. Nos itens a seguir descrevo cada um deles e apresento algumas soluções para resolvê-los, a partir da experiência de pessoas que já trilharam esse caminho antes e de orientações obtidas com profissionais de saúde animal.



2. Incontinência:
 
2.1. O problema:


Um problema frequente em animais com lesão na coluna é a incontinência, ou seja, a incapacidade de controlar urina e fezes.
Cães, às vezes, esfregam-se em carniça ou excrementos de outros animais, numa tentativa atávica de disfarçar o próprio odor. Por serem animais carnívoros, utilizam este recurso ancestral para facilitar sua aproximação da caça – mesmo que a coisa mais próxima de “caça” que ele conheça seja um calango na parede.
Fora esses casos, eles são animais muito higiênicos e raramente fazem suas necessidades fisiológicas em suas camas ou próximo ao alimento e água. Um cão adulto e saudável mesmo em agitada brincadeira ou briga, dificilmente pisará ou sentará sobre excrementos. Filhotes são mais estabanados, mas logo aprendem a evitar a sujeira.
Então, é fácil entender porque é tão importante redobrar os cuidados com um animal incontinente. Como ele não tem controle sobre o momento e o local em que fará suas necessidades, o ambiente em que vive, come e dorme ficará desconfortável para ele se não for frequentemente limpo. Pior: por se arrastarem, muitas vezes, eles acabam por se sujar também. Tenho a impressão de que o animal desconhece sua paraplegia. Assim, eles parecem acreditar que estão passando “sobre” as fezes ou urina quando, na verdade, estão esfregando-se nelas.
O mau cheiro atrai moscas e outros insetos prejudiciais à saúde do animal e a urina, muito ácida, pode provocar assaduras que, se não cuidadas, progredirão para feias feridas. A combinação de feridas e moscas é muito perigosa, pois estes insetos oportunistas aproveitam a lesão para depositar seus ovos que se converterão em larvas vorazes, provocando miíase. “As lesões em que as larvas se encontram não cicatrizam e, com isso, atrairão mais fêmeas adultas da mosca, que depositarão mais ovos, agravando progressivamente o quadro. Em função da rapidez da evolução da doença, bastam apenas poucos dias para que o animal apresente-se severamente afetado, muitas vezes de forma irreversível. Animais com extensas áreas do corpo tomadas pelas larvas emagrecem muito, ficam apáticos e com febre, podendo inclusive vir a morrer” (http://www.vallee.com.br/doencas.php/7/9).
 
2.2. As soluções:


A espremidinha: aplicar pressão com as mãos sobre alguns pontos específicos da virilha do animal esvazia a bexiga e o intestino. Isto pode ser feito na grama, sobre um jornal ou até mesmo diretamente no vaso sanitário, num processo bastante higiênico. Pode ser feito com o animal deitado de lado ou em pé. Em ambos os casos, deve-se procurar calçar as costas dele para evitar que a pressão exercida no abdômen agrave a lesão na coluna.
A frequência depende muito de cada animal e pode mesmo variar de um dia para outro, pois no calor ou após alguma atividade, ele bebe mais água e, consequentemente, irá urinar mais.



Massagem: como uma alternativa à espremidinha, pode-se provocar a eliminação da urina e das fezes do mesmo modo que a cadela faz com seus filhotes durante os primeiros dias de vida. Usando um pano úmido massageie a vulva ou o pênis do animal delicadamente, como se estivesse secando-a(o). Havendo urina na bexiga, após algumas repetições deste movimento, ela será expelida. Para eliminar as fezes exerça pressão com as pontas dos dedos em pinça na área periférica ao ânus.
A prática conduz à perfeição e, após algumas repetições dessas operações, será possível, inclusive, perceber se ainda há matéria fecal a ser expelida.




Fraldas:com as mesmas vantagens e desvantagens de seu uso para um bebê humano, as fraldas oferecem um bom recurso para manter o animal limpo e seco. Porém, seu custo é alto, é preciso trocá-las sempre e podem provocar assaduras.


Camas absorventes: para evitar que o animal fique deitado sobre a própria urina, expelida durante o sono, utilize material absorvente em sua cama. Um cobertor velho, jornais, papelão, tapetes higiênicos. Qualquer coisa que possa absorver rapidamente a umidade. É importante que se adotem algumas formas de garantir que o material usado não será embolado quando o animal se arrastar sobre ele. Uma armação em ferro de construção (do fininho) que possa ser envolvida pelo cobertor é uma alternativa. Outra é colocar pesos sobre suas pontas.


 
3. Feridas, Mutilação e Automutilação


3.1. O problema:
Por não terem o reflexo chamado de dor profunda nos membros traseiros, animais paraplégicos tendem a se machucar seriamente, chegando a perder dedos e até partes das patas ao arrastar-se no chão. Asfalto e calçadas de cimento são verdadeiras lixas, capazes de rasgar couro e carne em pouco tempo. Pode parecer mesmo uma bênção não sentir dor nesses casos, mas feridas abertas são um convite para parasitas e, o cão, atraído pelo cheiro da carne infeccionada tende a se automutilar.



2. As soluções:


Curativos: lavar bem a ferida com soro fisiológico, limpar com uma gaze, eliminando qualquer resíduo de carne necrosada ou casquinhas. Em seguida, aplicar pomada cicatrizante para uso veterinário (Bandvet). Envolver com atadura e fixar com esparadrapos, se possível, evitando a pele do animal.


Ambiente: o piso do local reservado ao animal deve ser liso, mas não muito, pois ele precisará de alguma resistência para poder puxar-se com as patas dianteiras. Grama também é uma opção agradável de contato para o animal que se arrasta, mas é preciso tomar cuidado pois eles tendem a queimá-la nos lugares onde ficam ou circulam mais e a terra nua também pode machucá-los.


Roupas: se o animal tende a se machucar sempre nos mesmos locais, é possível criar peças de roupa em material resistente e acolchoado para protegê-los, como as joelheiras ou caneleiras dos jogadores de vôlei ou de futebol ou ainda as calças de vaqueiro. Será preciso avaliar qual peça se adaptaria melhor e encontrar a melhor forma de fixá-la, lembrando-se que o ideal é que seja um material lavável, especialmente se o animal for incontinente. Neste caso, é necessário que seja um material poroso (uma telinha metálica, por exemplo), para que a urina não fique represada em contato com a ferida e a pele.

4. Locomoção:


4.1. O problema:


Cães são animais sociais, curiosos, brincalhões e cheios de energia. Quando não conseguem conviver com outros cães ou pessoas, passear, cheirar tudo o que vêem, brincar e gastar sua energia, ficam ansiosos e depressivos, o que pode provocar irritabilidade e brigas, agravar os quadros de automutilação ou baixar sua imunidade, tornando-os mais sujeitos às doenças oportunistas.


4.2. As soluções:


Cadeirinhas de roda: existem várias opções de custo e qualidade. As mais caras e melhores são fabricadas na Chapada Diamantina - Vida Sobre Rodas (http://www.vidasobrerodas.com/) ou Botucatu - Vetcar (www.vetcar.com.br/) e podem custar entre R$ 300 e R$ 600 (mais frete), dependendo do tamanho do animal e do modelo desejado. São muito leves, estáveis e as partes onde o cão se apoia são revestida em espuma, o que torna o contato mais confortável.



Tem alguns defeitos: o maior deles é o uso de miçangas simples para travar os cordões ajustáveis, ao invés de ponteiras com travas. Sem oferecer resistência, as miçangas permitem que o suporte das patinhas traseiras se abra, e elas acabam ficando soltas ou penduradas. Também utiliza tiras de amarração em nylon, que o cachorro pode roer e o fará sempre que cair e não for logo socorrido, pois ficará aflito para se livrar da cadeirinha. Finalmente, como eles normalmente são incontinentes, o revestimento de espuma está sempre fedendo a urina, por mais que se lave.



Um bom serralheiro pode fazer uma cadeirinha razoável por um valor bem inferior. Esta, que a Cacau (em foto gentilmente cedida pela BsbAnimal) está usando foi feita por Marcos Giron, já conhecido em Brasília.

Existem pessoas que fazem cadeiras em PVC para doação:




Para quem dispõe mais de tempo e boa vontade do que de dinheiro, existe a solução “faça-você-mesmo”. Por aproximadamente R$ 80,00, pode-se adaptar um carrinho de feira ou de mala que, com alguns clips metálicos, abraçadeiras e um pedaço de ferro de construção de 5/16 ou 3/8 (dependendo do porte do animal), ficará bastante funcional. Para completar, tiras de tecido acolchoado e forte para fixar o animal ao carrinho, que podem ser substituídas por elásticos largos, magueira, coleiras ou peitorais de mercado. É importante que o carrinho usado possua um eixo largo, ou seja, haja uma boa distância entre as rodinhas, para aumentar a estabilidade. Caso não seja encontrado um carrinho assim, um pedacinho de ferro pode ser soldado ao eixo, para aumentá-lo.


A cadeirinha de rodas é um recurso interessante para lhes dar alguma independência e permitir a interação com humanos e outros animais, mas tem a desvantagem de não permitir que ele se deite muito bem com elas, inviabilizando o repouso. No caso de terrenos muito irregulares, animais agitados ou filhotes que ainda não desenvolveram completamente sua coordenação motora, também é preciso monitoração constante no uso da cadeirinha, pois as quedas são frequentes e, se o resgate demorar muito, eles podem se machucar.
Existe um grupo no facebook para doação de cadeira, mas foi meio desvirtuado com todo tipo de pedido de ajuda. De qq modo, vale postar lá o seu pedido. Quem sabe alguém tem uma para doar?
 
Veja também:
https://sites.google.com/site/saudecanina/artigos-uteis-aos-leigos-e-aos-veterinarios/cadeira-de-rodas-para-caes-como-construir-e-onde-comprar

Marcha reflexa: há alguns anos, um animal paralítico seria automaticamente condenado à eutanásia. Hoje, a ciência médico-veterinária tem evoluído muito na busca de tratamentos que permitam uma sobrevida maior e plena de qualidade para ele. Recursos como a fisioterapia e acupuntura permitem ao animal com lesão grave da coluna desenvolver a chamada Marcha Reflexa, um caminhar meio desengonçado, em que as patas traseiras parecem amarradas às dianteiras, mas sempre é muito melhor do que o arrastar-se ou o uso da cadeirinha. Nem sempre irá funcionar, depende do animal e da lesão que ele apresente. O ideal é procurar um veterinário especialista em fisioterapia veterinária.


Neste vídeo, Laila tinha cerca
de cinco semanas
de fisioterapia.

Carrinho de mão: segurando as patas traseiras com as duas mãos, é possível faze-lo andar com as patas dianteiras. É uma forma de fazê-lo se exercitar um pouco ou simplesmente, levá-lo de um lugar a outro, sem precisar de colinho. Quando a lesão afeta mais um dos lados do corpo do que o outro, pode ser melhor manter as pernas dele abertas, reduzindo a tendência de tombar de lado e aumentando sua estabilidade. A desvantagem é que se ele for um cão muito pequeno em relação ao seu guardião, este acabará com dores na própria coluna.
Os veterinário aconselham moderação nesta técnica, que também pode agravar as lesões medulares, se não for mantido o alinhamento da coluna.



Sacolinha: uma coleira peitoral pode ser amarrada na traseira do cachorro, que será carregada como uma sacola, enquanto ele caminha usando as patas dianteiras. Para ajudar a manter o controle da situação, uma coleira no pescoço irá tornar mas fácil coordenar os movimentos dele.



Colinho: quem não gosta? A maioria dos cães vai adorar ser carregado para aqui ou ali por seu amado guardião. Apenas é importante tomar o cuidado de sempre manter a coluna dele na horizontal, para evitar novas lesões.



5. Conclusão
Seja um animal de estimação que se acidentou, seja um animal adotado já com a paraplegia, a última coisa que ele precisa é que sintam pena dele. Com os cuidados adequados, ele poderá ter uma vida muito divertida, saudável e feliz.
Para o guardião, restarão as lembranças de uma viagem fascinante a um país completamente diferente, onde se comemore cada pequeno passo, onde uma simples brincadeira com bola pareça um pedacinho do céu.





Nena Medeiros
Enviado por Nena Medeiros em 30/05/2011
Reeditado em 30/06/2012
Código do texto: T3002506
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Sobre a autora
Nena Medeiros
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