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Berimbau, a genial composição de Baden e Vinícius


  Os músicos, os pintores, os escritores, os atores, os bailarinos, enfim todos os profissionais que mexem com arte temperam a vida. Sem esses sensíveis seres humanos o mundo seria feio, cinza, sem graça.
  Porque os homens e mulheres sensíveis são capazes de olhar a vida de forma diferente, comunicando: "Um dia, pretendo construir livros nos quais as crianças possam morar" (Monteiro Lobato), "Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz" (Gonzaguinha), "No momento em que nos entregamos às nossas afeições, a terra se metamorfoseia" (Emerson), "As rosas não falam, as rosam simplesmente exalam o perfume que roubam de ti" (Cartola), "Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós. Tenho que apagar a luz; tenho que calar a voz; tenho que encontrar a paz" (Gilberto Gil) e "Pois há menos peixinhos a morar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca" (Vinicius de Moraes).
  Eu poderia citar centenas de frases e versos fantásticos, ou falar sobre telas que nos remetem a jardins incríveis, agitando as nossas sinapses e até gritando que a Natureza é linda e merece ser celebrada, como os quadros de Raquel Taraborelli, a pintora sorocabana que seguiu os passos de Monet e valorizou as flores com cores pinceladas em suas obras.
  Na abertura da Semana do Escritor, na Fundec - Fundação de Desenvolvimento da Cultura de Sorocaba, Douglas Lara reuniu dezenas de pessoas. E a festa teve a presença marcante do "Madrigal da Uniso", comandado pelo maestro Cadmo Fausto Cardoso.
   O show foi fantástico. Mesmo para um público exigente e que assiste com freqüência grandes espetáculos. As vozes, afinadíssimas, ocuparam o espaço. E espalhou-se música de qualidade pela rua Brigadeiro Tobias, no centro de Sorocaba. Os cantores transformaram-se em pássaros, cada qual sincronizado em seu tempo, enquanto o maestro não escondia sua expressão feliz com o resultado final.
  Eu fiquei entusiasmado e lembrei-me do maestro Hervê Cordovil, pai do Ronnie Cord, o primeiro roqueiro brasileiro "que entrou na Rua Augusta a 120 por hora". Recordei o verso de Cordovil na canção em que ele homenageou Walt Disney, nos anos 60: "Eu ouço vozes, ao vento, cantando..." Sai do prédio da Fundec e levei os sons do grupo vocal.
  O espetáculo mexeu comigo principalmente por apresentar "Berimbau", de Baden Pawel e Vinicius de Moraes. A letra é obra prima. Veja só:
  "Quem é homem de bem não trai/ o amor que lhe quer seu bem" - estes versos de rara felicidade, mostram a necessidade do comprometimento para se construir o encontro ideal. Uma verdadeira aula de filosofia de vida. E, na seqüência, os autores chamam a atenção sobre as falsas promessas: "Quem diz muito que vai, não vai/ assim como não vai, não vem". Vinicius e Baden continuam a canção, sempre na batida marcante do berimbau, descrevendo a arte de amar: "Quem de dentro de si não sai/ vai morrer sem amar ninguém". Isso é perfeito, porque todos nós, para amar verdadeiramente, precisamos abrir o coração e desabrochar. Sair de dentro de si é necessário, para compreender, aceitar e viver um grande amor.
  Quem se fecha, jamais pode descobrir as delícias do sentimento maior. E "Berimbau" continua viajando em poesia: "O dinheiro de quem não dá/ É o trabalho de quem não tem". Ou seja: se você não faz seu dinheiro girar e é avarento, apenas provoca desemprego, miséria e sofrimento. E a música se completa exaltando que, no jogo da vida, muitas vezes uma batalha pode ser perdida, mas deve ser perdida com luta, coragem e dignidade: "Capoeira que é bom não cai/ Mas, se um dia ele cai, cai bem".
  O maestro Cadmo chamou a atenção dos presentes para as belezas que a música brasileira contém, mas lamentou que ela esteja cada vez menos presente nas emissoras de rádio e TV. Por isso, fez um apelo: "Desliguem seus aparelhos quando surgirem apenas músicas estrangeiras e usem todas as ferramentas para que a nossa música seja tocada, o que também garante emprego aos poetas, músicos, cantores..."
  A Semana do Escritor de Sorocaba, criada por Douglas Lara, é uma semente plantada com humildade e entusiasmo. Humildade porque, num mundo que a ganância procura acinzentar, Douglas reuniu escritores, poetas, músicos e outros artistas para saborearem a vida. Procurou um por um, dando a cada artista a valorização merecida.
  Formou, assim, a realização do sonho comum. O entusiasmo contagiou a todos e esse evento já é sucesso na "Cidade Educadora". Escritores de cidades distantes prestigiam a festa e promovem o congraçamento, com trocas de experiências. O bem também se espalha.
  No encontro, todos saem de si. Transbordam e espalham o que todo ser humano reúne de melhor: o talento.
  Com certeza, todos que participaram, expondo talento ou conhecendo, como visitantes, os talentos ali presentes, já não são mais os mesmos. Estão ricos de informações e satisfeitos com o sucesso. Porque como ensina o "Berimbau": "Capoeira me mandou dizer que já chegou/ chegou para lutar". E a gente reunida por Douglas Lara não foge à luta.

8/8/2006 Rui Albuquerque
http://www.bomdiasorocaba.com.br/index.asp?jbd=2&id=124&mat=37023

 
Douglas Lara
Enviado por Douglas Lara em 24/11/2006
Código do texto: T300444
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Sobre o autor
Douglas Lara
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 78 anos
517 textos (131722 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 04:59)