Fronteiras e Arena Literária

Nacionalismos, assim como religiões, têm até prós em certa medida, reconheço. Em exagero, no entanto, só tendem a prejudicar. E nacionalismo em Literatura (fundamentalismo em geral) vejo como sinônimo de idiotice — e quando penso em nacionalismo recordo Policarpo Quaresma, ou ‘o Ubirajara’, personagem de Lima Barreto que gostei muito de conhecer. O ser humano e sua literatura são universais. O que ocorre é que certas pessoas tentam impor aos outros suas fronteiras, coisas que exploradores bem sucedidos afirmaram jamais terem visto na vida real, sendo, portanto, fruto da imaginação de cada um.

Por isso eu costumo ler de tudo, e dou preferência aos originais. Recorro às traduções quando não há outro jeito, ou desconheço a língua, e ainda assim com um pé atrás. Sei que tradução é um processo complicadíssimo e, fora as limitações e particularidades de cada língua e visões de mundo, errar é humano. A reputação do autor ou autora me serve de guia, algumas vezes também a de editores. Leva-se muito tempo para se construir um nome, por isso este critério.

Escrevo sobre isto após ter lido defesas a um tipo de nacionalismo literário: ‘Aqui só entra literatura nacional!’ Claro que se deve valorizar e dar preferência à produção local, porém mantendo um olho bem aberto para o resto do mundo. Muitas vezes, descobrimos mais sobre nós mesmos e nossa cultura a partir de um olhar estrangeiro. Quando vivia no Brasil eu era só brasileira. Vivendo na Alemanha tornei-me latino-americana, cidadã do planeta. À distância, tive (e estou tendo) oportunidade de conhecer melhor nossos vizinhos, nossos problemas e mentalidades, e isso tem sido enriquecedor.

Por isso me alegrei com a escolha de Vargas Llosa para o Nobel, com a exposição da Argentina na Feira do Livro em Frankfurt, com os jornais do mundo elogiando o Brasil no final dos anos-lula, sem ocultar os problemas, claro. Alegrei-me até com a publicação de poemetos de Marilyn Monroe, num caderno especial de El País; também com o aparente aumento de consciência, responsabilidade política e ecológica de cidadãos no mundo inteiro, enfim: com a quantidade de ótimas publicações disponíveis hoje, e de graça, na internet. As besteiras abundam, é verdade, e como na TV, há que se saber procurar.

Falta visibilidade para bons autores em língua portuguesa, novos e antigos; verdade. Se em certos sites muitos ficam escondidos, dirá na rede mundial, onde o Português, venhamos e convenhamos, perde em popularidade para línguas como Inglês e Espanhol. Esses autores, via-de-regra, não têm apoio de ninguém, muitas vezes nem da própria família e dos amigos, e é difícil construir um nome, manter ideais livres da armadilha de querer agradar a certos públicos. Mesmo assim, na hora de selecionar bons textos o critério deve ser, sobretudo, literário, e não político, nacionalista ou outro qualquer.

Ser escritor não tem nada de glamour, sem falar que o mundo literário está cheio de gente mesquinha e vazia, mas que sabe influenciar. Um respeitado critico literário alemão disse, certa vez: "Quem não viveu entre literatos não sabe o que é odiar", não com estas exatas palavras, mas neste sentido. Se isto for verdade, pena, pois ver o meio literário como uma arena desestimula a participação de quem ama a Literatura e não deseja aprender a odiar. Ódio, inveja, mágoa e outros sentimentos negativos destroem quem os carrega e só causam danos aos demais.

Ignorar pessoas e opiniões maldosas no meio literário trata-se de uma escolha pessoal, escolha essa que me faz sonhar com a vitória da Literatura, da boa sobre a má, como venceu a de Llosa e a de tantos outros, como vence a de bons autores surgidos a cada nova geração, buscando sua voz e dispostos a brincar com palavras (porém com seriedade), também a fugir de realidades e padrões, a contar suas boas histórias, ou, simplesmente, a se aperfeiçoarem na arte de escrever. Enfim, na vitória de uma literatura que vive por si só, não se deixa comandar, e, muito menos, restringir.

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