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O abrigo do nosso egoísmo é um abrigo subterrâneo

Por Edison Evaristo Vieira Junior

Certa vez, em uma reunião de trabalho, foi ministrada uma dinâmica de grupo intitulada “abrigo subterrâneo”, onde um grande grupo foi dividido em sub grupos e cada sub grupo recebera um pequeno papel, com o conteúdo do texto a ser trabalhado na dinâmica. Ei-lo:

“Imagine que nossa cidade está sob ameaça de um bombardeio. Aproxima-se um homem e lhe solicita uma decisão imediata. Existe um abrigo subterrâneo que só pode acomodar 06 pessoas. Há 12 que pretendem entrar. Abaixo há uma relação das 12 pessoas interessadas a entrar no abrigo. Faça sua escolha destacando tão somente 06.
• Um violinista, com 40 anos de idade, narcótico viciado;
• Um advogado com 25 anos de idade;
• A mulher do advogado com 24 anos de idade que acaba de sair do manicômio. Ambos preferem ficar juntos no abrigo ou fora dele;
• Um sacerdote, com a idade de 75 anos;
• Uma prostituta, com 34 anos de idade;
• O ateu, com 20 anos de idade, autor de vários assassinatos;
• Uma universitária que fez voto de castidade;
• Um físico, com 28 anos de idade, que só aceita entrar no abrigo se puder levar consigo sua arma;
• Um declamador fanático, com 21 anos de idade;
• Uma menina, com 12 anos de idade, e baixo QI;
• Um homossexual, com 47 anos de idade;
• Uma débil mental, com 32 anos de idade, que sofre de ataques epilépticos.”

Após um período para a discussão, cada grupo elegera um representante para vir até todos e justificar suas escolhas de quem seriam os agraciados a adentrarem ao abrigo, pois os demais iriam simplesmente perecer do lado de fora vítimas do bombardeio.
As respostas do grupo foram as mais variadas, porém, com o mesmo sentido. Escolhiam-se os mais jovens pelo fato de poderem procriar e dar continuidade à espécie após o bombardeio; excluíam o homossexual, os portadores de debilidade mental e o viciado em narcóticos para evitarem problemas na futura sociedade; outros escolhiam o sacerdote devido a sua experiência; a prostituta também era aceita, mas por ser jovem e poder ainda gerar filhos.
Analisando o conteúdo do texto apresentado aos sub grupos, pensei o quão cruel seria escolher uns e aceitar outros e me coloquei no lugar de uma pessoa que realmente tivesse que fazer escolhas deste tipo, ter a vida de pessoas em sua decisão e não por uma questão de justiça, mas de sobrevivência. Desta forma, propus ao grupo uma forma diferente de ver a questão. A primeira pergunta que fiz foi se os não escolhidos fossem pessoas próximas, aos quais mantivéssemos grandes laços afetivos, como pais, mães, filhos e irmãos, teríamos esta mesma racionalidade na escolha? Depois, como se sentiria se esta menina de 12 anos, excluída, fosse sua filha? Como seria se este homossexual rejeitado unicamente por sua condição sexual fosse seu irmão? Por que deixar morrer a universitária que optou pelo voto de castidade, utilizando seu justo poder de escolha? E se este violinista fosse seu próprio pai?
Estas perguntas levaram todos à reflexão, incluindo a mim, pois muitas vezes damos um tratamento diferenciado para aqueles que não mantém laços afetivos conosco. E não estou me referindo a tratamento mais íntimo, onde é natural haver esta diferenciação, mas no tratamento mais básico de humanidade, como o respeito, compreensão e, sobretudo, empatia.
O nosso egoísmo fica patente quando temos que fazer escolhas difíceis. Temos a tendência de dar preferência para quem amamos em situações de escolhas e decisões, ao invés de procurar a justiça e a responsabilidade. Vê-se, por exemplo, muitos pais não admitirem que seus filhos sejam repreendidos na escola pelo simples fato de serem seus filhos, sem levarem em conta o motivo de tal repreensão e tentarem promover justiça com isto, ensinando que a repreensão foi devido a um comportamento inadequado e que atitudes ruins trazem conseqüências ruins. Observa-se também o nepotismo na politicagem, onde não se avalia a qualificação técnica do sujeito que ocupará determinado cargo e sim o laço afetivo ou o benefício político que tal pessoa pode trazer. Os exemplos podem ser muitos, mas estes servem para mostrar que tipo de sociedade estamos construindo: uma sociedade egoísta.
Por outro lado, temos também a tendência de tratar melhor pessoas desconhecidas e tratarmos não muito bem os mais próximos. Pedimos desculpas ou as aceitamos rapidamente quando se pisa no pé de alguém no trem e ofendemos um irmão que nos esbarrou sem querer na própria casa. Isto ocorre, também, por egoísmo, pois na rua não se sabe a reação do sujeito caso reagirmos raivosamente por ter pisado em nosso pé, mas com o irmão dentro de casa, muitas vezes, aproveitamos a fragilidade do mesmo, ou procuramos motivos para agressões verbais, ao invés do diálogo. Parece que somente nós temos o direito de tratar mal quem gostamos, os outros já não tem este direito, pelo fato de termos inconscientemente a idéia de que o outro é nossa propriedade.
Precisamos começar a ver os seres humanos como nossos semelhantes, como seres que possuem nossas características, nossas vontades, nossos sonhos, anseios e sentimentos.  Cada um dentro de suas vivências e particularidades, as quais devem ser respeitadas e compreendidas. E compreender não é necessariamente aceitar, pois nem tudo do outro temos que aceitar, simplesmente, mas a compreensão adequada leva uma postura igualmente adequada diante de uma situação que não aceitamos.
Ter esta consciência de que o outro possui as mesmas características que a gente, fará com que comecemos a agir de forma empática, isto é, nos colocando no lugar do outro, criando um sentimento coletivo e laços de humanidade cada vez mais fortes. Uma sociedade com laços coletivos fortes torna-se um ambiente bem mais agradável de se viver, onde as conquistas sociais são mais facilmente alcançadas, por exemplo.
Podemos dar inúmeras explicações e justificativas para nossas atitudes egoístas, assim como diante das escolhas de quem entraria no abrigo subterrâneo na dinâmica, pois, as raízes de nosso egoísmo também estão no subterrâneo de nosso psiquismo e muitas vezes ao cavar este subterrâneo, podemos nos deparar com injustiças cometidas que podem nos trazer muita dor, mas que servirão para nosso crescimento.
Edison Evaristo Vieira Jr
Enviado por Edison Evaristo Vieira Jr em 13/06/2011
Código do texto: T3031301
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Edison Evaristo Vieira Jr
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 35 anos
98 textos (26220 leituras)
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Edison Evaristo Vieira Jr



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