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Ambição, ganância e ética

         Tem forte apoio a ideia de que a ambição é uma qualidade que impulsiona o crescimento pessoal, profissional e é uma das responsáveis pelo progresso técnico e científico. De fato, a ambição sempre fez parte da vida humana. Sua total ausência é sintoma de uma apatia, uma acomodação e um conformismo nada saudáveis. Aliás, em se tratando de vida, há sempre uma “dose certa” a ser aplicada. Fora dela, os riscos são inevitáveis.
Desse modo acaba ajudando o ser humano a buscar com mais garra e determinação a realização dos seus sonhos. A ambição empurra as pessoas adiante, seja para conquistar um emprego melhor, comprar um carro novo, uma casa própria, fazer um novo curso...
Mas será que a ambição é sempre boazinha assim? Como já dissemos, depende da dose em que ela é aplicada. Se não é nenhum pecado ser ambicioso, o problema aparece quando passa a ser a razão do nosso existir, crescendo segundo metas olímpicas, levando mesmo a uma perda do seu controle. O ambicioso sem limite acaba ofuscando seus olhos e sua consciência para os demais princípios humanos, tais como a honestidade, escrúpulo, respeito,  bom senso... E caminha para o individualismo...
Como vemos, a ambição pode crescer e chegar a extremos perigosos e incontroláveis... a ganância. Nesse nível, invariavelmente se associa a outros comportamentos não menos nocivos, como por exemplo o egoísmo.
O pior é que diante de um mundo materialista e consumista, são muitas as “vitaminas” oferecidas ao ganancioso que engorda com facilidade e torna-se insaciável.
Assim, diante da ganância é difícil prevalecer a justiça e a ética, o bem e o mal facilmente se confundem e a sensibilidade para com a situação do outro desaparece.
Com a ganância cresce a competição predatória – ou engole ou é engolido...
A ganância supera e anula todas as regras de uma convivência cristã, do respeito pelos limites e direitos do outro, da solidariedade e da fraternidade. Como pensar na promoção do outro, na ajuda desinteressada, no bem comum?
A regra passa a ser superar, vencer, aniquilar, “matar” se necessário; alguém à sua frente incomoda demais o ganancioso...
A encíclica “Verdade na caridade” é um alerta para todos nós sobre o perigo de esquecermos o Deus verdadeiro e sua Verdade, e aderir aos falsos deuses: dinheiro, fama, poder, consumo... orientando nossas vidas segundo suas regras.
Segundo Bento XVI, a corrupção e a ganância devastam o mundo. Deveríamos evitar a impureza, a imoralidade, as paixões, os desejos do mal e a ganância. O objetivo será afastar em nós este desejo insaciável de bens materiais e o egoísmo, raiz de todo pecado.
O Evangelho nos coloca uma grande preocupação em relação aos bens deste mundo, enquanto eles podem dificultar nossa caminhada a Deus e nossa realização humana. E há muita razão nisso; não que Deus seja contra os bens materiais, já que precisamos deles, mas eles devem estar a serviço da vida e não o contrário; é visível que nossa dependência deles adultera gravemente a qualidade dos nossos relacionamentos. É sempre desastrosa a briga pelos bens materiais, infelizmente muito presentes em nossas vidas.
Mais uma vez o Evangelho e a Igreja estão certos: os bens são necessários desde que entrem em nossa vida de forma equilibrada, nem demais, nem de menos. Não ter o suficiente desequilibra nossa vida e nos torna gananciosos pela necessidade; ter demais também desequilibra a vida e aumenta a ganância. Cabe aqui a advertência de Laura Nash – autoridade mundial em ética empresarial - : devemos motivar as realizações de modo equilibrado para que nossos interesses particulares nunca se sobressaiam aos interesses comuns à sociedade. “Temos que restringir o nosso egoísmo.”
Precisamos treinar, como São Paulo que aprendeu a adaptar-se às necessidades; fazer a experiência da “virtude da pobreza” - sentir-se livre diante de todas as coisas materiais... aprender a partilhar...  
Jesus adverte: para caminharmos com Ele não podemos carregar muita coisa; a estrada poderá se tornar muito pesada... Basta termos o suficiente para uma vida saudável e feliz! Além disso, a busca da riqueza a todo custo leva-nos a passar por cima dos valores éticos sem os quais as relações humanas se desintegram.
O dinheiro, entretanto, também pode bem servir a Deus, bastando que seja usado para promover a vida e para criar uma convivência fraterna e justa, para fazer o bem aos outros. Do contrário, ele sempre afasta de Deus.
Valdomiro Carezia
Enviado por Valdomiro Carezia em 21/06/2011
Código do texto: T3048279

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Sobre o autor
Valdomiro Carezia
Itu - São Paulo - Brasil, 70 anos
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