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A escola dos anos dourados - 1ª parte


A adesão do presidente Dutra foi conseguida num lance de ousadia do prefeito Gualberto Moreira e do padre André Pieroni

Anos 50. Sorocaba era cidade grande, mas guardava características de simplicidade e informalidade típicas do interior paulista e do tropeirismo. Era grande pelo número de habitantes, geração de riquezas e equipamento social. A cidade das indústrias (geravam emprego e riqueza) e das escolas (permitiam a instrução e formação de sua juventude) carecia do ensino universitário. Enquanto sua escola médica era sonhada, gestada e parida, bondes circulavam modorrentos desde a Rua dos Morros até o Cerrado; guardas-civis cuidavam da ordem e do trânsito; Jacomino vendia frios e laticínios na Mercearia da Rua Dr. Braguinha. Enquanto faziam barba e cabelo no Caranguejo ou nos Telles, fregueses discutiam instalação da semana inglesa e pasteurização do leite.

Dois jornais tratavam de todos esses assuntos e da política local e seus conflitos. Apesar de pacata, nossa cidade não era amorfa politicamente: partidos proibidos, têxteis e ferroviários costumavam decidir eleições.

Nos matutinos predominavam assuntos locais, como resultados dos exames do Estadão, transcrição das palestras no único Rotary Clube, instalação do Banco do Estado de São Paulo, aprovação do Prof. Arthur Fonseca (em 3º lugar) no concurso estadual de ingresso ao magistério secundário, vitórias do time de basquete. O quinteto formado por Campineiro, Paschoalick, Reinaldo, Didi e Sete Belo era praticamente imbatível no interior paulista. Nilson Ferreira Leão, convocado para a seleção paulista de natação, iniciava carreira de recordista pan-americano.

A Praça Cel. Fernando Prestes era palco do “footing”. Nas noites boêmias, nos bares da moda, podiam-se ouvir os acordes do Luiz Violão, a empostada e afinada voz do Ireno Hansen, e o violino do Vicente Centenário.

Do ponto de vista médico-sanitário, os anos não eram assim tão dourados. O uso dos antibióticos era incipiente e oneroso. Comum propaganda de empresas que se propunham a importar penicilina, estreptomicina e dihidroestreptomicina, ao lado de apelos à caridade pública para aquisição de remédios para tuberculosos pobres. Pernilongos comuns perturbavam o sono dos cidadãos.
O “Aedes aegypti” havia sido erradicado, mas na memória sorocabana continuava vivo o horror à febre amarela e à malária.

Para os 110.000 habitantes, a cidade contava com 430 leitos em 4 hospitais gerais. A construção do Santa Lucinda, doado pelas Indústrias Votorantim, acrescentaria 100 leitos, que iriam servir ao ensino. Médicos de bom nível técnico militavam em suas clínicas particulares e nos iapês. Alguns viriam a participar do corpo docente da faculdade de Medicina. As especialidades, limitadas à Oftalmo-otorrinolaringologia, Dermatologia, Pediatria, Cardiologia, Tisiologia, Radiologia e Análises Clínicas. Ortopedia e Ginecologia-obstetrícia eram exercidas pelos cirurgiões. Anestesias, ministradas por freiras ou pessoal de enfermagem. Sempre que possível, usava-se a anestesia local ou a raquianestesia aplicadas pelos próprios cirurgiões. Inexistia banco de sangue moderno.

Esse quadro limitante da assistência médica seria vencido pela natural evolução da profissão, mas, com certeza, a vinda da Faculdade para Sorocaba apressou o desenvolvimento. Anestesia, Banco de Sangue, Ortopedia, Cirurgia Torácica, Cirurgia Infantil, Anatomo-patologia e outras iriam instalar-se com o funcionamento das respectivas disciplinas na Faculdade.

A esperança de vida era de 55 anos e a razão de mortalidade proporcional (óbitos de maiores de 50 anos) era praticamente a metade da que ocorria na capital do Estado. A mortalidade infantil ficava em torno de 100 por mil.

Nas cidades vizinhas, situação pior: em grande parte dos municípios da região, nem hospital nem médico residente. Ao lado do idealismo dos fundadores, essa constatação constituiu forte argumento na escolha de Sorocaba para sediar escola médica. A interiorização do curso médico poderia resultar na interiorização dos profissionais.
Manchete do “Cruzeiro do Sul” (04/04/1950) alardeava: “O Presidente Dutra concedeu autorização para funcionamento da Faculdade de Medicina de Sorocaba ainda este ano”. A notícia fora dada ao prefeito Gualberto Moreira por Novelli Jr., deputado federal ituano ligado à família do presidente Dutra. O que os jornais não contaram: a adesão do presidente foi conseguida num lance de ousadia de Gualberto Moreira e do padre André Pieroni. No Ministério da Educação, souberam que a faculdade sairia do papel se Dutra concordasse. Fizeram plantão perto do Palácio do Catete, dormindo num táxi. Quando o madrugador marechal Dutra saiu para sua andada matinal, sofreu a abordagem. Eram anos dourados de paz e democracia. Os seguranças, que impediriam a aproximação de qualquer paisano, talvez tenham pensado que aquele padre alto, de batina preta, estivesse a caminho da primeira missa. Nem imaginavam que teria a ousadia de abordar o presidente e entregar-lhe os documentos relativos ao funcionamento da nossa Faculdade.

(Artigo revisto e republicado para homenagear o cinqüentenário de formatura da 1ª Turma 1956-2006, a ocorrer neste sábado, dia 2/12).

Edgard Steffen (edgards@directnet.com.br) é médico pediatra - também formando dessa 1ª turma - e escreve todo sábado neste espaço.

http://www.cruzeironet.com.br/run/3/241908.shl
 
Douglas Lara
Enviado por Douglas Lara em 30/11/2006
Código do texto: T305446
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Sobre o autor
Douglas Lara
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 78 anos
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