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ALERTA TOTAL EM OAXACA

No dia 22 de maio desse ano os professores de Oaxaca, México, saíram em passeata reivindicando aumento de salário, acompanhados por 70 mil pessoas. O governador do Estado de Oaxaca, ( a capital tem o mesmo nome )Ulisses Ruiz, do Partido Revolucionário Institucional - PRI, há 76 anos no poder, o partido do Presidente Vicente Fox, mandou a polícia reprimir a insurreição pacífica. Mataram, feriram, prenderam e fizeram desaparecer centenas de pessoas. Eram jornalistas, fotógrafos, professores, enfermeiros, lavradores, artesãos, comerciantes, funileiros, pedreiros, taxistas, estudantes, adultos, crianças, homens e mulheres. A prisão de Miahuatlan e a Casa Penal de Tlacolula estão cheias. O Governo continuam prendendo, matando e fazendo desaparecer quem apóia a reivindicação dos professores. Na madrugada de 30 de novembro, por volta das 5 horas da manhã, vários ônibus, que se dirigiam a Oaxaca foram parados pela Polícia Federal Preventiva - PFP. Dezessete pessoas foram espancadas e presas pela PFP com a advertência de que não deveriam intrometer-se naquela questão e que tinham ordens para matá-los. Outras pessoas detidas estão desaparecidas.
Os camponeses e os indígenas aderiram ao protesto dos professores e formaram a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca – APPO. Exigem a destituição do governador Ruiz e que Oaxaca seja gerida pelo próprio povo, através de assembléias populares. A repressão está aumentando, e o Governo Federal, disposto a acabar com o movimento está ameaçando mandar agora soldados do exército mexicano.
Todos os anos, no mês de maio, o contrato coletivo de trabalho dos trabalhadores em educação do Estado de Oaxaca é revisto. Nesse ano solicitaram ao governo que, em função do alto custo de vida naquele Estado, os salários de todos os integrantes do magistério fossem equiparados e aumentados em igualdade aos dos demais trabalhadores do resto do país. Muitos professores levam até 18 horas para chegar às escolas – e o mesmo tempo para voltar para casa – e metade do salário é gasto com transporte. Todo o material de que necessitam para ensinar é comprado pelos próprios professores que inclusive pagam os cursos que fazem de capacitação. Mas não é só o aumento do salário que reivindicam os professores de Oaxaca. Querem uma profunda mudança na prática educativa estatal. Há 16 línguas indígenas em Oaxaca e eles não querem impor o Espanhol. Eles ensinam as crianças que elas devem aprender o Espanhol para defenderem a sua própria língua e cultura indígenas. Em Oaxaca os professores aplicam as idéias do renomado educador brasileiro Paulo Freire sem abandonar suas próprias experiências de educação alternativa.
No dia 22 de maio, então, os professores resolveram iniciar uma greve de fome e fazer um acampamento na Praça Central de Oaxaca. No dia 14 de junho, sem nenhuma resposta do Governo às suas reivindicações, 3 mil homens da Policial Federal Preventiva – PFP, por terra, e com helicópteros, com cachorros e gás lacrimogêneo, atacaram a multidão às 4 horas da madrugada. Os professores dispersos voltaram a Praça Central duas horas depois e expulsaram os policiais recebendo assim apoio e a participação de todo o povo. Criaram a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca - APPO que agora quer retirar o Governador do poder. Ao todo 16 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas nesse confronto. Mais de 500 mil pessoas saíram às ruas em protesto. Mesmo assim o Governo não atendeu a nenhuma reivindicação e fecharam a Rádio Plantão e a Radio Universidade, os únicos veículos de comunicação da APPO. Um grupo de mulheres reagiu tomando uma emissora de TV e todas as rádios oficiais. O governo reagiu bloqueando o sinal das antenas. A população de Oaxaca está mobilizada; chegaram a tomar todos os escritórios públicos dos três poderes de Oaxaca; levantaram mais de 1600 barricadas para defender-se da Polícia Federal Preventiva.  A APPO conta com mais de 350 organizações e comissões internas, como as de imprensa, propaganda e barricadas. As decisões são tomadas de maneira coletiva com a participação de delegados. Para formar o Poder Popular em Oaxaca, estava prevista para os dias 8,9 e 10 de novembro passado a realização do Congresso Constitutivo da APPO. Nesse evento discutiriam com delegados representantes de todas as comunidades, sindicatos e organizações populares, plataformas, princípios e formas de organização. Muitas pessoas em todo o mundo, já estão chamando esse movimento de a “Comuna de Oaxaca” porque essa insurreição tem tendências de poder popular parecidas com as da Comuna de Paris. Mas os lideres de Oaxaca estão resgatando os procedimentos de organização das comunidades indígenas, onde não há polícia fardada e com arma de fogo. A autoridade são os camponeses e os indígenas que portam apenas um bastão; não há necessidade de armas pois eles são a autoridade. São os “topiles”, eles exercem gratuitamente a justiça junto ao povo, sem nenhum salário, quando há necessidade de intervenção em alguma demanda. Os “topiles”, companheiros eleitos em suas organizações, já estão exercendo esse papel nas barricadas, nas funções de autodefesa contra os policiais e os ladrões. “A nossa influência vem de nossas comunidades indígenas que se regem por usos e costumes através de assembléias comunitárias, nosso processo de luta não é algo isolado, mas sim faz parte de todo um conjunto. A experiência que temos hoje também é resultado do que tem acontecido no Equador, no Brasil e na Argentina. Estamos irmanados a todos os processos que acontecem na América Latina e também nos Estados Unidos com nossos companheiros imigrantes . Por isso esperamos que a solidariedade nacional e internacional com a nossa luta seja imediata. De fato já estamos tendo:temos informação de que na Espanha, Itália, Estados Unidos e outros lugares mais, estão se realizando mobilizações e protestos em frente a Consulados e Embaixadas. Acreditamos que o futuro da humanidade pode mudar e que podemos levar a cabo desde o lugar em que nos encontramos.” È o que afirma o professor Miguel Linares um dos dirigentes da APPO no acampamento de greve de fome em frente ao Hemiciclo a Juarez na Cidade do México em entrevista publicada no Centro de Mídia Independente, para Hernán Ouviña da Prensa de Frente. A utilização dos métodos de ensino de Paulo Freire, nas escolas de Oaxaca a que se refere o professor Miguel Linares é correta, sem dúvida. Porém, a experiência de organização desse movimento popular ter sido adquirida “com o que tem acontecido no Brasil”, é, certamente, para ser posta em dúvida.
A situação em Oaxaca, que começou com professores pedindo equiparação salarial aos demais trabalhadores mexicanos e outras reivindicação relativas ao exercício do magistério, está próxima de se transforma numa tragédia social. Essa rebeldia civil com uma insurreição social popular aparentemente organizada e certamente mal armada, não poderá combater um exercito regular treinado, equipado e organizado legalmente como defensor de uma Nação. Oaxaca será massacrada. Para o poder burguês da elite mexicana, Oaxaca está fora da lei e todos os seus habitantes serão tratados como rebeldes.  A Comuna de Oaxaca precisa, e com urgência, da solidariedade de todos os que se opõem as arbitrariedades de poderes constituídos, sejam eles em que regime político for. E a maneira de ajudar é protestando; batendo tambores, batendo latas, espalhando a notícia, gritando aos 4 ventos; fazendo barulho com o que for possível até que apenas com as armas seja possível combater a injustiça e a prepotência.
E em vários países, em centenas de cidades, ações de protesto e de solidariedade com o povo de oaxaqueño estão acontecendo. A grande imprensa brasileira não está noticiando; os jornais,revistas e emissoras de televisão nem tocam no assunto. E quase ninguém sabe disso já que mais de 90% das emissoras de televisão estão ligadas a 138 grupos regionais afiliados a apenas 6 redes privadas. Mas no Rio, em São Paulo, Marília, Fortaleza, Brasília, Amazonas e em outras cidades, comitês de apoio ao povo de Oaxaca estão protestando junto a embaixadas e consulados mexicanos. Aqui em Fortaleza há um movimento organizado na Universidade Estadual do Ceará, o Comitê de Solidariedade à Comuna de Oaxaca, que fez entrega ao Cônsul mexicano de uma carta de protesto a opressão, e de solidariedade ao povo de Oaxaca. Em Brasília vários movimentos organizados entregaram uma Carta Aberta ao governo mexicano e ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Em Tefé, no interior do Amazonas, discute-se a questão do povo oaxaqueño no Centro de Estudos Superiores da Universidade do Estado do Amazonas e é inaugurada a Rádio Livre de Tefé.
A situação em Oaxaca é tão mais grave do que uma simples repressão policial a piquetes de professores fazendo reivindicações. Isso se pode perceber da declaração feita por um dirigente estadual do PRI ameaçando colocar 20 mil militantes e simpatizante do partido nas ruas da cidade para enfrentar os professores e os membros da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Disse que “há llegado al limite de su tolerância, responderá a cualquier agresion y refrenda su respaldo absoluto hasta donde tope, al gobernador Ulisses Ruiz Ortiz”. E assegurou que se o Governo Federal não detiver os lideres do movimento, “o Partido Revolucionário Institucional o fará;somos mais do que eles e estamos dispostos a tudo para restabelecer a ordem e a paz pública de qualquer maneira”.
Não há mais espaço para reivindicações; o que já se esboça agora é um conflito ideológico entre forças populares e Governo. E dentro do Governo, o partido político, que está no poder há 76 anos, tomar para si o que considera o restabelecimento da ordem e da paz pública.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 30/11/2006
Código do texto: T305982
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CESAR CABRAL
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