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A escola dos anos dourados - 2ª parte

 
A Faculdade que almejávamos era a escola médica dos sonhos de Gualberto, Pieroni e Linneu.

Fevereiro de 1951. Mês do concurso ou prova de habilitação ao ensino médico. Portal de entrada aos Anos Dourados de nossas vidas.

Os EUA impunham valores e a língua inglesa substituía o francês nas artes, ciências e diplomacia. A URSS, com a bomba de hidrogênio, esquentou a guerra fria. Na Coréia, morreria em combate o capelão mórmon Hayd, ex-integrante da seleção sorocabana de basquete.

Pandemia (gripe coreana) ameaçava o carnaval porque o MS ameaçava proibir bailes carnavalescos... além de convenientemente aumentar em 50 centavos o selo de Educação e Saúde.

Pelo voto, Vargas é reconduzido à Presidência da República; Lucas Garcez, eleito governador de São Paulo; Gualberto (com instalação da Faculdade de Medicina e construção do maior Ginásio de Esportes da América do Sul no currículo) elegia-se deputado estadual.

Armínio de Vasconcellos Leite, presidente da Câmara, ocupava a Prefeitura; Linneu Mattos Silveira, a vice-presidência da Associação Paulista de Medicina e Fernando Soares Fernandes (médico da Casa das Mães e das Crianças), a presidência da Sociedade Médica de Sorocaba.

O ‘trepidante passar dos automóveis‘, na Rua Pe. Luiz, perturbava o silêncio e orações das monjas do Convento Santa Clara. Fords, Hudsons, Nashes e outros carrões ‘made in USA‘ circulavam pela cidade guiados por médicos, nossos futuros docentes. Na São Bento, os Irmãos Archilla esforçavam-se a convencer os clientes de que o carro alemão de feia aparência e nome estranho (Volkswagen) fazia 15 km por litro de gasolina, diferentemente dos carrões americanos, insaciáveis bebedores de combustível. A Cia. Mencacci vendia Chevrolets e geladeiras Frigidaire. O racionamento de energia elétrica dificultava os negócios.

Jovens oriundos de pequenas cidades encantavam-se com Sorocaba e suas oportunidades de lazer. Os mais abastados podiam alojar-se no recém-inaugurado Sorocaba Hotel e tomar refeições no Scherepel, de cozinha limpa e organizada pelos irmãos proprietários. Triângulos de pizza e chope estavam ao alcance de todos no Bar Esportivo. Alojamento mais em conta poder-se-ia conseguir no Hotel Vicente e nas pensões.

Os cines Caracante e São José passavam filmes que, pelo Interior afora, levariam meses a serem exibidos. Nos clubes centrais, dançavam-se boleros e baiãos ao som dos Irmãos Cavalheiros e do Jazz Panamericano.

Padrão de beleza feminina era silhueta esguia. Sem exageros das atuais top models anoréxicas ou excesso de carnes da pin-up anos 30. Laboratório louvava a beleza de Cleópatra, Elizabeth I, Catarina ‘A Grande‘ e outras figuras históricas... para vender ‘Emagrina‘.

Pediatras, nos postos de puericultura, promoviam concursos de robustez infantil. Sorocabanas magras, bonitas, vestidas de saia godê guarda-chuva, compridas até abaixo dos joelhos, podiam ser vistas no footing da Cel. Fernando Prestes. Jovens já haviam abolido o chapéu, mas continuavam a usar paletó e gravata. Todo homem se obrigava a possuir um terno de linho branco, para o verão, e outro azul marinho, de casimira ou tropical inglês, para o resto do ano. Garantiam o emprego dos ‘oficiais de paletó‘, atividade econômica que fazia parte da lista municipal, publicada no “Cruzeiro”, definindo valores do Imposto Sobre Indústrias e Profissões. No rol: capitalista (sendo ou não profissão habitual), fabricante ou vendedor de colchets, bacalite, tripas e outros miúdos, escola de dansas (com ‘s‘ mesmo! igual Guimarães Rosa) e outras profissões que sumiram ou mudaram de nome.

Dois jornais (Cruzeiro do Sul e Folha Popular) circulavam diariamente. Palco de polêmica deliciosa entre o evolucionista (dr. Manoel Nogueira Soares, médico radiologista) e o criacionista PLUF (pseudônimo do padre Lúcio Flório Graziosi). A PRD7, única emissora local, apresentava concertos do pianista Norberto Bastos, transmitia jogos do basquete e levava Wilson Silva ao Pacaembu para irradiar clássicos do futebol paulista. Sorocaba preparava-se para sediar os Jogos Abertos do Interior, com atletas treinados por Adrião Nunes de Oliveira na AA Scarpa.

A Faculdade que almejávamos era a escola médica dos sonhos de Gualberto, Pieroni e Linneu. Trazia propostas novas de ensino: psicotestes fazendo parte dos vestibulares, cátedra de Filosofia Moral para ensinar a doutrina cristã-católica, disciplinas específicas como Leprologia (a ser regida por Lauro de Souza Lima, o maior hansenólogo da época) e Tisiologia (seria ministrada pelo tisiólogo José Rosenberg). O entusiasmo pela consolidação da primeira escola médica do interior do Brasil era visível em todos.

A Primeira Estudantada: antes dos vestibulares, veemente nota de protesto -- ‘Estudantes Não São Qualquer Coisa‘ -- aparece nos jornais do dia 17/02/51. Protestavam contra vestibulandos que interromperam o trânsito da Rua da Penha para disputar partida de futebol, em plena tarde. Pararam até os bondes! Necessária intervenção da Guarda-Civil! Na semana anterior, no mesmo trecho, o mesmo grupo havia se desentendido com os Acqua-Loucos (entre eles, Ronald Golias) que aqui vieram para espetáculos de natação cômica na piscina do Scarpa. Brincadeiras incômodas somente possíveis numa Sorocaba dos anos dourados.

(Republicação e revisão de artigo já publicado, em comemoração ao Jubileu de Ouro da Formatura da 1ª Turma da Faculdade de Medicina de Sorocaba, que ocorre hoje).

Edgard Steffen é médico pediatra (edgards@directnet.com.br) e escreve todo sábado neste espaço.
Douglas Lara
Enviado por Douglas Lara em 02/12/2006
Código do texto: T307581
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Sobre o autor
Douglas Lara
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 79 anos
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