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A sátira social através do teatro: o gênero “Auto” e sua relação sociocultural

                                                                 Franklin Costa de Lira


RESUMO

Este estudo visa apontar as relações existentes entre as peças teatrais “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente, dramaturgo português da era renascentista, introdutor do gênero dramático (auto) no Teatro Popular de características crítico-social em uma época de pleno domínio clerical em seu País e “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, dramaturgo brasileiro, pertencente à era moderna, período de grandes transformações sociais no Brasil e no mundo. Neste trabalho optou-se pela escolha das peças teatrais por se tratar de obras escritas em tempos e espaços distintos ou seja, séculos XVI e XX, Portugal e Brasil, na perspectiva de observar a evolução histórica do teatro popular. Procura-se ainda, conceituar “teatro” enquanto espaço democrático de conscientização de um povo no espaço de quase cinco séculos, o gênero “auto e sua sátira”, e comparar as semelhanças existentes em ambas às obras através de seus personagens.  Optou-se como método utilizado neste trabalho a pesquisa bibliográfica por se tratarem de obras literárias.

Palavras-chave: Sátira. Teatro. Auto. Comparação. Sociedade.

O homem em sua inquietude se utiliza da palavra seja escrita, seja falada ou gesticulada para denunciar através da sátira social as mazelas e os costumes de da sociedade em momentos que perpassam o tempo numa linguagem popular clara e objetiva assim como a alma do seu povo.
Desde o surgimento do homem no mundo, estudiosos apontam através de investigações científicas a necessidade que esse indivíduo tem de se comunicar uns com os outros. Acompanhando o processo evolutivo, o mesmo vem criando ao longo do tempo vários mecanismos de comunicação, desde as pinturas rupestres encontradas nos sítios arqueológicos e datadas de milhares de anos, passando pelo advento da escrita que possibilitou um grande salto na comunicação humana até chegarem aos dias atuais.
Assim comenta Antonio Candido (1981, p. 66):
A história do teatro se confunde com a história da humanidade. A arte de representar advém das situações vividas pelo ser humano que, por culto, religiosidade, louvor, prestígio, entretenimento, registro, ou simplesmente pela pura expressão artística expressa seus sentimentos num mundo da fantasia muito parecido com um mundo real. O mundo evolui e a arte de se representar.

O surgimento do teatro, ainda na Idade Média, o cinema e os demais avanços tecnológicos como o rádio, o telefone, a televisão, os jornais, as revistas e mais recentemente a internet, dentre outros, são ferramentas que contribuem diariamente para que o homem possa ter uma comunicação ágil e eficiente, relacionando-se mesmo a distância em situações que transcendem o tempo e espaço, numa tentativa nem sempre satisfatória de compreender o homem, ou seja, a si mesmo, seus conflitos e a sociedade em que está inserido.
           Sabe-se que historicamente sempre existiram as classes dominantes e as dominadas ou menos favorecidas que sofrem a opressão daqueles que a dominam. Muitos desses dominantes se utilizam da palavra como instrumento de alienação daqueles que lhe são subordinados. Porém, há aqueles que também se utilizam da palavra para expressar seus sentimentos individuais e/ou coletivos através da representação em palco (teatro), muitas vezes para denunciar de forma satírica ou irônica o comportamento da sociedade.
           Sob esta ótica, procura-se analisar as peças teatrais “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, escrita em 1517 e “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, escrita em 1956, ambas pertencentes ao gênero dramático “auto” e escritas em épocas distintas, mas pertencentes ao chamado Teatro de características populares. Observar o comportamento de seus personagens já que o ”Auto Barca do Inferno” de Gil Vicente fora encenada pela primeira vez em Portugal, país colonizador do Brasil, bem como, a evolução do gênero dramático (Auto), desde o seu surgimento na Idade Média até a Contemporânea.

O TEATRO, CONCEITO E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

Considerando os três elementos básicos do Teatro: espaço físico, representação e expectador, o Mini Dicionário Aurélio do século XXI destaca apenas duas delas: 1 “edifício onde se apresentam obras dramáticas”, 2 “a arte de representar” e abole o terceiro elemento que é o “expectador”, considerado, atualmente, de papel relevante nessa tríplice composição para que haja teatro.
Entende-se que o vocábulo teatro é uma palavra de significado ambíguo por apresentar uma carga semântica composta de vários significados que vai desde o espaço físico a expressões faciais do ator e do expectador.
O vocábulo teatro é proveniente do grego “Théatron.” Já o teatro como espaço físico destinado a representações dramaticas, surgiu também na Grécia antiga por volta do século IV a.C, em função das manifestações em homenagem ao deus do vinho “Dionísio”, para quem a cada colheita de uva era realizada uma festa em agradecimento.
Com o passar do tempo, essa festa que era conhecida como “Ditirambos” se tornou cada vez mais organizada passando a surgir os diretores de coro, uma espécie de dramaturgo dos dias atuais. A mesma se dava com os narradores de histórias que através de representações, canções e danças, apresentavam os enredos dos personagens, trazendo o pensamento e sentimento à tona.
            Durante a primeira época medieval, o teatro esteve ligado à Igreja e quase sempre era realizado em datas religiosas, ilustrando passagens da Bíblia ou representando a história de santos.
           Com Gil Vicente, deu-se início, em Portugal, ao teatro ”leigo”, isto é, não religioso, praticado fora da Igreja. O teatro passou a ganhar popularidade com uma nova modalidade dramática composta em versos heptassílabos ou redondilha maior chamada “AUTO”, O conteúdo dos autos de Gil Vicente, principalmente o Auto da Barca do Inferno consiste numa crítica aos poderosos, principalmente aos clérigos, apresentando uma forma diferente de fazer teatro voltado às questões sociais, e ridicularizando aqueles que mascaram a realidade como descreve Fernando Peixoto (1995, p.56):
Em Portugal, sem romper com as tradições dos autos e farsas medievais, simplesmente engravidando-se de um agudo senso de observação crítica a realidade, Gil Vicente escreve textos nos quais as alegorias se transformam em vida, os temas atuais se fazem presentes, os valores populares se incorporam às idéias renascentistas.
Assim, aponta Gil Vicente (1997, p, 41):
(....)

Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:
Frade — Vamos à barca da Glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando até o batel do Anjo
desta maneira:
Frade — Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-rã;
rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã.
Huhá!
Deo gratias! Há lugar cá
para minha reverenda?
E a senhora Florença
polo meu entrará lá!
(...)
           Nesta passagem Gil Vicente representa a vida mundana do clero português e aponta para o desvio moral dos costumes.
Gil Vicente não se constitui um artista isolado, estabeleceu uma verdadeira história, como destacou Cereja & Cochar (2004, p. 109):

A tradição fundada por Gil Vicente seguiu de fato uma carreira na Espanha, no século XVII, com Lopes de Vegas, Tirso de Molina, Calderón de La Barca. Aproximaram-se ainda do teatro popular vicentino as comédias-balé de Moliére, dramaturgo francês do século XVII, algumas personagens da comédia Dell, arte italiana (século XVI) e o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, dramaturgo brasileiro do século XX.

          Percebe-se que a partir do teatro de Gil Vicente a arte de representar adquire uma nova dimensão repercutindo em vários continentes e evoluindo século à século, mas sem perder a sua essência que é de comunicar e interagir com o público de forma direta, denunciando satiricamente as figuras caricaturadas de seu tempo.


O TEATRO NO BRASIL

Com a chegada dos portugueses ao Brasil e a tentativa de colonizar os índios, o clero de Portugal enviou para cá missões religiosas, cujo motivo seria a “propagação da fé” e a tentativa de catequizá-los, promovendo assim, a integração entre índios, portugueses e espanhóis.  Em meados de 1553, chegou ao Brasil à primeira missão e com ela o padre José de Anchieta, um dos seus principais representantes.  Eles passaram a trabalhar peças teatrais, entre elas o gênero “Auto” como cita Fernando Peixoto (1995, p 57):

Entre nós o teatro surge como instrumento pedagógico: autos, encomendados pelo padre Manuel da Nóbrega ao padre José de Anchieta, para catequese e ensinamento da religião aos índios. Os textos de Anchieta são peças de circunstância, adaptando a estrutura esquemática do teatro medieval a problemas e aspectos da realidade e da cultura brasileira.

Essas missões perduram aproximadamente dois séculos até a chegada ao Brasil da família real portuguesa, em 1808, e trouxe inegável progresso para o teatro, consolidado pela Independência do Brasil, em 1822.
          O século XX despontou com um sólido teatro de variedades influenciado pelos   movimentos modernos que pululavam na Europa desde fins do século anterior. Os ecos da modernidade chegaram ao teatro brasileiro na obra de Oswald de Andrade, produzida toda na década de 1930, com destaque para O Rei da Vela, só encenada na década de 1960 por José Celso Martinez Corrêa. É a partir da encenação de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, que nasce o moderno teatro.
          Com este advento, surge também o chamado Teatro Moderno de característica popular apresentados em feiras, teatros (espaço físico) e até mesmo adaptados para televisão, alcançando uma margem maior da sociedade.
          Em 1955, o escritor Ariano Suassuna escreve “Auto da Compadecida” uma peça de teatro em forma de auto e encenada em 1956, em Recife, Pernambuco. A peça apresenta problemas e situações peculiares da cultura nordestina brasileira, inserindo elementos da tradição da literatura de cordel, traços do barroco católico brasileiro num misto de cultura popular e tradição religiosa
            As peças aqui citadas, “Auto da Barca do Inferno” e “Auto da Compadecida”, ambas pertencentes ao mesmo gênero dramático e escritas em épocas distintas, retratam bem o teatro e sua evolução histórica enquanto instrumento de expressão popular preocupada em apresentar à sociedade seus dilemas, suas diferenças sociais e a tradição religiosa numa linguagem acessível e adequada a sua época.
            Os autos se apresentam como instrumentos de denúncia crítico-social, dotada muitas vezes de humor e ironia que servem de pano de fundo para reforçar a mensagem pretendida, despertando no expectador reações diversas e, quem sabe, reflexões futuras.
A temática religiosa é facilmente identificada nos dois autos: em Auto da Barca do Inferno, o drama se dá com a convocação de seus personagens para prestação de contas com Deus ou com o Diabo. A figura do  Frade cortesão, Frei Babriel, com a sua "dama" Florença representa o rompimento dos dogmas da Igreja e conseqüente desobediência aos preceitos divinos, e coloca em discusão nos dias atuais a questão do celibato, conforme apontou Gil Vicente (1997, p. 37):

Frade — Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;
ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã:
tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!
Diabo — Que é isso, padre?! Que vai lá?
Frade — Deo gratias! Som cortesão.
Diabo — Sabês também o tordião?
Frade — Porque não? Como ora sei!
Diabo — Pois entrai! Eu tangerei e faremos um serão.
Essa dama é ela vossa?
Frade — Por minha la tenho eu, e sempre a tive de
Diabo — Fizestes bem, que é formosa!
E não vos punham lá grosa no vosso convento santo?
Frade — E eles fazem outro tanto!
Diabo — Que cousa tão preciosa...
Entrai, padre reverendo!
Frade — Para onde levais gente?
Diabo — Para aquele fogo ardente que nom temestes vivendo.
Frade — Juro a Deus que nom t'entendo!
E este hábito não me vai?
Diabo — Gentil padre mundanal, a Belzebu vos encomendo!
Frade — Corpo de Deus consagrado!
Pela fé de Jesus Cristo, que eu nom posso entender isto!
Eu hei de ser condenado?!...
Um padre tão namorado e tanto dado à virtude?
Assim Deus me dê saúde, que eu estou maravilhado!
Diabo — Não curês de mais detença.
Embarcai e partiremos: tomareis um par de ramos.
Frade — Nom ficou isso n'avença.
Diabo — Pois dada está já a sentença!
Frade — Pardeus! Essa seria ela!
Não vai em tal caravela minha senhora Florença.
Como? Por ser namorado e folgar com uma mulher se há um frade            de perder, com tanto salmo rezado?!...

Já no “Auto da Compadecida”, o autor também apresenta vários personagens ligados à igreja, dentre eles: o Bispo, o frade, o sacristão e a figura marcante de Padre João que discute com João Grilo a legitimidade de benzer um cão, mas ao ser informado que o cachorro pertence ao major Atonio Morais, num ato de submissão, resolve por fazê-lo, confome apresenta a narrativa alegórica de Ariano Suassuna (2004,  p. 49):

João Grilo
O que eu vou pedir é coisa muito mais fácil do que cumprir os mandamentos.
Padre
Diga então o que é!
João Grilo
O cachorro de meu patão está muito mal e eu queri que o senhor benzesse o bichnho.
Padre
De  novo? Mais é possível?
João Grilo
Mais do que possível. O senhor não i benzer o do major Antonio Morais?
Padre
E de que é que você  está falando?
João Grilo
Do meu patrão.
(...)

Nota-se neste epsódio que a convição religiosa vem abaixo, a patente do major fala mais alto, ou seja, a força do homem se sobrepõe aos preceitos divinos.
Nesse trabalho verifica-se que a história do mundo também passa pelo teatro, pintando um retrato fiel da reallidade cotidina, fazendo do palco uma tribuna popular de protestos de uma nação socialmente “igualitária”. Nessa perpesctiva, teatro nada mais é do que a representação dentro da representação

           Portanto, constata-se que as obras analisadas se identificam com a evolução do gênero “AUTO” mesmo criadas em épocas distintas, mudando apenas o cenário, mas com personagens que refletem a preocupação do homem com o ato de se comunicar, pintando um retrato da sociedade, seja ela medieval, seja ela contemporânea.

REFERÊNCIAS


BUARQUE, Aurélio de Holanda Ferreira. Mini Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Fronteira, 2005.

CANDIDO, Antonio et al. A personagem no Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1981.

CEREJA, William R; COCHAR, Teresa. Português – Linguagens. São Paulo: Atual editora, 2004.

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
VICENTE, Gil. Auto da Barca do Inferno. São Paulo: FTD, 1997.
PEIXOTO, Fernando. O que é teatro? São Paulo: Brasiliense, 1995.



Publicado na Biblioteca Nacional sob ISBN 978-85-61946-05-0

Contatos: lira.franklin@hotmail.com








Franklin Lira
Enviado por Franklin Lira em 10/07/2011
Reeditado em 10/07/2011
Código do texto: T3087237
Classificação de conteúdo: seguro

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Teresina - Piauí - Brasil, 43 anos
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