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DISSERTAÇÃO - A INTERPRETAÇÃO DE UMA IDÉIA

Resumo

Este artigo tem a intenção de mostrar que o ensino da dissertação desenvolve no aluno algumas faculdades humanas, como o predomínio da razão, reflexão, raciocínio, argumentação, por isso deve ser muito bem ensinada. O trabalho de composição de uma dissertação, envolvendo o levantamento de idéias e a definição do ponto de vista, seja na dissertação científica ou na literária, mostra aos alunos a importância na hora de escrever de se ter objetividade, coerência, solidez na argumentação, ausência de intervenções pessoais, emocionais, análise de idéias, criatividade e argumentação. Quanto à linguagem, prevalece o sentido denotativo das palavras e a ordem direta das orações. A elaboração de um texto dissertativo não está centrada na função poética da linguagem, e sim, na colocação e defesa de idéias e na forma como essas idéias são articuladas. Quando se lança mão de uma figura de linguagem, ela deverá sempre ser utilizada com valor argumentativo, como um instrumento a mais para a defesa de uma determinada idéia. É importante mostrar ao aluno que o autor de uma dissertação deve ter sempre em mente as possíveis reações do leitor e, por isso, se devem considerar todas as possíveis contra-argumentações, a fim de que possa “cercar” o leitor no sentido de evitar futuros desmentidos da tese que se está defendendo.
Palavras Chave: Argumentação, Estrutura, Propostas.








Introdução
Infelizmente, desde as primeiras redações que fizemos no Ensino Fundamental e até no Ensino Médio, a redação preferida, pela necessidade de incentivar a criatividade, foi a Narração. Contamos sobre piqueniques, passeios, viagens, excursões; contamos o real, o imaginário; passamos do infantil ao trágico; seguimos, enfim, por caminhos que a nossa imaginação e potencialidades nos levaram e, em matéria de redação, paramos aí.
Neste momento, estamos repensando o tradicional ensino da interpretação e produção textual, sempre escrita, que está diretamente relacionada com aquilo que se pensa ser o essencial para que os alunos saibam. Mas não basta saber narrar ou descrever, pois o ato de dissertar é tão fundamental que não pode ficar como uma simples aprendizagem ou conteúdo, mas deve ter seu reconhecimento merecido, seu ensino qualificado e sua prática incentivada.
O discutir assuntos, o criticar situações, o propor soluções sempre estiveram muito distantes da nossa realidade. A juventude, hoje, mais do que nunca, alienou-se em parâmetros de um mundo sem problemas. Ela não participa, não sente, não reage, não discute, normalmente não entende, e, por isso... não escreve. Quando o faz, as paráfrases fazem presente. Sendo que este é o tipo de redação pedido (ou esperado) pela maioria dos vestibulares e Concursos Públicos do Brasil.
Para início de conversa, vamos definir o que é o ato da argumentação.

Argumentar
Argumentar é: fundamentar, provar, justificar, explicar, demonstrar, convencer, persuadir.
A argumentação se apóia nas formas de raciocínio. Essas formas são a dedução e a indução, partindo-se sempre do conteúdo para o desconhecido. Um discurso argumentativo visa a intervir diretamente sobre as opiniões, atitudes ou comportamentos de um interlocutor ou de um auditório.
No cotidiano, apelamos constantemente para o discurso argumentativo - quando trocamos idéias com um amigo, quando defendemos uma posição que acreditamos verdadeira, quando debatemos com alguém sobre alguma questão. A finalidade da argumentação é sempre convencer o outro (ou os outros) da validade da sua própria tese e, ao memso tempo, contestar as idéias contrárias.
Conforme Heloísa Harue Takazaki (2002), um discurso político, por exemplo, como todo texto argumentativo, apresenta uma tese e argumentos. A política inclui todos os assuntos relativos à sociedade: formas de governo, legislação, etc. Os temas de discussão do discurso político são, então, os assuntos públicos. Nesse sentido, sua finalidade não é só convencer ou contradizer a outros, mas também, principalmente, intervir na sociedade para provocar uma mudança.
Mudança essa que só será possível fazer se os alunos tiverem uma boa capacidade na argumentação.

A Capacidade de Argumentar
Um bom jeito de ensinar o aluno a argumentar é provocar polêmica, como indica o PCN (1998).  Como toda fala pressupõe alguém que esteja ouvindo, uma produção de exposições orais é preparar o aluno para a troca de opiniões, em que ele precisará defender pontos de vista, argumentar e contra-argumentar. Pode-se treinar a capacidade de argumentação em diversas atividades.
* Discutir com a classe algum tema polêmico que esteja sendo veiculado na imprensa ou vivido pelos moradores do bairro. A preferência deve ser dada aos assuntos trazidos pelos próprios alunos e que gerem opiniões diferentes dentro do grupo. Depois do debate, os alunos podem fazer um texto em que exponham a sua opinião sobre as questões analisadas.
* Debater um tema preparado anteriormente. Nesse caso, organizam-se as regras do debate, que pode ter tempo de exposição inicial, réplica e tréplica. Estabelecendo-se um tempo para cada parte, os alunos estarão aprendendo a planejar a fala sem permitir que a aula se torne uma discussão infindável.
* Organizar um dia de debates sobre uma grande questão, como ecologia, violência ou AIDS, e pedir que seus alunos sugiram temas de exposição, sempre estimulando discussões depois de cada fala.
* Sugerir aos alunos que entrevistem um especialista em algum assunto que esteja sendo debatido pela classe, de modo a reforçar os argumentos favoráveis ou contrários. Eles podem gravar a entrevista em vídeo ou fita cassete, ou reportar à classe os principais temas abordados. Deve-se aproveitar essa oportunidade para que os alunos comparem a fala deles com a do especialista. É uma forma de trabalhar não apenas “o que se diz”, mas também “como se diz”.
No livro de Magda Soares, Português Através de Textos (1990), destinado à 8ª série do Ensino Fundamental, distinguiu-se argumentação de dissertação, por concordância com Othon M. Garcia (1986):
 Nossos compêndios e manuais de língua portuguesa não costumam distinguir a dissertação da argumentação, considerando esta apenas “momentos” daquela. No entanto, uma e outra têm características próprias. Se a primeira tem como propósito principal expor ou explanar, explicar ou interpretar idéias, a segunda visa sobretudo a convencer, persuadir ou influenciar o leitor ou ouvinte. Na dissertação, expressamos o que sabemos ou acreditamos saber a respeito de determinado assunto; externamos nossa opinião sobre o que é ou nos parece ser. Na argumentação, além disso, procuramos principalmente formar a opinião do leitor ou ouvinte, tentando convencê-lo de que a razão está conosco, de que nós é que estamos de posse da verdade. (GARCIA, 1986, p. 370)

Antes de iniciar o desenvolvimento de um texto dissertativo, tem que se ter uma idéia de como é a sua estrutura.

Estruturando o Texto
Interessa observar que as dissertações escolares são geralmente curtas, contendo entre 20 e 35 linhas e, nesse caso, é preciso arquitetar o texto com três ou quatro parágrafos: um para a introdução, um ou dois para o desenvolvimento e um para a conclusão.
Assumir um ponto de vista, redigir atendendo-se ao tema, argumentar fundamentando com os porquês, iluminar o que se afirma com exemplos... Esses são elementos básicos do mundo dissertativo. Agora, veremos a dimensão estrutural da dissertação: Como se organiza o texto? Como se dá a seqüência das idéias? Como se inicia o texto? Como se desenvolve o assunto? E a conclusão?
Existem inumeráveis modos de organizar a seqüência do texto dissertativo.
Muitas maneiras diferentes de fazer a introdução, o desenvolvimento e a conclusão.
Mas se tem uma estrutura básica:
* Na introdução, apresentamos o tema e o ponto de vista.
* No desenvolvimento, apresentamos a argumentação (os porquês, os exemplos).
* Na conclusão, apresentamos uma síntese reafirmadora das idéias (reapresentação, com outras palavras, do ponto de vista e/ou do argumento principal).
Geralmente, na construção de um texto dissertativo a exemplificação é feita depois da argumentação, funcionando como uma ilustração. Existe, no entanto, grande liberdade de estruturação na modalidade dissertativa. É possível apresentar primeiro os exemplos e só depois a tese e as razões e causas que a fundamentam. É possível também mesclar exemplificações e relações causais explicativas.
Iremos começar, então, pela introdução.

A Introdução
Pelo método mais usado, a introdução tem como finalidade apresentar o assunto e a posição assumida diante dele, isto é, a tese a ser defendida. Essa apresentação pode ser feita de várias maneiras, como mostra Ricardo Leite (1997). Pode-se ensinar aos alunos as mais práticas.
* Definição - Pode-se começar a dissertar fazendo uma definição do tema, para atribuir maior clareza e objetividade do texto. Em seguida, expõe-se o ponto de vista e segue-se o processo dissertativo.
* Comparação - Tem-se também a opção de começar, buscando uma definição do tema por comparação. Depois de estabelicida a comparação, fazemos um breve comentário interpretativo dela, explicando, assim, nossa visão do assunto.
* Citação - Pode-se ainda iniciar o texto com uma citação relativa ao tema. Uma frase interessante, um verso, um fragmento, etc. Em seguida, faz-se uma pequena análise, um breve comentário a respeito da opinião citada, expondo, ao mesmo tempo, nosso ponto de vista sobre o assunto.
* Histórico - O início do texto pode fazer um histórico, uma esplanação rápida do tema através dos tempos, dando ao tema uma abordagem temporal. Prepara-se uma espécie de rápido retrospecto da evolução que se quer demonstrar ou uma breve retrospectiva acompanha da de uma prospectiva. Depois do histórico, apresenta-se a tese e inicia-se a argumentação.
* Exemplo - Pode-se também escolher um fato-exemplo expressivo para iniciar o texto. Em seguida, fazendo uma análise interpretativa desse exemplo, que poderá ou não ser retomado mais adiante, revelando nossa visão sobre o tema.
* Estatística - Pode-se iniciar a redação pela apresentação de um dado estatístico esclarecedor sobre o tema. O procedimento é praticamente idêntico ao de iniciar o texto pela exemplificação.
* Resumo - Um resumo daquilo que se pensa sobre o assunto da redação é uma das possibilidades de início. O começo da dissertação funcionaria, assim, como uma espécie de índice, de sumário do texto, em que se apresenta de modo sintético o tema, o ponto de vista e a argumentação.
* Pergunta - Pode-se ainda principiar o texto fazendo uma pergunta, ou um questionamento sobre o tema ou sobre algum aspecto dele.
Esses modos de exposição de idéias podem aparecer também no desenvolvimento e na conclusão da dissertação. As sugestões ativeram-se à introdução porque é o início do texto que delineia a organização lógica das idéias, e a seqüência do raciocínio depende desse encaminhamento inicial.
Tem-se que deixar o aluno ciente de que para elaborar um texto sustentado por argumentos devem ser observados alguns princípios importantes, como o domínio do assunto, a seleção de argumentos e o emprego de uma linguagem condizente com a do receptor.
Para se argumentar bem, é necessário que os argumentos sejam embasados.

A Base dos Argumentos
A eficácia do texto dissertativo-argumentativo depende, em grande parte, do tipo de argumento empregado. Para a escrita dos argumentos, pode-se recorrer ao argumento, como sugere Leila Lauar Sarmento (2004).
* Citação - Citar uma frase ou pensamento de uma autoridade em certo assunto ampara o discurso em uma opinião especializada, o que confere prestígio ao texto.
* Senso Comum - Fundamentar as idéias em valores reconhecidamente partilhados pela maioria das pessoas de uma sociedade.
* Evidências - Apresentar fatos que comprovem a tese do autor confere crédito ao texto.
* Raciocínio Lógico - Instituir uma relação de causa e conseqüência, para preservar a seqüência ordenada dos parágrafos e o sentido geral do texto.
É importante destacar aos alunos que é preciso saber utilizar os mecanismos que propiciam a coesão textual e, para isso, os professores devem estar bem preparados para explicar que: para usar a expressão “por exemplo”, deve-se, antes, ter tratado de maneira genérica de determinado assunto; só se usa “por outro lado” se um lado da questão já foi abordado; o uso da conjunção “portanto” sugere uma conclusão.
Os argumentos se apresentam de várias formas, como veremos.

Argumento Objetivo e Subjetivo
A argumentação, no texto dissertativo-argumentativo, pode ocorrer de duas maneiras: objetiva ou subjetiva. Pode-se apostar uma postura impessoal, em que os argumentos sejam expostos objetivamente, ou podemos expô-los dando ao texto caráter mais pessoal. Em geral aparecem ambos os tipos de abordagem no mesmo texto, embora predomine um dos dois.
* Objetivamente, se a exposição do assunto se apresentar impessoal, marcada pela presença do raciocínio e da lógica universal, quando o assunto for abordado e discutido de maneira genérica, com idéias e posicionamentos que possam ser aceitos por todos, ou por uma maioria. Esse tipo de redação tem por finalidade instruir e/ou convencer o leitor. As idéias e o modo de se analisar e enfocar os problemas são pessoais, mas a colocação disso tudo dentro da redação deve ser feita de modo impessoal: verbo na 3ª pessoa do singular ou na 1ª do plural, afinal, “nós” não sou eu, mas somos todos.
* Subjetivamente, caso predominem, na exposição das idéias, suas próprias opiniões, de maneira pessoal, particular, de ver e encarar as coisas. Essa modalidade depende, essesncialmente, do tema dado, que deve estar próximo da subjetividade. De um modo geral, ela deve ser evitada por aproximar-se demasiadamente da narração, através de seus subtipos, como crônica, por exemplo. Na redação subjetiva, procura-se, antes de tudo, conquistar a simpatia do leitor com relação ao exposto. Daí que, para fazê-lo, baseamo-nos essencialmente em nossas opiniões; no nosso modo de pensar em relação aos fatos; deixando transparecer, muitas vezes, um tom confessional, cheio de emoções e sentimentos: verbo sempre na 1ª pessoa do singular - EU.
Segundo Raul Maia:

O ideal seria que se unissem num só os dois modelos, escrevendo, num tom impessoal, idéias efervescentes de características emotivas que pudessem tocar o leitor, derrubandoo de seu papel de tirano de riscar, corrigir, apontar defeitos: afinal, ele é “gente como nós”. (MAIA, 1999, p. 30)

Depois de tantas explicações e exemplificações, vamos às propostas em si para o trabalho com esse tipo de texto.

Como trabalhar a Dissertação
A estratégia fundamental aqui, é a de que o aluno deve se reconhecer como autor de seus pensamentos e de seus textos; deve desenvolver sua capacidade de pensar e de expressar-se, descobrindo, assim, o gosto de vivenciar suas próprias palavras e as palavras dos outros. Então, os professores devem trabalhar com esse tipo de texto de forma mais clara e qualificada. Para isso, apresentam-se aqui algumas propostas, seguidas de objetivos, estratégias e modos de avaliação.

Propostas:
Reconhecimento dos elementos dissertativos
Desenvolvimento da capacidade de delimitar os temas
Assumir ponto de vista
Argumentação causal
Reconhecimento da importância do exemplo
Estrutura do texto dissertativo
Apresentação da linguagem e dos processos de exposição de idéias mais característicos da linguagem dissertativa

Objetivos:
Conceituar e caracterizar os elementos do mundo dissertativo.
Comparar diferentes tipos de dissertação, para reconhecer os elementos fundamentais.
Reconhecer a tese defendida em textos dissertativos.
Praticar a tomada de posição diante dos temas.
Reconhecer e praticar o processo de argumentação causal (o porquê).
Reconhecer e praticar a exemplificação como um modo fundamental de argumentar e propor um modelo de estruturação do texto dissertativo.
Identificar e praticar diferentes modos de exposição de idéias, bem como a utilização da linguagem dissertativa.

Estratégias:
Se apresentados textos inicialmente, o professor pode fazer a leitura e o reconhecimento dos elementos dissertativos fundamentais, ressaltando sua presença em textos dissertativos de estrutura diferenciada.
Nos exercícios de redação, é fundamental o estímulo à liberdade e à autenticidade do pensar dissertativo, o respeito às opiniões dos outros e aos seus argumentos.
Valorizar a tomada de posição, desenvolvendo a consciência de que dissertar é um exercício de liberdade. O aluno deve sempre tentar descobrir e manifestar seu ponto de vista sobre o tema, estando ciente de que diferentes posicionamentos têm o mesmo valor e que ninguém será discriminado pela opinião que tiver a respeito de um assunto.
Treinar, nos exercícios de leitura, a identificação dos pontos de vista e a relação entre estes e os argumentos apresentados em sua defesa.
Levar os alunos a reconhecerem a importância fundamental do processo argumentativo causal, da apresentação dos fundamentos do ponto de vista assumido (pelo menos um porquê, um motivo).
Desenvolver um método: transformar o tema em uma interrogação e reconhecer a resposta como explicação do ponto de vista assumido.
Valorizar a apresentação de exemplos que ilustrem as idéias expostas e reforcem a argumentação das dissertações e dar ênfase à identificação dos exemplos nos textos a serem lidos.
Trabalhar a seqüência lógica do raciocínio, praticando a escrita das partes que compõe a dissertação: introdução, desenvolvimento e conclusão.
Desenvolver variados processos de apresentação das idéias num texto dissertativo, principalmente na introdução, visto que o início da redação projeta o desenvolvimento do raciocínio e dá o tom no texto.
Valorizar, teórica e pratica, a linguagem lógico-expositiva e suas características fundamentais: propriedade/adequação; clareza; conclusão; coesão; expressividade.

Avaliação:
Deve ser priorizado, nos exercícios de leitura, o reconhecimento dos elementos dissertativos fundamentais, principalmente o tema.
Nos exercícios de redação, merecem maior atenção a adequação do texto à modalidade dissertativa e a correta delimitação do tema.
Deve ser priorizada, tanto nos exercícios de redação quanto nos de leitura, a identificação dos pontos de vista e dos argumentos que os fundamentos (argumentação lógico-causal).
Interessante observar o que o PCN fala sobre a avaliação:

Os critérios de avaliação referem-se ao que é necessário aprender, enquanto os objetivos, ao que é possível aprender. Os critérios não podem, de forma alguma, ser tomados como objetivos, pois isso representaria injustificável rebaixamento da oferta de ensino e, conseqëntemente, a não garantia da conquista das aprendizagens consideradas essenciais. (PCN, 1998, p. 94)

É interessante ressaltar a importância da sondagem do conhecimento dos alunos a respeito do que for solicitado para que eles dissertem, pois de nem todos os assuntos eles podem ter muito o que falar e argumentos a utilizar. Ou até num estudo de um texto sobre determinado assunto que não faça parte do cotidiano do aluno, ele já não vai poder interferir nas idéias e opinar/debater com a exposição do autor. Estudos feitos por Ângela Kleiman (1997) esclarecem essa relação da seguinte forma:

(...) A avaliação do conhecimento prévio é, então, essencial à compreensão, pois é o conhecimento que o leitor tem sobre o assunto que lhe permite fazer interferências para relacionar diferentes partes discretas do texto num todo coerente. Esse tipo de interferência, que se dá como decorrência do conhecimento de mundo e que é motivado pelos itens lexicais no texto é um processo inconsciente do leitor proficiente. (KLEIMAN, 1997, p. 25)

A escola deveria ter como uma das suas funções principais a formação de alunos leitores. Segundo Cagliari (1997), saber ler é mais importante do que saber escrever. Na opinião do autor, se o aluno não conseguir êxito nas outras habilidades desenvolvidas na escola, mas for um bom leitor, já será um grande feito. Realmente as palavras de Cagliari fazem muito sentido. A leitura acompanha o indivíduo em muitas de suas situações de interação durante a vida. A leitura é “a extensão da escola na vida das pessoas. (...) A leitura é uma herança maior do que qualquer diploma.” (CAGLIARI, 1997, p. 148)
O saber ler e interpretar um texto é básico quando se fala em texto dissertativo, pois ali está uma opinião e, conforme ela for escrita e a interpretarmos, concordaremos ou não com a tese do autor. Por isso, a leitura é tida como ponto de partida para a aquisição de conhecimento e para a ampla socialização do ser para o aluno.
Deve-se mostrar aos alunos que se precisa fazer um planejamento cuidadoso na hora de se escrever uma dissertação, seguindo alguns aspectos importantes, como ler atentamente o tema, indo em busca da descoberta da intenção que a autor quis passar, sempre anotando palavras-chave. Definir o sentido do tema também se faz necessário, para alcançar a argumentação do autor, elaborando perguntas relacionadas ao tema. Interpretar o sentido geral da tese e restaurar o tema com as suas próprias palavras é interessante, escrevendo o que ele entendeu do texto. Um objetivo principal que o aluno sempre tem que ter em mente no momento de escrever o texto, é a decisão da finalidade do seu texto, pensando sempre a qual conclusão ele quer chegar, refletindo sempre sobre os argumentos que direcionarão à conclusão escolhida. Com isso pronto, é só elaborar a dissertação tranqüilo.


Considerações Finais
Durante atuações realizadas em Língua Portuguesa no Ensino Fundamental, para a disciplina de Pesquisa e Prática Pedagógica em Letras III, do Curso de Letras, do Centro Universitário Feevale, de Novo Hamburgo-RS, tivemos algumas experiências muito interessantes, na tentativa de nos inserir e inserir os alunos no mundo da dissertação. Esperamos que se aprenda a gostar de debater um tema, de assumir uma posição, de arquitetar um raciocínio para defender as idéias, de compor um texto expressivo e instigante. Mais do que isso - que tenha sentido a alegria de pensar e de escrever. Esperamos também que se possa conviver com as próprias palavras de um modo mais livre e criativo, mais lúcido e crítico, e com o prazer de se reconhecer autor de seus textos e de suas falas.
Nosso trabalho aqui levanta várias maneiras e perspectivas do ensino com qualidade pra dissertação, deixando sempre bem clara sua importância. O professor tem que estar ciente de que este trabalho propicia ao aluno algo que a maioria deles não teria se não ali na escola. Então tudo necessita estar dentro de um contexto, em que tanto o professor quanto o aluno saibam discutir hipóteses e lançar idéias, tendo em vista o que posteriormente usarão com estes conhecimentos obtidos na prática da argumentação por meio do ensino-aprendizagem do texto dissertativo.
O professor deve levar os alunos às experiências dissertativas, às aventuras de pensar dissertativamente: assumir posicionamentos diante do mundo, selecionar argumentos para a defesa de posições, descobrir processos e estratégias de raciocínio e adquirir consciência da linguagem lógico-reflexiva. A atividade dissertativa revela-se vital para o desenvolvimento da inteligência, para a elaboração pessoal de idéias, para a capacidade de raciocínio e exposição lógica, ou seja, para a construção do conhecimento e do pensamento crítico e criativo.


Referências Bibliográficas

ARIZA, DERVILE. Biblioteca Integrada - Vol. 1. São Paulo: Ed. Lisa, 1997.

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Lingüística. São Paulo: Ed. Scipione, 1997.

GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna: Aprenda a escrever, aprendendo a pensar.  Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1986.

KLEIMAN, Angela. Texto e Leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura. Campinas: Ed. Pontes, 1997.

LEITE, Ricardo. Novas Palavras: Literatura, Gramática, Redação e Leitura. São Paulo: Ed. FTD, 1997.

MAIA, Raul. Novo Ensino Dinâmico de Pesquisa. São Paulo: Ed. DCL, 1999.

SARMENTO, Leila Lauar. Português: Literatura, Gramática, Produção de Texto. São Paulo: Ed. Moderna, 2004.

SOARES, Magda. Português Através de Textos, 8. São Paulo: Ed. Moderna, 1990.

TAKAZAKI, Heloísa Harue. Linguagens do Século XXI: Língua Portuguesa, 8ª série. São Paulo: Ed. IBEP, 2002.
Cristiano Rosa
Enviado por Cristiano Rosa em 25/12/2006
Código do texto: T327321

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Sobre o autor
Cristiano Rosa
Parobé - Rio Grande do Sul - Brasil, 27 anos
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Cristiano Rosa



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