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O Fecaloma Salvador

         Encaminharam-me um garoto,em S.Luís, Maranhão,acompanhado da mãe.Moravam no interior do Estado.A médica ligou-me, da Cruz Vermelha onde tinha seu consultório e explicou-me que, ao exame, encontrara um grande volume no baixo ventre, parecendo um tumor,mas suspeitava que fosse endurecimento de fezes retidas:um fecaloma, pois a mãe narrara que o garoto sofria de prisão -de -ventre crônica.A clínica, uma pessoa muito interessada e humanitária,à anamnese, soubera que o comportamento do paciente era estranho:de vez em quando, segundoa mãe,defecava uma pelotinhas e com elas,escrevia coisas incompreensíveis na parede.O que enfurecia o pai.E era surrado.A doutora pedia-me que investigasse o caso.Também avisou que o genitor não daria dinheiro para consultas com psicólogos-ou para nada:a mãe, por isso , procurara os serviços na Cruz Vermelha.
        Pagamento jamais foi a prioridade em quaisquer dos consultórios que tive.Quem pudesse pagar, pagaria para os demais.Havia uma boa quantidade de pacientes ricos, ou funcionários públicos, ou de classe média,que garantiamminhas despesas.Os demais,tinham a mesma consideração e atenção.Trabalhando na Unidade Materno Infantil , hospital do antigo INAMPS,levava muitos pacientes para atender particularmente, sem que eles desconfiassem que ali estavam em terapia,por favor.Lembro o pai de gêmeos que eu acompanhava, um lavrador que acordava de madrugada para levar os filhos,uma vez por semana ao consultório, vindo de seu sítio, a pé, com eles, para a capital.Um dia, eu atrasara as consultas e presenciou a próxima paciente pagar o valor da consulta à minha secretária.Levou um susto:"Aqui paga,moça?"...""Eu nunca vou poder pagar",ao que ela, muito simpática, explicou-lhe que os clientes encaminhados por mim ,do hospital ,nãopagavam.Ainda não convencido, ele pediu para falar comigo:"Nem que eu trabalhe a vida toda,não vou poder pagar.

        Conto isso,porque na faculdade, havia uma professora de quem eu sempre contestava a afirmação, crença geral dos psicólogois de que quem não paga, não se cura.Mito!.Eu já era funcionária do INAMPS e sabia dessa verdade:tudo depende do profissional,pois há os que, notadamente, tratavam de clientes particulares com mais cuidados e recursos que no serviço público.Mas tive a sorte de entrar no INAMPS trabalhando na cardiologia e na gastroenterologia, e nessas áreas, os médicos,lá em Juiz de Fora eram verdadeiros "pais" de cada caso clínico,justamente porque cada paciente,não era um caso apenas e sim uma pessoa.Drs Ascânio, Ciro Espíndola, ,Nilon Gomes Gonçalves,Dercy,Adilson Morandi,Adilson ,entre outros,verdadeiros cobras em suas áreas, procuradíssimos fora dali, tratavam com gentileza e propriedade seus pacientes.Com eles aprendi, ao vivo, psicologia.Uma vez, o Dr.Morandi pediu-me que passasse,´para eles, os resultados de exames radiográficos onde estivesse escrito "Negativo".Interessante, observar que as pessoas ficavam irritadas,ou incrédulas,com esse diagnóstico,em vez de se alegrarem.Era como se o exame as tivesse desmentido.Além disso, ir ao médico, é a vida social da pessoa muiro pobre.As donas de casa têm oportunidade de sair da beira do fogão.Os homens podem vestir as poídas camisas sociais –às vezes dos ternos de casamento-ou a camiseta super-colorida do últimocarnaval.E mai s:podem faltar ao serviço.O médico dá um atestado.Do dia da consulta.Da licença necessária.Havia,inclusive, os "licenciados profissionais" :faziam um circuito entre os clínicos de plantão na emergência, depois iampara os clínicos do setor não emergencial.Cada vez com um .Certa feita,fez-se um levantamento.Pilhas de segundas vias subseqüentes , dos papéis cobiçados.Enganadores?Hipocondríacos?Não:alguns,tendo adoecido uma primeira vez, perceberam que ficar em casa sem deixar de ganhar dinheiro podia ser interessante.
        Depois,que no tempo livre, tão logo melhoravam,podiam fazer vários "bicos", trabalhando aqui e ali, clandestinamente,e assim aumentar a renda.Aí, criavam essa estratégia de a cada vez,consultarem-se com médicos diferentes e ir obtendo atestados, que iam se somando...Até que,depois de tantas faltas, por motivo de doença, eram encaminhados à perícia médica.E aí, uns, na ótica deles,podiam se dar bem.Na verdade, "adoecidos",pois aos sintomas iniciais,somava-se agora o natural desgaste de quem trablha duro... Um homem jovem que trabalhava em uma oficina e tivera problemas comum braço, amarrava, bem apertado,um elástico largo perto do ombro apertava o braço, e quando ia à consulta, mostrava a mão arroxeada, parecendo edemaciada.Nos serviços de urgência,a dor deve ser retirada e o paciente em geral,era visto rapidamente.Os plantonistas não tinham tempo de investigar a fundo.Filas de pessoas a atender.Somente na perícia,obrigado a tirar a camisa, o embuste foi descoberto.Enquanto estava licenciado, trabalhava de pintor.Os patrões se aborreciam muito.Hoje essas fraudes são bem menores, já se aprendeu a lidar com as misérias do povo.
        Outros, formam uma cadeia de psicossomatizações:pessoas sofridas que obtém um "ganho secundário" com a doença.Realmente sofrem de todos os sintomas e apresentam todos os sinais.Pela primeira vez na vida,conseguematenção:das esposas ou maridos, do médico...A doença é ostentada qual um troféu.Uma conquista:"Não posso lavar roupa porque meu coração...""Meu filho largou os estudos e está no meu lugar no serviço:minha coluna"...

        Triste realidade!E há os que "fazem " doenças a partir de nada.Um prazer ter esse rótulo de doentes.Fascinava-me esses meandros da mente humana associados aos problemas sociais .E fui fazer Psicologia...

                              III O garoto e sua mãe

 

                          Recebi então “o menino do fecaloma” (comprovado depois pelos exames pedidos pela médica) e sua mãe.Ela, bonita, meiga, tímida.Ele,um bichinho assustado, com sinais de subnutrição na pele e cabelos secos, pernas e braços finos...Seria púbere para a idade, mas aparentava um corpo de nove anos.

                           Fazendo a anamnese, eu me revoltava com a brutal história da criança-estendida à da mãe.O marido, um monstro.Possuía uma vendinha e a mulher o ajudava sem poder pronunciar uma palavra sequer.”Calada”, como gritaria o personagem do Chico Anísio, mas essa mulher era protagonista real de um cotidiano massacrante.Concluíra o primeiro grau e adorava estudar, mas os pais a fizeram casar-se com aquele homem “que tendo um comércio”, vai te dar de tudo”.Não dava:retirava tudo e o bem maior,a liberdade de ser.Detestou-lhe a gravidez.Parto em casa, da pior forma possível.Detestava o garoto, que não nascera grande e forte como o genitor,mas pequeno e magro como genitora.Surras impossíveis de se cogitar,na criança frágil.E esta rebelou-se à sua maneira:nada tendo,nada recebendo-na frente do pai, a mãe, que passava o dia ajudando ao marido e nos momentos raros mais livre, cozinhando, lavando, passando,ela não podia acarinhá-lo, se não ia “virar um frouxo,um “qualhira”, que é a palavra maranhense para gay.Rebelou-se não defecando.Na escola, aprendia tudo, mas , apático, fingia –se de retardado.Tipo”se eu fingir de morto, talvez ele me esqueça”(palavras que durante a ludoterapia colocou na boca de um personagem que criou, um cachorrinho amarrado,com asas de passarinho,que apanhava muito do dono!)...Vingou-se do pai  com os tais hieróglifos que deixava na parede(o algoz esfregava sua cara no produto, a berrar que não sujasse o quarto, enquanto o surrava).Pedi-lhe que os reproduzisse em papel Kraft, com pincel atômica.Ele ria sem parar, (já bastante alegrezinho nessa ocasião), quando escreveu suas mensagens.Levei a folha a um espelho grande e estavam escritas palavras de ódio, de revolta, ao contrário, letras espelhadas....Estava alfabetizado, escrevia sem um erro ortográfico sequer,conforme descobri logo, mas passava por retardado....

                         Por que o “fecaloma salvador?Vendo o filho com prisão de ventre, aquele “caroço”enorme na barriga,enfrentou o marido e exigiu dinheiro para as passagens de ônibus:a criança precisava de médico! E tanto insistiu, que ele, pela primeira vez, cedeu. A mãe, gata borralheira, virou leoa para salvar o filho.As viagens para a psicoterapia dela e ludoterapi dele, aproximaram-na do filho e curaram nele a dor de pensar-se abondonado,não defendido por aquela mulher fraca, que chorava por e com ele, mas não o defendia, por estar acuada, ela própriaEla criou forças.Eu chamei o algoz lá e o ameacei,sutilmente,olhando-o nos olhos, de denunciá-lo, quando ele com voz alta, contava porque “tinha” de surrar mulher e filho, esperando talvez, que eu o parabenizasse pelo exercício de seus direitos de provedor/educador.Acabou acuado e chorando feito um bezerro desmamado., por ter tido um filho retardado e uma mulher tão “imprestável”.E quando listei tudo que a pobre jovem fazia,ele,literalmente, caiu o queixo... mostrei que ela a “emburrecera”, quando ele disse que ela não fazia as contas da caderneta(enquanto ele dormia, para “descansar”) direito, pois na escola, sempre fora a primeira aluna...Mas depois levantou-se e fulminando-me com um olhar furioso por eu ter colocado a nu suas fraquezas,”deixou” que o tratamento fosse feito, comprometendo-se a dar dinheiro para o ônibus de viagem, semanalmente.E eu, inflexível:e para o lanche, senão terão fome...Concordou.E dê à sua mulher dinheiro para comprar um tênis para seu filho.Abriu a boca e o queixo caiu de novo.Ia falar algo, mas desistiu, antes que eu pedisse mais coisas.O avarento de Moliére pareceria prógigo, perto dele, que trabalhava apenas para guardar...Naturalmente, não contei que a mulher também faria terapia...

                           O garoto floresceu.O intestino passou a funcionar regularmente.A médica, Dra .Socorro Macedo, que montara seu consultório na Cruz Vermelha, tratou-o muito bem:ganhou peso, ficou corado.E a mãe,empoderou-se.Voltou a estudar..Cairam as paredes daquele cárcere sem grades...

                           Um prazer, para mim, atender àquele pré-adolescente de tênis novo/velho, a sorrir, contar histórias e desenhar.Salvos, ele e a genitora, porque o fecaloma gigante obrigara-os a procurar ajuda médica, que os levou a uma psicóloga, que chamou o algoz, que...

De "Cárceres Sem Grades"/2003
clevane pessoa de araújo lopes
Enviado por clevane pessoa de araújo lopes em 11/07/2005
Código do texto: T33138

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Sobre a autora
clevane pessoa de araújo lopes
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 69 anos
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