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O AMOR À JESUS É EXIGENTE?

          Em Mateus 10, 37s lemos: “Jesus disse aos seus apóstolos: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim.”
          Dizer o que? São palavras que nos deixam com um pouco de medo. Jesus coloca os apóstolos em questionamento: À quem vocês amam mais? Em outra passagem Jesus diz que “onde está nosso tesouro, aí está nosso coração.” Onde está o nosso tesouro? Que tesouro buscamos? Que tesouro carregamos dentro de nós?
          Perguntas um tanto complicadas para responder se não conseguirmos olhar para dentro de nós mesmos. Conhecer o nosso tesouro, saber que tesouros buscamos é muito importante, pois é para lá que direcionamos nossas energias, nosso pensamento. Se colocamos as coisas supérfluas como tesouro, é nas coisas supérfluas que estará nosso coração, nosso pensamento, nossa vida.
          Jesus chama a atenção para que tenhamos justamente este cuidado, em não colocarmos a essência de nossa vida, a razão de nosso existir nas coisas passageiras deste mundo. É importante nos perguntarmos para onde está direcionado o nosso amor: é nas coisas permanentes ou nas coisas que passam?
          É difícil falar em coisas permanentes e coisas que passam. Buscamos hoje muito o que passa rápido. Não temos paciência de esperar. “Queremos tudo para ontem”. A espera, muitas vezes, se torna angustiante, sabendo que é ela que nos santifica, que nos torna pessoas mais humanamente felizes. Saber esperar, quando necessário, é uma virtude. (Este tema desenvolvi em outro texto: NO CORAÇÃO DE JESUS SE ENCONTRA A RAZÃO DE NOSSO EXISTIR).
          Onde está nosso tesouro é a grande pergunta. Onde está nosso coração? Ou melhor, para onde nosso coração e pensamento estão direcionados?
          Amar à Jesus exige renúncia. Isso Ele deixa bem claro aos seus apóstolos, quando os convida para o seguirem. É possível renunciar a tudo para seguir à Jesus? Onde estará então nossa realização, nossa felicidade?
          Importante fazermos aqui uma caminhada sobre as etapas (termo que vou usar para melhor poder expressar meu pensamento) do amor.
          Acredito que o ser humano tem etapas na vida. Hoje é assim. Amanhã pode ser diferente. Não temos defeitos. Temos pontos a crescer conforme as etapas da vida. Dizer que o ser humano tem defeitos, é colocá-lo no mesmo nível de um objeto, de uma máquina. Sabemos que não é assim. Não podemos trocar nada no ser humano. Seus sentimentos, emoções, pensamentos vão sendo aperfeiçoados com o passar do tempo.
          Assim é o amor. Existem três, ou mais, fases. Primeiro é o amor à vida, a si próprio. Segundo é o amor a uma outra pessoas. Terceiro é o amor à todos sem distinção, o amor a Deus.
          A maioria de nós estamos na primeira fase. Não somos capazes de sairmos de nós mesmos. Queremos tudo para nós. Só pensamos em nós. “O outro, o outro que se rale!” Esse tipo de amor nos torna egoístas e mesquinhos. Somos capazes de passar por cima de outras pessoas para termos o que queremos. Aquilo que temos não partilhamos com ninguém com medo que falte. Esquecemos que é na doação que o amor cresce e se fortalece.
          Porém, o amor a si próprio também tem seu lado positivo. A pessoa só é feliz quando sabe se valorizar. Quando aceita ser o que é. Quando se ama verdadeiramente. O que não pode ocorrer, é tentar colocar o Amor pessoal acima de tudo e de todos. Amar-se faz bem e é necessário para se realizar como pessoa humana.
          Jesus disse: “Ame a seu próximo como a si mesmo”. A pessoa que se ama de verdade acredita nela. Valoriza-se. Respeita-se. Deveria saber transferir esse amor ao próximo.
          Na segunda etapa vem o amor a outra pessoa. Esse é mais comum num casamento, ou pelo menos deveria ser. Não é anular-se como pessoa, mas amar de tal modo que ambos ganham e crescem. O casamento não pode ser visto como que duas metades que se unem para se completar. Cada pessoa é completa em si, basta descobrir. O outro pode nos ajudar a viver melhor, mas não pode ser responsável pela nossa vida nem pela nossa felicidade. A felicidade está dentro de nós e não na pessoa do outro, nem nos objetos. No casamento duas pessoas se unem por amor, pelo menos deveria ser assim. É preciso ser capaz de amor o outro sem me anular, sem deixar de me amar. Sou capaz de entender, valorizar, se doar ao outro sem deixar de me entender, de me valorizar, de dar e receber.
          Se numa relação, seja de amizade ou casamento, não acontecer esse processo, de não somente amar a mim, mas a outra pessoa também, a relação logo se esvazia e morre, porque as pessoas não conseguem olhar o outro e permitir que ele cresça e seja feliz.
Um grande exemplo são os pais, que além de se amarem, amam seus filhos. Dão tempo para eles. Ser pai e mão é vocação que exige doação na amor, porém, eles sabem que quem ama de verdade não tem nada à perder, somente a ganhar. Quanto mais se ama, mas se cresce, mais se fortalece a pessoa como ser humano.
          Os casamentos desfeitos, as amizades rompidas são justamente por isso. Cada um quer tirar proveito somente para si, e não pensa na pessoa do outro. Não pensa que o outro também precisa de compreensão, amor, carinho, doação, atenção. Não posso me anular, mas também não posso esquecer a pessoa do outro.
          Jesus chama a atenção dos apóstolos sobre a terceira etapa: Amar a Deus acima de tudo! São poucas as pessoas que conseguem chegar a este estágio na sua vida.
          Aqui não se ama somente a si mesmo e nem apenas a um outro, mas a todos. Essa forma de amor se faz necessária especialmente à quem segue a Vida Religiosa e/ou Sacerdotal. Onde deixa-se a possibilidade de amar apenas a uma outra pessoa, como no casamento por exemplo, para amar à todos(as) como irmãos(ãs) e filhos(as) de Deus.
          Aqui não quero desmerecer o casamento. O casal também pode desenvolver esse tipo de amor. Amar à Deus, a eles e a si próprio. Essa dinâmica é difícil, mas é a que mais realiza a pessoa. Onde a pessoa for vai ser feliz, pois seu amor, seu tesouro, seu coração estão enraizados em Deus e não nas pessoas, nem nos lugares por onde passa.
          Jesus chama a atenção dos seus apóstolos diversas vezes. Pergunta a Pedro três vezes se ele o amava, tentando mostrar à Pedro sobre o tipo de amor ao qual ele se referia.
          Amar à Cristo é amar as pessoas. Pois Ele está presente no rosto e no coração de cada um, a menos que não permitamos isso. Um amor universal que não faz distinção nem de raça, nem de cor, nem de credo. Um amor capaz de abraçar a todos sem limites. Quanto mais se ama, mais se quer amar, mais se pode amar. É no amor verdadeiro que a pessoa cresce e amadurece sempre mais.
          Muitos religiosos e sacerdotes não são felizes na sua vocação porque não conseguiram ainda dar esse passo. Muitos casamentos são desfeitos porque não se coloca Deus acima de tudo e sim na própria pessoa ou até nos objetos, nas conquistas. Para qualquer vocação à qual Deus nos chama; seja qual for o caminho a ser seguido, é preciso amar primeiro à Deus, que é a etapa mais longa e mais difícil, porém possível, e que poucas pessoas conseguem chegar lá verdadeiramente.                     O assunto é muito complexo, aqui não quero me abrir à outros lados, que também são importantes. É preciso amar aquilo que se faz e se conquista para que tenha um valor maior para nossa vida. O risco que muitas vezes corremos é de colocarmos todo o nosso amor nessas coisas que conquistamos. Porém, temos que ter claro que essas coisas terminam um dia e assim nossa felicidade pode terminar junto.
          Não posso pular estágios, queimar etapas. Primeiro passo é amar a si próprio, depois aos mais próximos e ai conseguiremos amar a Deus, a todas as pessoas que caminham conosco.
          Só amamos de verdade quando conseguimos nos doar sem nada exigir em troca. O verdadeiro amor não exige, mas se doa, pois sabe que é na doação que ele se fortifica e cresce sempre mais. Só vai entender essa dinâmica quem amar de verdade. Repito aqui: Amar a si, ao próximo e a Deus. Quem ama de verdade pode exigir, mas o amor não exige nada, pois sabe o quanto é bom poder se doar.
O amor à Deus vem em primeiro, mas só consigo chegar até Ele se passo pelos outros dois. “Amar à Deus acima de tudo”, nos diz Jesus. Porém não posso amar à Deus odiando o meu irmão. Quem tem raiva, ódio de alguém não ama a Deus, pois Deus é amor e permanecer em Deus é permanecer no seu amor, e o amor de Deus tem sua manifestação plena na pessoa de seu Filho Amado, Jesus Cristo.
Se a nossa essência é Amor, devemos amar à todos sem distinção. Porém, muitas vezes deixamos falar mais alto o nosso egoísmo, o nosso eu. O que nos torna infelizes, na maioria das vezes, é justamente esta falta de doação no Amor.
Agora podemos lançar um olhar mais profundo sobre nossas vidas, sobre nós mesmos. Onde está o nosso amor? Onde está nosso tesouro? Está em Deus ou nas coisas deste mundo? Quando não colocamos Deus acima de tudo em nossa vida, a nossa felicidade se acaba quando se acabam as coisas nas quais colocamos toda a nossa esperança, a nossa vida.
Todas as coisas que conquistamos com nosso trabalho são importantes, porém não essenciais. O essencial transcende o material e nos remete ao divino, fonte de toda vida, razão de nossa existência e para a qual estamos voltados.
Se o nosso tesouro for Deus, o Amor, a Paz, a doação, seremos felizes, porque estes não passam, permanecem e assim a nossa alegria será permanente, sempre almejando mais buscas, maior conhecimento, mais doação, maior entrega.
Oxalá se chegarmos a esse ponto, a essa etapa onde formos capazes de vermos em todas as pessoas e em todos os acontecimentos a mão e a vontade de Deus, interpretando a luz da sua verdade, o que Ele nos quer revelar.
Se Jesus convidou os apóstolos a fazerem esse caminho é porque Ele sabia que era possível. Hoje Jesus faz o mesmo convite à todos nós. Ele nos capacita para tanto, basta crer e se entregar sem reservas, sem nada exigir, deixando que Ele lapide nosso coração para que seja cada vez mais semelhante ao d’Ele. Caminho longo, porém possível. Caminho que conduz a certeza da plena felicidade, assim como temos certeza da existência de Deus.
          Os apóstolos e muitos homens e mulheres, ao longo da história nos mostraram que é possível fazer esse caminho e chegar a plena felicidade. Talvez ainda não tenhamos entendido essa dinâmica.
          O amor de Jesus é exigente, porém somos livres para escolher. Jesus exige porque sabe que a felicidade não está nas coisas que passam, mas nas que permanecem para a eternidade. Ele sabe também que somos frágeis e caímos diante das tentações, por isso exige uma atitude firme e de constante busca. Quando chegarmos lá veremos a vida com outros olhos e veremos em tudo a manifestação de Deus.
Hermes José Novakoski
Enviado por Hermes José Novakoski em 17/07/2005
Reeditado em 21/11/2010
Código do texto: T35195
Classificação de conteúdo: seguro

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Hermes José Novakoski
Marituba - Pará - Brasil, 35 anos
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