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A Crise da Leitura na Escola

A CRISE DA LEITURA NA ESCOLA

The Crisis of Reading at School

Eletícia Elza Carneiro Podolak

Em qualquer época da vida, a leitura é algo imprescindível na concretização da aprendizagem. Na escola, essa situação certamente não é diferente. Se há um consenso entre todos os educadores, é que ler só traz benefícios. No entanto, o que se percebe hoje nas escolas é o desgosto pela leitura por parte dos alunos, e a indiferença dos professores perante a esse assunto.
Infelizmente, a literatura hoje é abordada mais profundamente somente no ensino médio, como uma preparação para o vestibular. O ensino da língua portuguesa, que deveria caminhar junto com o ensino da literatura desde os primeiros anos da vida escolar, é tratado isoladamente. A falta de interesse dos alunos pela leitura nada mais é que uma consequência do modelo de ensino atual: o modelo que prepara o aluno para o vestibular. O gosto pela leitura não é desenvolvido, nem mesmo cogitado. Os livros são utilizados única e exclusivamente para atender os objetivos imediatos das disciplinas deixando completamente de lado as perspectivas externas a esses objetivos.
Além da literatura, a leitura de diversos gêneros textuais é negligenciada. Basta perguntar a qualquer aluno de 5ª série o que é um texto narrativo. A resposta provavelmente será “um conto de fadas” ou “uma historinha”. As noções mais complexas desses gêneros não são trabalhadas ou, se são, são passadas de forma superficial e artificial, não dando ao aluno qualquer possibilidade de desenvolvimento das competências de assimilação dos gêneros. Cartas, bilhetes, avisos, não são considerados gêneros textuais, e também não representam possibilidades de leitura. Revistas em quadrinhos são consideradas passatempos, não representando também uma oportunidade de leitura e análise. Todos esses fatores, somados a uma crescente marginalização do ensino de literatura, levam cada vez mais os alunos, a perderem cedo, o gosto pela leitura.
A ação de ler representa toda a identificação de mundo e de situações que cercam o leitor. Os diversos tipos de textos representam um leque infinito de possibilidades de leitura, e propiciam descobertas em vários sentidos. A leitura não está presente só na língua portuguesa. Ela é um viés de trabalho interdisciplinar e versátil, presente em todas as postulações programadas das matérias escolares.
Em primeira instância, a literatura é o meio mais conhecido e utilizado de leitura. Para as crianças na fase de alfabetização, constitui uma forma de aproximação ao mundo das letras e relação do mundo à escrita. Por esta razão, a literatura deve ser levada às salas de aula desde o 1º ano do fundamental até o 3º ano do ensino médio, não apenas com o intuito de atender ao cronograma, mas como meio e veículo de construção de sentidos. Para isso, deve-se ficar atento às maneiras corretas e eficientes para a consolidação dessa atividade.
Primeiramente, faz-se necessária a pesquisa de preferências dos alunos. Esta pode acontecer por questionário, sondagem ou observação. Em linhas gerais, meninos tendem a gostar de livros de ficção científica, ação, monstros. Meninas preferem contos de fadas, histórias de animais, de crianças, posteriormente romances. É muito importante iniciar na sala de aula, os momentos exclusivos de leitura recreativa. Sobre isso, Zilberman (1991) fala que:

Enquanto a leitura informativa é alvo de todas as disciplinas, a leitura recreativa, de livros de ficção e poesia, diz respeito especificamente ao professor de Português. Portanto, ela deve ser uma atividade prioritária no programa de estudos da linguagem. Seu exercício possibilitará ao aluno uma forma habitual de lazer, ao mesmo tempo em que aguçará seu espírito de análise e crítica da literatura como expressão cultural. (pg. 86)

Acrescentando a essa afirmação, pode-se dizer que a leitura recreativa pode e deve acontecer em qualquer disciplina. Por exemplo, em Ciências lê-se um conto que fale de planetas ou florestas, para que, de forma implícita, as noções trabalhadas nessas disciplinas possam ser assimiladas.
Também é necessário estar atento ao contexto social no qual a leitura literária será trabalhada. Não adianta de nada colocar a leitura simplesmente como passatempo, sem importar-se com o mundo que cerca o estudante. Zilberman diz que “A promoção da literatura na escola só terá êxito na medida em que se voltar para a realidade como ela é e atender às necessidades das crianças e jovens” (pg. 106).  Não se pode esquecer as particularidades dos alunos. A leitura precisa ter significação, precisa fazer sentido, precisa estar ao alcance da vista do estudante. “Só oferecendo ao aluno um elenco de alternativas literariamente variadas, para que ele escolha aquele livro que mais o interessa, o professor estará atingindo os objetivos educacionais relacionados à leitura e à literatura [...]”. (Zilberman, p. 106).
Naturalmente, as faixas etárias são marcadores no sentido de possibilidades de leitura.
a) 3 a 6 anos: Livros de gravuras, rimas infantis, cenas individualizadas.
b) 6 a 8 anos: Aventuras no ambiente próximo: família, escola, comunidade, história de animais, fantasia, problemas infantis.
c) 8 a 11 anos: Contos fantásticos, contos de fadas, folclore, histórias de humor, animismo.
d) 11 a 13 anos: Aventuras sensacionalistas: detetives, fantasmas, ficção científica, temas da atualidade, histórias de amor.
e) 13 a 15 anos: aventuras intelectualizadas, narrativas de viagens, conflitos psicológicos, conflitos sociais, crônicas, contos. (Zilberman pg. 109)
Com base nesta lista, pode-se organizar todo um planejamento de leitura para o ano letivo. O importante, é que ela (a leitura) não aconteça simplesmente por mera convenção, mas alcance produtividade em seu desenvolvimento.
Deve-se explicitar também a versatilidade da leitura, mostrando como um texto pode ser feito de diferentes maneiras, e como ele se faz presente em várias outras situações. Para isso, é possível utilizar-se de técnicas variadas utilizando-se também de variados tipos de texto. Por exemplo, o professor solicita a leitura do conto da Chapeuzinho Vermelho e depois traz à sala o filme da Chapeuzinho, depois uma música baseada na história. Por fim, mostra novas versões da história (versões modernas, versões com Chapeuzinho de outra cor). O professor também pode solicitar a dramatização do conto, a construção de novas versões, a criação de finais alternativos para a história, a criação de uma notícia falando sobre os fatos da história, enfim, o leque de possibilidades é gigante. O que importa aqui é mostrar como a leitura pode ser gostosa e muito eficaz para o aprendizado.
A importância desses recursos é primordial, como podemos perceber através da afirmação de Zilberman: “[...] trabalhar descontraidamente o texto pode servir, entre outras coisas, à recuperação da emoção e afetividade perdidas.” (pg. 48).  Muito além do conhecimento, o papel da leitura é também a melhoria da qualidade emocional de vida. Nas histórias, acontece a resoluções de problemas, o enfrentamento das dificuldades da vida. A leitura ajuda na construção da auto-estima, da personalidade, do caráter, do domínio próprio. Estimula a busca por conhecimento e por sabedoria.
Além disso, a maioria das histórias traz um ensinamento moral. Ensinamentos esses que levam as crianças a adotarem posturas diferentes frente à muitas situações vividas.  As fábulas são um bom exemplo desses tipos de textos.
Outro tipo muito importante de leitura recreativa e literária é a leitura de poesias. A poesia em si, traz muitas possibilidades de trabalho, pois possui em sua estrutura a fruição e a ludicidade necessárias a primeira fase de aquisição do gosto pela leitura. O poema oferece a oportunidade de produção de sentidos e formação do cidadão por meio de uma leitura prazerosa e divertida.
Além da leitura literária, temos a leitura informativa. Esta possibilita a interação entre vários tipos de conhecimento. Entre os tipos de textos que podem ser levados às salas, estão as notícias de jornais, os artigos, as colunas de revistas. Devem-se levar em consideração nesse tipo de leitura, os seguintes aspectos:
a) Explicar: para que servem os textos, para quem eles são redigidos, por que eles são escritos;
b) Levar à sala, somente textos que despertem a curiosidade e interesse dos alunos e que possam ser compreendidos em sua totalidade por eles – não adianta levar um artigo de opinião complexo para uma turma de 4ª série. São exatamente atitudes como estas que causam o desgosto pela leitura;
c) Desenvolver atividades relacionadas às leituras, para melhor assimilação das informações.
Deve-se deixar bem claro que a leitura acontece pelo encontro de no mínimo dois interlocutores: o leitor e o escritor. Em outras palavras, aquilo que está sendo lido foi, anteriormente, escrito por alguém, com algum propósito e alguma função. Descontextualizar a leitura é algo que a escola tem feito muito – muitas vezes sem perceber, ao oferecer textos “de ninguém” e oferecidos “para ninguém”. Ou seja: sem um motivo para a leitura.
Como sugestão de utilização dos textos informativos pode-se citar: leitura das notícias do jornal do dia, debates sobre as notícias lidas (lembrando sempre que a notícia precisa ser contextualizada ao aluno), leitura de revistas infantis, comentários sobre os textos lidos.
Existem muitos outros gêneros e tipos textuais que são deixados à margem no ensino de hoje, tais como os convites, cartas, bilhetes, avisos, enumerações. Todos eles devem ser trabalhados, sempre com um planejamento prévio, buscando a consolidação, não do hábito de ler, mais do gosto de ler.
Dizer que o currículo escolar já é pronto como desculpa pela indiferença pelo estímulo ao prazer de ler não deve mais existir. É preciso mudar, e mudar logo. Utilizar novas estratégias e novos tipos de textos é primordial neste processo de mudança. A aquisição do gosto pela leitura não é tarefa impossível, muito pelo contrário. Com esforço, dedicação e seriedade uma nova geração de leitores, e sobre tudo bons leitores, com certeza, estará a se formar.



Referencias Bibliográficas:

ZILBERMAN, Org Regina. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 10ª ed. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1991.


BRASLAVSKY, Berta P. de. Problemas e Métodos no ensino da Leitura, 1971.

GERALDI, Org João Wanderley. O texto na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1997.
Eletícia Podolak
Enviado por Eletícia Podolak em 07/03/2012
Reeditado em 08/03/2012
Código do texto: T3541337

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Sobre a autora
Eletícia Podolak
Guarapuava - Paraná - Brasil, 22 anos
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