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O mito da neutralidade científica
-  Sílvia Mota -

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Um tema de grande saliência na atualidade, pois se trata de um dos itens essenciais da bagagem intelectiva dos cientistas, é o mito da neutralidade científica. De contornos polêmicos, tentar-se-á, em poucas palavras, expô-lo.

O que é um mito? Um mito é uma narrativa de significação simbólica, encerrando uma verdade cuja memória se perdeu no tempo. É irreal. É fábula. É uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada a partir de perspectivas múltiplas e complementares. Poderá ser aplicável ao contexto científico?

Neutralidade, por sua vez, significa imparcialidade. Um posicionamento neutro dissocia-se da esfera dos valores, daquilo que tem importância para a pessoa humana considerada em sua individualidade ou em sua vida social.

O que é ciência? Nada mais do que um conjunto de atividades racionais dirigidas ao conhecimento da verdade.

Aceitas estas definições, pergunta-se: entender a questão da neutralidade da Ciência como um mito, não seria proibir as abordagens questionadoras, e, dessa forma, abrir fendas à aceitação de aplicações anti-sociais como o uso não-humano e desumano da Ciência, que poderá levar à degradação da espécie humana? Deverá, a este respeito, ser reelaborado o conceito de mito? É a Ciência um saber neutro, desinteressado, à margem dos questionamentos sociais e políticos acerca dos fins de sua pesquisa? Pode a atuação do cientista ser considerada neutra? A determinação do objeto a ser pesquisado envolve escolha e, conseqüentemente, um juízo de valor? Os resultados das pesquisas científicas e as conseqüências advindas, dizem respeito à propalada responsabilidade social do cientista? Estes são os busíles.

É necessário, antes de tudo, assumir que o conjunto de invocações de idéias concernentes à neutralidade científica, transformando-a em mito, parece avolumar-se nos presentes dias, principalmente no que se refere à aplicação da biotecnologia à vida humana.

A resposta há de ser extraída de um duplo enfoque que se tem do mundo: um a ser realizado pelo homem comum, e o outro, científico. Mas, seriam mesmo distintas essas duas atitudes? É preciso delimitar que o homem comum faz descobertas casuais, espontâneas, baseadas no bom senso, desvinculando-se da obrigatoriedade de comprovação. O cientista, por sua vez, ao detectar um problema, formula hipóteses na tentativa de solucioná-lo, ainda que transitoriamente; no momento seguinte investiga, escavando o conhecimento, no afã de comprovar aquelas hipóteses. Neste percalço, o cientista compara teorias, com vistas ao progresso do bem-estar humano e, às vezes, no seu labor, atinge terceiros. Quando isso ocorre, impõe-se saber sobre a validade dos fins a que se destinam essas pesquisas e os meios empregados para a sua realização.

Pode-se afirmar que a Ciência de outrora era neutra e amoral, seu domínio era o conhecimento objetivo desinteressado e neutro com relação às suas aplicações, e livre quanto às finalidades da ação. Porém, torna-se falso e ilusório pensar o mesmo da Ciência atual, que, entrelaçada à sociedade, é vista não apenas como um instrumento nas mãos dos membros dos poderes econômicos e políticos, mas também como a cobertura ideológica de todo o sistema do capitalismo global (MARX, 1978, p. 325-326). Em conseqüência, o trabalho científico realizado pelo pesquisador, também não é neutro, não se realiza apenas na procura indiscriminada do saber, pois a pesquisa, como responsabilidade social, assume um papel político. Neste campo existem as escolhas subjetivas do cientista, que exprimem seus sentimentos e opiniões dos grupos aos quais se afilia.

Embora comprometido com sua escolha, ousa-se afirmar que o cientista não é responsável, entretanto, pelos usos que fazem outros homens das suas descobertas. Ao trabalhar em prol da sociedade, trará ao mundo real criações que poderão ser de grande utilidade social, mas que, também, poderão destruir o mundo. Pelo que se sabe, o cientista avança em direção ao que jamais será alcançado, explora o objeto de sua curiosidade, sem, no entanto conseguir esgotá-lo ou modificar-lhe o caráter de natureza imutável. É por isso que o ritmo natural do amanhecer e do entardecer não se modificará intimidado pela observação e cálculos objetivos daquele que o provoca com suas preocupações. Sendo assim, utilize a sociedade as descobertas científicas para benefício ou malefício da humanidade, jamais poderá ser responsabilizado o cientista pelas conseqüências, da mesma forma que não poderá ser culpado aquele que forjou a espada pela morte que causou, com ela, um outro indivíduo.

Como se apercebe, parece urgente um amplo debate sobre os limites éticos a serem colocados à Ciência. Pode-se afirmar que não cabe apenas aos cientistas ou aos políticos estabelecer as normas orientadoras da prática científica, mas a todos os cidadãos que conviverão com o produto das descobertas científicas.

Hilton Japiassu (1975, p. 185) discorre sobre o mito da neutralidade científica, até concluir que: "O impacto do trabalho científico sobre a sociedade constitui objeto de estudos cada vez mais críticos. A contestação não é mais um fenômeno esporádico, oriundo de causas locais ou fortuitas, como se poderia pensar, mas o resultado de exigências de maior lucidez e responsabilidade, tentando conjugar ciência, moral e política."

As novas descobertas esquadrinham arriscada vereda onde licitude e ilicitude colocam-se frente a uma difusa e fronteiriça zona. Não existem paradigmas ao que seja eticamente aceitável ou condenável, restando apelar para a responsabilidade das pessoas envolvidas na tomada de decisões. Os palcos da Ciência exibem inúmeros benefícios para a humanidade. Ao desvendar segredos, até então guardados a sete chaves pela guardiã Natureza, o cientista dota a humanidade de conhecimentos e informações nunca imagináveis, que poderão colocar-se a serviço da vida e do bem estar da Humanidade. Profícuas esperanças são oferecidas pela Ciência, mas não se pode relegar ao esquecimento que as produções científicas são, muitas vezes, como a espada da Justiça: uma arma com duplo fio. Isso significa que se o desenvolvimento científico poderá ser usado para o bem de todos os seres humanos, também poderá sê-lo em direção ao mal da vida humana, ocasionando irreversíveis danos quando de sua aplicação.

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Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Imagem principal: Cético. Google

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 21/03/2012
Código do texto: T3566650
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Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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