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Análise Literária na obra Vidas Secas de Graciliano Ramos.

UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ
CENTRO DE LETRAS, FILOSOFIA E PEDAGOGIA

ARTIGO CIENTÍFICO

ANÁLISE LITERÁRIA DA OBRA VIDAS SECAS DE GRACILIANO RAMOS

Maria Vanábia Alves

Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar uma análise literária da obra Vidas Secas cujo autor é Graciliano Ramos, abordando temáticas discutidas na disciplina de Teoria da Literatura, a qual também vai ser apresentado. A pesquisa conta como base teórica autores como Aristóteles e José de Nicola. De início, fala-se sobre algumas metáforas que podem ser encontradas na obra, em seguida, da Verossimilhança e por fim da relação artista e artesão de Mário de Andrade.
PALAVRAS-CHAVE: Metáfora. Mimésis. Verossimilhança. Artista e Artesão.

1. INTRODUÇÃO
      Este trabalho nasceu da curiosidade que se tinha a respeito da produção da obra Vidas Secas de Graciliano Ramos, considerado o melhor romancista moderno da literatura brasileira, que foi publicada em 1938. E de mostrar como está organizada essa obra de acordo com a Verossimilhança, Metáfora e a relação Artista-Artesão de Mário de Andrade.
     Vidas Secas é a apresentação da escassez da água no sertão nordestino, romance narrado em 3° pessoa, que retrata as condições de existência no meio da seca, tendo como personagens uma família de retirantes: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia, que abandona sua terra e parti em buscar de um lugar para sobreviver, percorrendo um longo caminho enfrentando fome e sede. Levando ao limite o clima de tensão presente nas relações entre o homem e o meio natural, mostrando que as mesmas são capazes de moldar personalidades, transformar comportamentos e até mesmo gerar violência entre o homem e o meio natural, mostrando que as mesmas são capazes de moldar personalidades, transformar comportamentos e até mesmo gerar violência.
      Estudar e analisar uma obra literária são trabalhos ricamente prazerosos, pois há possibilidades de encontrar um mundo desconhecido e irreal que jamais poderá ser totalmente descoberto, se não houver um estudo aplicado, tal estudo deve ser feito por aqueles que se consideram “amantes” da literatura. Este artigo merece real atenção de todos ao profissionais da área literária, professores e estudantes de literatura e contribui de forma significativa para aqueles que estão em busca de conhecimento no mundo literário.

2. METÁFORAS CONSTITUINTES NA OBRA VIDAS SECAS
       Antes de serem apresentadas as metáforas que contém a obra é preciso rever alguns conceitos do que vem a ser metáfora. Segundo Aristóteles (1997, p. 42):
Metáfora é a transferência dum nome alheio do gênero para espécie, da espécie para o gênero, duma espécie para a outra, ou por via de analogia. Do gênero para a espécie significa, por exemplo, “Meu barco está parado ali”, porque fundear é uma espécie de parar; da espécie para o gênero: Palavra! Odisseu praticou milhares de belas ações”, porque milhares equivale a muitas e aqui empregado em lugar de muitas [...].
È transferir nomes baseado em semelhanças e correspondências, muitas vezes encontradas somente pelo autor da obra, o que causará dificuldade na compreensão do leitor sobre tais semelhanças. Metáfora também pode ser conceituada como um recurso estilístico marcado pela transposição de sentidos figurados e reais, ou seja, visa estabelecer imagens e fornecer campo para que o leitor amplie a significação, construa os significados. E é um recurso muito utilizado na literatura, considerada a arte de ampliar as significações por meio da linguagem verbal.
       A comparação que fez o personagem Fabiano consigo mesmo em “Você é um bicho, Fabiano!”, é uma metáfora explícita que contém a obra. Fabiano é um vaqueiro, iletrado e não possui o domínio do signo da linguagem e vive sob o signo do silêncio, ele se considera um bicho e se orgulho de vencer as dificuldades tal qual um bicho. A situação de miserabilidade é tão devastadora que ele só poderia ser mesmo um animal pra suportar tanta desgraça que estava vivendo com sua família. Por vezes, esta alusão não é tão direta, mas mesmo assim encerra claro esse caráter de autoanimalização, referindo-se aos outros como “os homens” e a si mesmo como “um bruto” ou “um cabra”.
       Dando continuidade temos o tema água que é um argumento recorrente na literatura, devido a sua ligação direta com a vida, por ser uma abordagem própria dos textos literários e também pela sua força de metaforização, ainda que recorrente a essa mesma vida. Ela, enquanto elemento físico é o motivo que conduz os caminhos dos personagens ao longo dos romances. Enquanto elemento social promove a segregação entre os homens, fortalece aqueles que podem acessá-la e enfraquece os que se mantêm distantes. Nessa obra a água constitui a metáfora da própria vida. Nesse mesmo sentido há o termo seca que é designado na obra como adjetivo de várias palavras: secas são suas vidas, secas estão suas esperanças, seca e dura é a cama de Sinhá Vitória, secos são os sentimentos de Fabiano, seca é a terra, seco é o céu e seca é a história sobre os viventes. Somente de forma metafórica o adjetivo seca pode ser usando para acompanhar alguns desses substantivos, mantendo ainda coerência.
       Um elemento metafórico flagrante nas obras de Graciliano Ramos é a animalização, o autor atribuir á família de Fabiano a condição de animais, inclui em seu romance a cachorra Baleia que a todo o momento, tem atributos de sentimentos e comportamentos tipicamente humanos. Fabiano, Baleia-bicho e vice-versa faz com que não só a ausência de linguagem e a marginalização social sejam responsáveis pela condição animalizada da família de retirantes, mas também, pela própria comparação que é feita entre um bicho e Fabiano. A cachorra que era parte da família, mostra então como a ligação entre animal e ser humano estava estreita. Cabe a ela também o momento mais dramático da narrativa. O autor a provê de sentimentos como alegrias e tristezas, vida e morte; aos demais personagens, cabem apenas á sobrevivência.
       Dentro dessa perspectiva, pode se percebe que o uso da metáfora não nasce de um gosto particular ou de um capricho do autor, mas sim da necessidade que este tem de dizer, configurar e aprender esteticamente o mundo que toma por alvo.


3. MIMÈSIS E VEROSSIMILHANÇA NA OBRA VIDAS SECAS.
       A mimèsis pode ser considerada como imitação ou representação da realidade, de acordo com ideias do filósofo Aristóteles. E a verossimilhança como aquilo que é possível ou aceitável pela opinião comum, ou ainda o que o texto tem que se assemelhe ao real, para que assim possa convencer o leitor. São, pois, conceitos semelhantes que estão relacionados, daí o ponto de serem apresentados de forma conjunta.
       Sabe-se que a obra Vidas Secas de Graciliano Ramos, retrata fielmente a vida de uma pequena e pobre família de nordestinos, que sofrem com vários problemas: a seca (o principal), a submissão ao homem branco, a autoridade arbitrária e a escassa linguagem resultante da ignorância. Com isso, é bastante perceptível o conteúdo mimético na obra de Graciliano, visto que ele não só imita, como também representa uma realidade marcada por injustiças sociais ainda presente em nossa sociedade. Possivelmente, o sábio uso da mimèsis pode ser justificado segundo Aristóteles (2005, p. 21 e 22):
                                            Imitar é natural ao homem desde a infância – e nisso difere dos outros animais, em ser o mais capaz de imitar e de adquirir os primeiros conhecimentos por meio da imitação – e todos têm prazer em imitar. Prova disso é o que acontece na realidade: das coisas cuja visão é penosa temos prazer em contemplar a imagem quanto mais perfeita; por exemplo, as formas dos bichos mais desprezíveis e dos cadáveres.
      É isso o que o autor de Vidas Secas faz brilhantemente, imita uma realidade cuja imagem parece ser perfeita e penosa, utilizando para isso a verossimilhança. Em relação a esta, De Nicola (2005, p. 234) distingue dois tipos:
                                            Verossimilhança externa: pela identificação com a realidade, com aquilo que o senso comum aceita como possível, provável; Verossimilhança interna: pela coerência interna dos fatos ficcionais dentro da própria narrativa. Dessa forma, uma narrativa ficcional pode ser considerada inverossímil se seu universo imaginário for improvável e/ou absurdo em relação à realidade ou se seu universo imaginário não apresentar coerência lógica interna.
      Observa-se que em Vidas Secas se encontram os dois tipos apresentados: a externa, pelo próprio assunto, tema da narrativa que se liga com o universo real; e a interna, perceptível por meio da lógica de como os fatos estão estruturados.
      Já dizia Aristóteles (2005, p.28) que: “a obra do poeta não consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas quais podiam acontecer, possíveis no ponto de vista da verossimilhança ou da necessidade”. Assim como faz Graciliano, vale lembrar que os capítulos de sua obra podem ser lidos separadamente, sem prejuízo a compreensão do enredo, alguns deles até já foram publicados como contos. Depreende-se, portanto, que nela não há nada de inverossímil.

4. GRACILIANO RAMOS: UM VERDADEIRO ARTESÃO E ARTISTA.
     Graciliano Ramos é autor de diversas obras, tais como: Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas Secas (1938). Seus enredos costumam tratar de assuntos como o latifúndio, o sofrimentos dos retirantes, a cidade, e a seca, presente na obra em questão. Desta são personagens: Fabiano, Sinhá Vitória, O Menino Mais Velho, O Menino Mais Novo, a cachorra Baleia e um papagaio; esses são oprimidos pelo meio em que vivem, o sertão. Em Vidas Secas, pode-se ver ainda, como já mencionado em outro tópico, a animalização do homem, Fabiano se considera um bicho; e o oposto, a humanização do animal, tipificada pela cachorra Baleia.
     Logo, não é por acaso que Graciliano é considerado por muitos um dos mestres da literatura, ou mesmo um verdadeiro artista, uma vez que essa é tida como arte da palavra. A respeito da arte, Andrade (1975, p.11) destaca:
                                            Existe, é certo, dentro da arte, um elemento, o material, que é necessário pôr em ação, mover pra que a obra de arte se faça. [...] Mas nos processos de movimentar o material, a arte se confunde quase inteiramente com o artesanato. Pelo menos naquilo que se aprende. Afirmemos, sem discutir por enquanto, que todo o artista tem de ser ao mesmo tempo artesão.
      Por conseguinte, baseando-se nos pressupostos de Mário de Andrade, tal habilidade artística do escritor alagoano, deve-se ao fato deste ser conhecedor do material com que trabalha e de suas técnicas artesanais de composição e estruturação, ou melhor, ser um grande artesão; em conformidade com a ideia de que para ser artista é preciso ser bom artesão, são, por assim dizer, missões indissociáveis.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
     Observa-se, por meio do que já foi apresentado, que o romance Vidas Secas do escritor modernista Graciliano Ramos, publicado em 1938, trata de um tema ainda existente na realidade brasileira atual: a seca. Entre outros que se relacionam ao mesmo, como a pobreza nordestina da época; um governo arbitrário, caracterizado pelos soldados amarelos; a ignorância do sertanejo; enfim, as injustiças sociais.
     Essas observações resultam de uma série de pesquisas sobre a obra, na tentativa de se fazer uma simples análise de sua constituição. Para isso, tentou-se basear a estruturação do trabalho nos conteúdos vistos em sala, sobre a literatura, são eles: a mimèsis, a verossimilhança, a metáfora e a relação entre artista e artesão.
     Assim, com a elaboração desse artigo, pode-se perceber a grande importância e contribuição de Graciliano Ramos para a literatura brasileira. Além de se compreender melhor sobre a estruturação de Vidas Secas, e a relação existente dos conceitos apresentados no decorrer do trabalho com as demais obras literárias; o que irá auxiliar no conhecimento dos que fazem parte da área de Letras.

















6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES, HORACIO, LONGINO. A poética clássica. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2005.
DE NICOLA, José. Português: Ensino médio, volume 2. São Paulo: Scipione, 2005.
ANDRADE, Mário de. O baile das quatro artes. São Paulo: Martins, Brasília, INL, 1975.
 






Vanábia Alves
Enviado por Vanábia Alves em 15/07/2012
Código do texto: T3779256
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Sobre a autora
Vanábia Alves
Acaraú - Ceará - Brasil, 21 anos
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